11/08/2024

ANÚNCIO DE ANTIQUÁRIO ( Iracema Macedo )

 Aceito toda forma de dor

Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados

Até navios desaparecidos
guardo

Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios

E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos porta-retratos

Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio

A TERRA E O FOGO ( Iracema Macedo )

 Terra úmida é o que sou

E tua voz me fecunda
Abre fendas em mim
Por onde os meninos vão nascer

Sou essa planície deitada
Sob o vento forte
Esse vale que invades
Sou domínio teu
Tua carne
Cera sob o teu poder

Sou o que queres que eu seja
Enxame, cardume, aves
Noite, noite, noite
que a tua luz esmaga sem vencer

CANÇÃO DA MULHER QUE VIROU BARCO ( Iracema Macedo )

 Transgrido tantas leis

que já nem sinto
Entro em um mar de águas-vivas
que ardem, ardem, ardem
mas nem doem
parece que me alisam
com seus pelos frágeis

Cada vez me afoito mais
e não encontro margens
e não encontro porto
só encontro tempestades
onde atracar

Nesse excesso de sal
nesse mar escuro em que me perco
me iluminas com o teu desejo
me serves de farol quando anoiteço
e me guias me guias me guias
jorrando tua luz
sobre meus seios

BEATRIZ ( Iracema Macedo )

 Como se me preparasse para a festa

te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia

Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste

Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim

E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade

CARPE DIEM ( Iracema Macedo )

 Não precisa ser um longa metragem

pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
Beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde

O PEIXE DO PALÁCIO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 o corpo é pequeno

para o que acontece aqui
a pele sem contorno
essa água sem fim

escuta o grito das baleias
o arpão e a harpa em mim

engole o mar do japão
vê o peixe do palácio e o silêncio
radioativo da sabedoria oriental:

o coração está cheio de sangue
a lágrima cheia de sal

DO CORPO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 agora sim fiquei possível

não sou mais vaporosa
sou coisa de pegar
minha matéria é morna
estou em estado de corpo
cheia de peso e forma
salva de mistérios outros

g ( Micheliny Verunschk )

 Era um gato de ébano

estático e mudo:
um gato geométrico
talhando em silêncio
o seu salto mais duro.
Era um gato macio
se visto de perto,
um bicho de carne
ao olho certeiro,
arrepio de sombra
subindo nas pernas,
um lance no escuro,
um tiro no espelho.
O gato era um ato,
uma estátua viva,
uma lâmpada acesa
no umbigo de Alice.
Era um gato concreto
no meio da sala:
era uma palavra
afiando palavras.
Era a fome do gato
e sua pata à espreita,
veludo-armadilha:
uma única letra.

HOJE ACORDEI ( Micheliny Verunschk )

 hoje acordei

com a chuva
chiando na janela,
levantei,
olhei o mundo em volta,
e fui para a cozinha,
o feijão chiando na panela
imitou a chuva,
pássaro caprichoso,
o cheiro do alho esmagado
misturado ao cheiro
de terra molhada
entrando pelas frestas,
o buda bocejando,
os olhos mal abertos,
se espanta com tanta agitação
num dia ainda escuro,
como se dissesse
que hoje seria dia apenas
para filosofias e números puros,
mas é que hoje acordei
com a chuva chiando
na panela de tudo.

XXVI ( Micheliny Verunschk )

 o vestido desaparece

em tuas mãos
não há linhas
nem mais dobras
nem botões
tudo é silêncio e ruína
e o eterno vento da história
que a tudo varre

e no entanto me sonhas novamente
outra noite outra noite outra noite
esta vida que costuramos
em desejo e incompletude

meu nome teu nome
e o que se inscreve
dentro da memória

HÁ EM MIM MULHERES ( Sônia Barros ) in Tempo de Dentro; Prêmio Paraná 2017. Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2018

 (para Maria Valéria Rezende)

Lua ineludível:

inúmeras faces
que tanto me despem
quanto me mascaram.

Fases tão diversas
e, no entanto, sempre
— sempre — a mesma lua:
muitas e nenhuma.

Ao meu lado um cão
gane o tempo todo.
O seu nome é medo,
sua voz é não;

Há em mim mulheres,
todas com seus cães
ganindo nos becos
deste corpo orbívago.

Há em mim mulheres
ensaiando ser
mais fortes que o medo,
maiores que o cão.

Há em mim mulheres
escolhendo a face
de uma nova lua.
Outras, o interlúnio.

Mulheres me habitam
feitas de coragem
embora nem saibam
que podem vencer.

Eu também duvido
vivo a sucumbir
mas depois revivo:
um dia seremos.

O VENTO ( Ruy Belo )

 Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


05/08/2024

DOS MALES O MENOR ( Leila Míccolis )

 Se te chamo de putinha

sou machista e indecorosa.
No entanto, se não chamo,
você não goza...

SUPERHERÓTICOS ( Leila Míccolis )

 Enquanto o Incrível Hulk

cresce na parte de cima
verde que nem perereca,
a pobre parte de baixo,
vermelhinha de vergonha,
não rasga nem a cueca.
Já o Homem Invisível
tem um troço tão encolhido
que ganhou este apelido.
E o Homem Aranha? Coitado!
Dia e noite, noite e dia
só na luta contra o mal
deve ter teias no pau...
Êta turminha sem sal!

Não é ridículo?
Ninguém agüenta mais os Super Homens,
com seus cintos de utilidade
e estreitas mentalidades...
Homens com maiúsculos agás,
"gagás".
Chega dos valores desta escala:
muito falo e pouca fala.
Se afinal é preciso mudar tudo,
que se tire então, do homem, o H mudo.

SEM DIVÃ ( Leila Míccolis )

 Você fala bonito

sobre fases sexuais
– orais, anais, vaginais –
mas,
cadê que as faz?

POEMA AO MAIS RECENTE AMOR ( Leila Míccolis )

 Estar entre teus pelos e dedos,

entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.

EM ÓRBITA ( Leila Míccolis )

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AMANTE DAS LETRAS ( Leila Míccolis )

 Não te importas com os homens que dormem comigo;

mas morres de ciúme
dos versos que faço pra eles...


 

POEMA PARA O NAMORADO ( Leila Míccolis )

 Teu lado feminino me erotiza:

são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.

CONFISSÃO ( Leila Míccolis )

 Dizem que o amor é cego,

não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelase as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...


REFERENCIAL ( Leila Míccolis )

Solteira de aceso facho
precisa logo de macho;
se é nervosinha a casada
só pode ser mal transada;
viúva cheia de enfado
tem saudade do finado;
puta metida a valente
quer cafetão que a esquente.
Mulher não vive sem homem.
Mulher não vive sem homem.
A prova mais certa disto
é que até as castas freiras
são as esposas... de Cristo.
Tal regra é tão extremista
que não contém exceção:
quem sai dela é feminista,
fria, velha ou sapatão".
E é essa bagagem de preconceitos adquiridos
que chega-se à conclusão
na separação de amores doloridos
de que não houve culpados.
Só feridos.

VOYEURISMO ( Leila Míccolis )

Te olho
me molho



 

 

POEMA PARA OS TEUS SEIOS ( Leila Míccolis )

 Cerro olhos pra não ver,

e mãos pra não apalpar,
e bocas pra não chupar
teus seios.
Desejo beber teu leite,
azeite de oliva branca,
e provar com minha língua
o macio do teu peito.
E se em inútil trabalho
te afasta a blusa de mim,
eu, por inúmeros meios,
cerro olhos para ver
e bocas para chupar
teus seios.

MAR SONORO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.



03/08/2024

O ÂMAGO DE FRIDA KAHLO ( Thaís Fontenele )

 Aqueles olhos, grandes, com inúmeras constelações,

marcados, enraizados de dor,
sobrancelhas únicas,
Frida Kahlo, mulher que lutou,
transformou dor em força, arte, valor,
fortaleceu a cultura mexicana,
aconchegou com calor as mudanças de seu tempo,
mulher intensa, artista, pinturas redigidas, memórias de Frida,
de escrita amável, suas cartas de amor,
afago por Diego,
céu marcado por tantos amores,
lá estão os dois, sem romantização do céu,
estrelas que brilham, marcados em passos,
flor de Coyoacán,
prédio azul, árdua esperança,
pés, para que os quero, se tenho asas para voar, disse Frida,
nada é definitivo, tudo muda tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparecem, disse Frida,
sempre revolucionária, nunca morta, nunca inútil, disse Frida,
mulher de bravura, sempre em frente,
fluente em magníficas pinceladas, compassos do enlaço da vida,
trágicos acontecimentos,
tanta magnitude em meio ao tormento de Frida,
mulher de desintegração, movimentação,
o sentir alimentou seu corpo e alma,
Frida.


MOMENTOS ( Thaís Fontenele )

 O desejo é uma linha tênue entre o encontro e a perdição,e hoje eu não quero me perder,quero me encontrar.



DESATINO ( Thaís Fontenele )

 Estou faminto

O ventre entorpecido
O corpo em polpa pura e fina
Nesse fruto de regozijo
 
Na rosa de leite os encontros
No tecido o rigor dos corpos
No travesseiro o algodão
 
Entre o pulso
O suspense e o movimento
No desfalecer das pernas
 
A curva do desatino
O paladar doce como as rosas do meio dia
 
Longo é o movimento
E lento os lábios cedendo
O meu falar ameno
 
Onde tem rompante
Pele seca
Onde tem desatino
Tem lábio lendo
Se lendo. 

 



A FRONDE PARTE DOS TEUS OLHOS ( Thaís Fontenele )

 A minha fonte parte da tua luz,

minha sede acaba na tua boca, 
a fronde parte dos teus olhos,
minha terra é queimada por ti,
minha fome começa no teu corpo, 
o vento leva-te a minha voz nua.


DANÇA DE CORPOS ( Thaís Fontenele )

 O amor

uma perca de fôlego
uma troca de vazios
são os lábios enrolando no peito
há uma espera da eternidade em nó
o corpo desde as roupas as entranhas
são dois olhares sambando na ponta dos pés.


AS ANDANÇAS ( Thaís Fontenele )

 O compassar dos corpos

se fazem na polpa dos dedos,
sabemos que por mais longo que seja o caminho,
o meu regresso é inevitável,
e o gozar dos olhares é tátil,
o tempo é pouco e as aventuras muitas,
as pernas esgotáveis e os rostos traçados,
os pés os mesmos, aqueles que me prendem ao chão. 


LEVAR-TE ( Thaís Fontenele )

 Desejo que se engasgue 

comigo 
dentro da tua boca

Engula minha carne
como quem bebe todo o ouro 

Na tua língua 
A política
O vinho
todo o meu corpo

A intimidade é do tamanho dos teus seios
A filosofia da paixão cabe num escarro 
Os encontros nas distrações
A água que mata a sede
Parte da linguagem 

Os dias 
A terra
A luz da janela 
Tuas costas nuas
Todos os ventres. 


O TEMPO ETERNIZADO EM SEGUNDOS ( Thaís Fontenele )

A clemência que te faz ser astuto,

ah, como ninharia as amarguras
ah, como seria minhas longas noites,
tu que me lembra paisagens,
tu que se faz o sujeito abstruso,
ah, se tu me derramasses teu deleite,
ah, se tu carregasses um coração sem farpas.
 
Tua garganta é meu confronto,
ah, teu corpo de olor,
ah, tuas manias de deslumbre em tela,
fazer-me enredo de alma perenal,
logo eu, que faço o tempo eternizado em segundos,
ah, pausas dolentes de amor,
ah, genuína face que vive de voltas ao me arrodear.

É DE BRUMAS ( Lília Tavares )

 É de brumas

que as manhãs se cobrem

antes que o sol aqueça

este vazio,

o orvalho pousa-me

pesado, no corpo.

Sei que me podias

soprar estas gotas

e desnudar-me no inverno

como em pleno estio.

SINTO AUSENTE A TUA VOZ ( Lília Tavares )

 

Sinto ausente a tua voz,

Despojada de lágrimas,

Silenciada por temores

Ocultos.

Tão vivo este desejo

De correr e acender

Lumes, rubros calores incandescentes,

Nascentes turbulentas, pedras arrastadas do leito,

Do lugar.

Desejo de desarrumar,

De misturar e separar,

De encontrar novo trilho,

Percorrer,

Sem ser percorrida.

E num lampejo acordo

Rouca de gritar, emudecida,

Suada por gestos esquecidos

Não quero e quero

E de novo, a posse e o desejo

Cavo na concavidade das minhas mãos,

A ausência dorida e funda das tuas.

Onde estás?

Até amanhã.

Voo com os pássaros tardios.



PÉROLAS DE UM TEMPO ( Lília Tavares )

 As fotografias que nunca emoldurei,

pérolas de um tempo próximo das pedras,
deixam-se ficar entre jornais, amores e poeira.

 Arde comigo a memória do papel dado ao vento.
Da nossa passagem permanecerá
a penumbra das noites seguidas de silêncio.

Incendeia-me na nudez das tuas mãos,
barco sem remos arrancado às areias.
Enlouqueço à sombra de diamantes e ferrugem.