05/04/2024

NUNCA, NADA, NINGUÉM ( Rosa Berbel )

 Eu me pergunto com quantas dessas pessoas

estaremos novamente ou qual será o nome delas
se terão essa mesma raiva
pelos maus movimentos da vida
ou essa felicidade momentânea
e dourada
que passa pelos parques e pelas mãos
se esse espaço que compartilhamos agora
será outro amanhã se Amanhã
talvez seremos diferentes e nos conheceremos do zero
e não nos lembraremos do momento
em que entramos juntos nestas praças,
da música que tocava naquele saxofone,
daquela criança perdida que chorava no chão
ou a beleza fugaz
dos semáforos
em que todos se beijavam.

MICROCOSMO ( Rosa Berbel )

 Começamos a nos despir lentamente,

dentro de um carro velho.
O carro, que não é nosso,
balança de um lado para o outro,
da frente para trás, com um balanço distante e sustentado
.
Parece que você me toca da mesma forma que
coisas mal emprestadas tendem a me tocar.
Não muito longe, você pode ouvir o simples estrondo
que precede um deslizamento de terra.
Um edifício aguarda a sua queda.
Qualquer mudança imprevista causaria o colapso,
um movimento desajeitado
poderia facilmente nos lançar no ar.
Se a violência rítmica de nossos corpos
fosse interrompida,
se eu, mulher, gritasse,
ou apontasse para você ou caísse nua
no chão sujo,
estaríamos todos perdidos.
Meu grito, mesmo solitário, deixaria
um massacre.
A cena, um equilíbrio repentino e remoto,
nos deixa tensos de ambos os lados
para sempre.
A intimidade sustenta os alicerces
das casas em ruínas que nunca construiremos.

UMA MULHER AO SOL ( Ioana Gruia )

 Não há nada tão retumbante quanto um corpo.

Imagino a história
dessa mulher nua e pensativa
que se parece comigo.

Ela é dona de sua solidão e anseia por
um amor torrencial,
um sentimento de mar revolto
que ao mesmo tempo respeite seus pensamentos,
que lhe permita analisar as sombras.

Essas sombras são às vezes evasivas
e às vezes tão retumbantes quanto um corpo.

As sombras do amor e da vida,
emoldurando a faixa luminosa,
que mal cobre o que um corpo cobre.

Corpo nu ao sol:
lugar de luz rodeado de sombras.

COISAS PARA DEIXAR (Ana Luísa Amaral )

 Procuro te empurrar de cima do poema

para não destruí-lo na emoção de vocês:
olhos semicerrados, nas precauções do tempo
sonhando com ele de longe, tudo de graça, sem você.

Seus olhos, sorriso, boca, olhar estão ausentes dele;
todas as coisas sobre você, mas coisas sobre partir
E nasce o meu alarme: e se você morresse aí,
no meio do chão sem um texto que te falta?

E se você não estiver mais respirando? Se eu não te vejo mais
porque quero te empurrar, letra de emoção?
E meu pânico aumenta: e se você não estivesse lá?
E se você não estivesse onde está o poema?

Respiro eroticamente com você:
primeiro um advérbio, depois um adjetivo,
depois um verso todo emocionado, promessas.
E termino com vocês em cima do poema,
presente indicativo, artigos no escuro.

03/04/2024

DESEJOS ( Affonso Romano de Sant’Anna )

 Disto eu gostaria:

ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.
Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
-Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não:-Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
-As formigas neste inverno estão dando tempo `as flores,
e não:-Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno inseto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.

02/04/2024

AS PÉTALAS DO TEU CORPO ( Liliana Jardim )

 Desnudo as pétalas do teu corpo

em dedos febris me consumo
do teu olhar teço pássaros de fogo
do teu cabelo bordo cascatas fome

No meu rosto cintila Andrômeda
no meu peito latejos de mariposa
na minha boca a suculenta romã
nas minhas mãos o fulgor da manhã

No torvelinho da tua alma me perco
nas vítreas gotas dos teus poros, gotejo
na aura do meu estonteamento, levito
no insano momento de languidez, feneço

E no silêncio das minhas mãos febris
poeto versos no teu corpo consoante
na embriaguês das eternas vogais,
sussurro o sibilado vocábulo, amo-te


MÃOS ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Côncavas de ter

Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.

31/03/2024

ÚTERO EM SANGUE ( Marina Colasanti )

 Ditas impuras como os leprosos

mulheres menstruadas

 ou paridas

tinham vetada a entrada

no Templo de Jerusalém.

 

Esqueciam os sacerdotes

— ou muito se lembravam —

que sem o útero em sangue

das mulheres

não haveria Templo

nem sacerdotes

nem homem algum dos tantos de Israel

com sua usurpada pureza.


CANÇÕES ( António Botto )

 Pedir

amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?

O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.

ANDA VEM ( António Botto )

 Anda vem, porque te negas,

Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha  rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
 Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem! Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

SE DUVIDAS QUE TEU CORPO ( António Botto )

 Se duvidas que teu corpo

Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

PASSEI O DIA A OUVIR O QUE O MAR DIZIA (António Botto)

 Eu ontem passei o dia

Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Falou-me do seu destino,
Do seu fado...
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.
O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de águas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?
Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado
Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.
Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
- Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte
E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!

30/03/2024

TRIVIAL SIMPLES ( Paulo Venturelli )

 Ah esse saxofone

no veludo da noite

serpente célere

procurando as cavas do corpo


OS AMANTES COM CASA ( Joaquim Pessoa ) in Inéditos

Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes,
no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até
ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.

25/03/2024

NUA ( Isabel Machado )

 Porque me despes completamente

sem que eu nem perceba
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua

ALI, ONDE ( Marina Colasanti )

 Onde a coxa acaba

e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.

Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.

INSTRUMENTO SEM SOM ( Marina Colasanti )

 Tua nuca macha

cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva 
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.

PRECISO, PARA ( Marina Colasanti )

 Preciso que um barco atravesse o mar

lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal 
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.


 

EU SOU UMA MULHER ( Marina Colasanti ) in Rota de Colisão, 1993

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.

Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.

Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho-d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.

Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.

O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.

O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.

PODE CAFÉ ( Elisa Lucinda )

 Ela pede

Ela cora
Ela quer
Coar café na mira
de minhas elegantes meninas
E correr pela ladeira ume-descida
Calcinha coador pela manhã
Ela cede
Ela chora
Ela até
canta um sangrado tango
e me diz: Não me zango
em abrir geladeiras
Quando o que faz é o que quer
Ela mede
Ela mora
Se ela der
um grito no espaço
da cozinha
É que ela quer ser minha
e fugir
Se cair em desmaio
na sala
quer voltar pra senzala
E dançando um xote
apanhar com meu chicote
Mil lambidas
Mil lambadas
Ela em pele
Ela agora
Ela aqui
Me engole o ferrão do corpo
E sai zombando de mim


 

UM DUETO ( Francis Hime & José Carlos Capinam)

 Essa ave madrugada

Apaixonada, ai
Voa voa e sem parar
Entra doida na janela amada

No espelho
Desespero
Eu sonho o teu sonhar
Quase tua
Toda nua
Meu luar luar

Sereno o teu cabelo
Bele belo
Meu amor
O cheiro estrangeiro da paixão
É quase dor
É dor tão verdadeira
Que me faz quase afogar
Seu beijo
Meu desejo
Que jamais vão nos salva
Para, madrugada
Vê se atrasa esse amanhã
Vem me tomar, abraçar
Brilha sobre nós Estrela Dalva
Arde labareda eternamente
A me queimar, queimar

Para, madrugada
Vê se atrasa esse amanhã
No brilho dos teus olhos
Já começa a clarear
O ardor dessa paixão
Que nunca mais vai se salvar
Igual a essa luz,
Verão, luar, constelação
Estrela Dalva, arde em paz
Clareia, coração

Para, madrugada
Vê se atrasa esse amanhã
Vem me tomar, abraçar
Ave louca a sonhar
Me tomar, abraçar
Ave louca a sonhar...


QUANTO MAIS VELA MAIS ACESA ( Elisa Lucinda )

 Um dia quando eu não menstruar mais

vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.