05/08/2024

REFERENCIAL ( Leila Míccolis )

Solteira de aceso facho
precisa logo de macho;
se é nervosinha a casada
só pode ser mal transada;
viúva cheia de enfado
tem saudade do finado;
puta metida a valente
quer cafetão que a esquente.
Mulher não vive sem homem.
Mulher não vive sem homem.
A prova mais certa disto
é que até as castas freiras
são as esposas... de Cristo.
Tal regra é tão extremista
que não contém exceção:
quem sai dela é feminista,
fria, velha ou sapatão".
E é essa bagagem de preconceitos adquiridos
que chega-se à conclusão
na separação de amores doloridos
de que não houve culpados.
Só feridos.

VOYEURISMO ( Leila Míccolis )

Te olho
me molho



 

 

POEMA PARA OS TEUS SEIOS ( Leila Míccolis )

 Cerro olhos pra não ver,

e mãos pra não apalpar,
e bocas pra não chupar
teus seios.
Desejo beber teu leite,
azeite de oliva branca,
e provar com minha língua
o macio do teu peito.
E se em inútil trabalho
te afasta a blusa de mim,
eu, por inúmeros meios,
cerro olhos para ver
e bocas para chupar
teus seios.

MAR SONORO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.



03/08/2024

O ÂMAGO DE FRIDA KAHLO ( Thaís Fontenele )

 Aqueles olhos, grandes, com inúmeras constelações,

marcados, enraizados de dor,
sobrancelhas únicas,
Frida Kahlo, mulher que lutou,
transformou dor em força, arte, valor,
fortaleceu a cultura mexicana,
aconchegou com calor as mudanças de seu tempo,
mulher intensa, artista, pinturas redigidas, memórias de Frida,
de escrita amável, suas cartas de amor,
afago por Diego,
céu marcado por tantos amores,
lá estão os dois, sem romantização do céu,
estrelas que brilham, marcados em passos,
flor de Coyoacán,
prédio azul, árdua esperança,
pés, para que os quero, se tenho asas para voar, disse Frida,
nada é definitivo, tudo muda tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparecem, disse Frida,
sempre revolucionária, nunca morta, nunca inútil, disse Frida,
mulher de bravura, sempre em frente,
fluente em magníficas pinceladas, compassos do enlaço da vida,
trágicos acontecimentos,
tanta magnitude em meio ao tormento de Frida,
mulher de desintegração, movimentação,
o sentir alimentou seu corpo e alma,
Frida.


MOMENTOS ( Thaís Fontenele )

 O desejo é uma linha tênue entre o encontro e a perdição,e hoje eu não quero me perder,quero me encontrar.



DESATINO ( Thaís Fontenele )

 Estou faminto

O ventre entorpecido
O corpo em polpa pura e fina
Nesse fruto de regozijo
 
Na rosa de leite os encontros
No tecido o rigor dos corpos
No travesseiro o algodão
 
Entre o pulso
O suspense e o movimento
No desfalecer das pernas
 
A curva do desatino
O paladar doce como as rosas do meio dia
 
Longo é o movimento
E lento os lábios cedendo
O meu falar ameno
 
Onde tem rompante
Pele seca
Onde tem desatino
Tem lábio lendo
Se lendo. 

 



A FRONDE PARTE DOS TEUS OLHOS ( Thaís Fontenele )

 A minha fonte parte da tua luz,

minha sede acaba na tua boca, 
a fronde parte dos teus olhos,
minha terra é queimada por ti,
minha fome começa no teu corpo, 
o vento leva-te a minha voz nua.


DANÇA DE CORPOS ( Thaís Fontenele )

 O amor

uma perca de fôlego
uma troca de vazios
são os lábios enrolando no peito
há uma espera da eternidade em nó
o corpo desde as roupas as entranhas
são dois olhares sambando na ponta dos pés.


AS ANDANÇAS ( Thaís Fontenele )

 O compassar dos corpos

se fazem na polpa dos dedos,
sabemos que por mais longo que seja o caminho,
o meu regresso é inevitável,
e o gozar dos olhares é tátil,
o tempo é pouco e as aventuras muitas,
as pernas esgotáveis e os rostos traçados,
os pés os mesmos, aqueles que me prendem ao chão. 


LEVAR-TE ( Thaís Fontenele )

 Desejo que se engasgue 

comigo 
dentro da tua boca

Engula minha carne
como quem bebe todo o ouro 

Na tua língua 
A política
O vinho
todo o meu corpo

A intimidade é do tamanho dos teus seios
A filosofia da paixão cabe num escarro 
Os encontros nas distrações
A água que mata a sede
Parte da linguagem 

Os dias 
A terra
A luz da janela 
Tuas costas nuas
Todos os ventres. 


O TEMPO ETERNIZADO EM SEGUNDOS ( Thaís Fontenele )

A clemência que te faz ser astuto,

ah, como ninharia as amarguras
ah, como seria minhas longas noites,
tu que me lembra paisagens,
tu que se faz o sujeito abstruso,
ah, se tu me derramasses teu deleite,
ah, se tu carregasses um coração sem farpas.
 
Tua garganta é meu confronto,
ah, teu corpo de olor,
ah, tuas manias de deslumbre em tela,
fazer-me enredo de alma perenal,
logo eu, que faço o tempo eternizado em segundos,
ah, pausas dolentes de amor,
ah, genuína face que vive de voltas ao me arrodear.

É DE BRUMAS ( Lília Tavares )

 É de brumas

que as manhãs se cobrem

antes que o sol aqueça

este vazio,

o orvalho pousa-me

pesado, no corpo.

Sei que me podias

soprar estas gotas

e desnudar-me no inverno

como em pleno estio.

SINTO AUSENTE A TUA VOZ ( Lília Tavares )

 

Sinto ausente a tua voz,

Despojada de lágrimas,

Silenciada por temores

Ocultos.

Tão vivo este desejo

De correr e acender

Lumes, rubros calores incandescentes,

Nascentes turbulentas, pedras arrastadas do leito,

Do lugar.

Desejo de desarrumar,

De misturar e separar,

De encontrar novo trilho,

Percorrer,

Sem ser percorrida.

E num lampejo acordo

Rouca de gritar, emudecida,

Suada por gestos esquecidos

Não quero e quero

E de novo, a posse e o desejo

Cavo na concavidade das minhas mãos,

A ausência dorida e funda das tuas.

Onde estás?

Até amanhã.

Voo com os pássaros tardios.



PÉROLAS DE UM TEMPO ( Lília Tavares )

 As fotografias que nunca emoldurei,

pérolas de um tempo próximo das pedras,
deixam-se ficar entre jornais, amores e poeira.

 Arde comigo a memória do papel dado ao vento.
Da nossa passagem permanecerá
a penumbra das noites seguidas de silêncio.

Incendeia-me na nudez das tuas mãos,
barco sem remos arrancado às areias.
Enlouqueço à sombra de diamantes e ferrugem.

HÁ MULHERES COMO HERBÁRIOS ( Lília Tavares )

 

Há mulheres como herbários. Arriscam revelar-se desde a raiz, porção mais íntima e funda de si. Outras oferecem flores e rebentos como abraços. Das águas bebem sofregamente pela pele quando pálidas e desidratadas.



ANOITECEU A TARDE ( Lília Tavares )

 Anoiteceu a tarde


OS PÊSSEGOS ( Eugénio de Andrade )

Lembram adolescentes nus:

a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.


Por Hilda Hilst

 Amargura no dia

amargura nas horas
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos

amargura em todos os teus gestos

Só não existe amargura
onde não existe ser.

Estão sendo atropelados
em seus caminhos,
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor.
Estão terrivelmente sozinhos
os doidos, os tristes, os poetas.

Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.

DESEJO ( Hilda Hilst ) De "Do Desejo" (1992)

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TESTAMENTO LÍRICO ( Hilda Hilst )

 Se quiserem saber se pedi muito

Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.


QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE ( Hilda Hilst ) in Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)

 Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.