03/08/2024

HÁ MULHERES COMO HERBÁRIOS ( Lília Tavares )

 

Há mulheres como herbários. Arriscam revelar-se desde a raiz, porção mais íntima e funda de si. Outras oferecem flores e rebentos como abraços. Das águas bebem sofregamente pela pele quando pálidas e desidratadas.



ANOITECEU A TARDE ( Lília Tavares )

 Anoiteceu a tarde


OS PÊSSEGOS ( Eugénio de Andrade )

Lembram adolescentes nus:

a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.


Por Hilda Hilst

 Amargura no dia

amargura nas horas
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos

amargura em todos os teus gestos

Só não existe amargura
onde não existe ser.

Estão sendo atropelados
em seus caminhos,
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor.
Estão terrivelmente sozinhos
os doidos, os tristes, os poetas.

Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.

DESEJO ( Hilda Hilst ) De "Do Desejo" (1992)

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TESTAMENTO LÍRICO ( Hilda Hilst )

 Se quiserem saber se pedi muito

Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.


QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE ( Hilda Hilst ) in Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)

 Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

29/07/2024

COISA MAIS BONITA ( Flaira Ferro )

Não tem coisa mais bonita
Nem coisa mais poderosa
Do que uma mulher que brilha
Do que uma mulher que goza
Toda mulher que deseja
Acende a força erótica que excita a criação
Dê suporte à mulher forte
Quem sabe a gente muda a nossa sorte
Toda mulher que se toca
Instiga a auto estima, estimula o botão
Mesmo que o mundo se choque
O clitóris é antídoto pra morte

Cê tá maluco ou entorpecido
Pela falsa idéia de nominação
Cê tá esquecido, mulher sem libido
Não tem natureza vira papelão
Homem de armadura constrói prisão bélica
De postura fálica perde o coração
Homem de verdade enxerga a beleza
Na mulher que é dona do próprio tesão 
Na mulher que é dona do próprio não

Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha teta
Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha teta
Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha buceta





28/07/2024

COMO UMA FLOR VERMELHA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 À sua passagem a noite é vermelha

E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

26/07/2024

DEIXA O SOL SAIR ( Djavan )

Dia inteiro de olho nas nuvens
Em qual delas eu vou te ter um dia?
Passageiro de todas as nuvens
Eu navego com você a me guiar
Quero ver quem vai ser
Será eu ou você
Quem será
Que decide a barreira romper?
Nosso olhar quer falar
Mas o medo é demais pra agir
Deixa o amor resolver por nós
Deixa o sol sair
Tudo é tão claro em mim
Sei que é amor
E será fundo como o mar
Vai acender uma lanterna no escuro
O que vai ser o mundo
Com o que temos
E nos falta receber?
Vai ser você e eu enfim naquela nuvem
E o que o amor vai poder ajudar
Quando a noite chegar?
Mesmo que chova
O que eu tento explicar
É que sem você não há lugar
Você me marcou, não vou dizer
Que fazer, vou sair?
Nem pensar
Recolher, desligar
Vou dormir mais cedo
Eu só sei o que sou
Se viver pra te amar
Body and soul, meu amor

24/07/2024

DOIS SENTIDOS ( Lúcia Serra )

 Quando

permeias

na geografia

(acidentes

planícies

matas

e rios)

é em braile

que tu me lês

atento e sôfrego

decifrando

incógnitas

tateando sílabas.

De olhos fechados

(e cego de desejo)

o amor

medra

na paisagem

os

ícones

de seus próprios

passos.

Signos.


SEMEADURA ( Lúcia Serra )

 erva

de
tua
faina
semente

vertida

Se
esvaindo
na
seara
de
meus
pastos.


CAVALGADA ( Lúcia Serra )

 a ânsia

com a qual

me bebeste

(mel e absinto)

atiçou

cavalos

percorrendo

pradarias.

turbulência

na paisagem

(mescla da tarde

e ventania)

acossando

na encosta de morros

o murmúrio

de riachos e minas

(líquidos ruídos).

paia o galope

não há trégua

o êxtase

evola

das

narinas

pelos

hálito afoito

suor

caldas

e crinas.

batida de cascos

matinada

e relinchos

confluência

de sentido

e sina

no encalço

do acaso.

POEMA 14 (Alice Vieira)

 Toma-me ainda em tuas mãos e

não perguntes nada

nem sequer dês um nome aos gestos que se abrigam como um fruto uma promessa um murmúrio
nas fogueiras ateadas em junho


juro que vou escolher palavras que não doam parecidas com as que sempre encontrava
nas camas em que tantas vezes te enterrei
por dentro do meu corpo

 

toma-me ainda em tuas mãos eu sei que
temos pouco tempo que não queres
inventar novos ardis para um desamor tão velho
mas vais ver

o mundo é apenas isto    e para isto

não procures nenhuma filosofia redentora

porque tudo é no fim de contas tão banal

 

podes por isso começar a refazer a estrada que
te levava ao centro dos meus dias e esperar
que eu chegue com um retrato desfocado nas mãos
na hora certa de abrir para ti as minhas veias

A VINGANÇA DE CUNHÃ ( Thiago de Mello )

Foi cunhã que me viu lá na beira

Foi cunhã a que me fez boiar
Foi cunhã na manhã derradeira
Cunhatã a que me fez voltar
Arrepio no meião do rio
Arrebol fez rajada no ar
Ela passa e eu desconfio
Que o mundo está quase a tornar
De ponta a cabeça, desvario
A caminho de acabar
Foi cunhã, vi descer a ladeira
Foi cunhã, para a beira lavar
Desconjuro no fundo do furo
Desnorteio buscando no ar
Desgraçada aventureira
Que me veio amaldiçoar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar
Foi cunhã do alto da ribanceira
Foi cunhã meu caminho cruzar
Foi cunhã feito flecha certeira
Cunhatã nunca mais vou tocar
Fez feitiço pra me dar sumiço
Arapuca pra quando eu passar
Eu pra sempre serei bicho
Não posso mais gente virar
Caminho de boto é descaminho
Nas águas do Andirá
Noite de maré cheia
De estrela a nos alumiar
Toda gente se arrodeia
Querendo engerado me olhar
Não faço nem mal a ninguém
Não tem mais quem queira me amar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar
Foi cunhã
Foi cunhã
Foi cunhã
Foi cunhã
Foi cunhã, minha alma festeira
Foi cunhã, mal olhado lançar
Foi cunhã, feito cobra rasteira
Cunhatã quis me escorraçar
Meia noite no breu um açoite
Lua cheia que Deus fez sumir
Serpenteia, rara noite
A modo de me redimir
Ó, minha mãe d'água milagreira
Me faça guerreiro resistir
À vingança de cunhã
Que, prometo, nunca procurei
Feito cego em frente ao sol
Sou peixe no seu anzol
Mas eu mesmo me pesquei
Quando dei confiança pra cunhã
Inventei um fim pra mim
Noite de maré cheia
De estrela a nos alumiar
Toda gente se arrodeia
Querendo engerado me olhar
Não faço nem mal a ninguém
Não tem mais quem queira me amar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar
Noite de maré cheia
De estrela a nos alumiar
Toda gente se arrodeia
Querendo engerado me olhar
Não faço nem mal a ninguém
Não tem mais quem queira me amar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar

IMPUT ( Laís Corrêa de Araújo )

 Do  leque  de  dedos

escolher  um
                  ou dois
                  ou três

Romper  o  zelo
do  selo
           onde  ele
           não  há

VOCABULÁRIO ( Laís Corrêa de Araújo )

 Gosto  das  palavras

           infecto  e  nauseabundo
—  palavras  que  silabam
     em  rude  contraponto
     a  avaria  do  mundo.

De  umas  palavras  quentes
                      — casa, cama, mesa —
      que  escapam  pretéritos
      e  futuros  presentes
      em  sua  reta  clareza.

Certas  partes  do  corpo
      que  bem  que  sonorizam:
      —  púbis,  hímen,  vagina  —
      palavras  que  batizam
      a  encoberta  mina.

E  gosto  de  orgasmo
      palavra  atravessada
      como  um espinho  agudo
      que  rascante  lateja
      um momento  de  pasmo.

Também  gosto  de  enfarte
      — palavra  lancinante
      que quando  se  presenta
     nem  se  diz  —  e  parte
     a  vida  num  instante.