"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
03/08/2024
HÁ MULHERES COMO HERBÁRIOS ( Lília Tavares )
ANOITECEU A TARDE ( Lília Tavares )
pura de açucenas
procuro a transparência
da tua espera como a um abraço
que me enlace e leve
para o mais profundo de ti.
Batem as horas no sino da capela
que desconhece se é de verão ou de frio
que os sentires se vestem.
Balbucio um chamamento surdo
só o entardecer pode levar a água
deste cântico de coragem e espera.
Sei que é improvável o tocar
dos teus ombros na concavidade
do meu colo grato por me habitares,
sei que a ausência se fatiga, mas a tua não
e que são de cristal e algodão
o toque das nossas mãos.
Por uma noite, um tempo te vou esperar
pois a vida não tem horas
quando as nossas vozes roucas se procuram,
de tanto aguardar, as mãos se retorcem
para depois se acariciarem.
Não pode haver tempo nem pressa
neste livro que se permite ler devagar
pois é nas páginas em que o marcador adormece
que renasce das palavras o amor maior.
OS PÊSSEGOS ( Eugénio de Andrade )
Por Hilda Hilst
Amargura no dia
amargura em todos os teus gestos
DESEJO ( Hilda Hilst ) De "Do Desejo" (1992)
TESTAMENTO LÍRICO ( Hilda Hilst )
Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.
E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.
Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.
QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE ( Hilda Hilst ) in Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)
Que este amor não me cegue nem me siga.
29/07/2024
COISA MAIS BONITA ( Flaira Ferro )
28/07/2024
COMO UMA FLOR VERMELHA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )
À sua passagem a noite é vermelha
26/07/2024
DEIXA O SOL SAIR ( Djavan )
24/07/2024
DOIS SENTIDOS ( Lúcia Serra )
Quando
permeias
na geografia
(acidentes
planícies
matas
e rios)
é em braile
que tu me lês
atento e sôfrego
decifrando
incógnitas
tateando sílabas.
De olhos fechados
(e cego de desejo)
o amor
medra
na paisagem
os
ícones
de seus próprios
passos.
Signos.
CAVALGADA ( Lúcia Serra )
a ânsia
com a qual
me bebeste
(mel e absinto)
atiçou
cavalos
percorrendo
pradarias.
turbulência
na paisagem
(mescla da tarde
e ventania)
acossando
na encosta de morros
o murmúrio
de riachos e minas
(líquidos ruídos).
paia o galope
não há trégua
o êxtase
evola
das
narinas
pelos
hálito afoito
suor
caldas
e crinas.
batida de cascos
matinada
e relinchos
confluência
de sentido
e sina
no encalço
do acaso.
POEMA 14 (Alice Vieira)
Toma-me ainda em tuas mãos e
não perguntes nada
o mundo é apenas isto e para isto
não procures nenhuma filosofia redentora
porque tudo é no fim de contas tão banal
A VINGANÇA DE CUNHÃ ( Thiago de Mello )
Foi cunhã que me viu lá na beira
VOCABULÁRIO ( Laís Corrêa de Araújo )
Gosto das palavras











