23/08/2024

VAI-SE A LASCIVA MÃO ( Vasco Graça Moura )

 vai-se a lasciva mão devagarinho

no biquinho do peito modelando
como nuns versos conhecidos quando
uma mulher a meio do caminho

era de vento e nuvens, sombras, vinho,
e sonoras risadas como um bando.
os dedos lestos vão desenredando
roupa, cabelos, fitas, desalinho.

a noite desce e a nudez define-a
por contrastes de luz e de negrume
ponto por ponto, alínea por alínea.

memória e amor e música e ciúme
transformados nos cachos da glicínia,
macerando no verão sombra e perfume.

TÃO DOCE ( Maria Teresa Horta )

Tão doce quanto secreta
tão secreta
e tão vazia

Tem no peito um leopardo
e alma de malvasia

Tão duvidosa e perene
tão ardente que despia

Do coração a pantera
que no corpo lhe crescia

Tão macia quando era
se era meiga
e sedenta

Veneno de beladona
doce de cereja preta


20/08/2024

O AMOR DOS OUTROS ( Betty Vidigal )

 O amor dos outros

é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.

O amor dos outros
é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.

Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?

O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
— só o da gente
será eterno.

Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!

PITANGAS ( Betty Vidigal )

 Era uma febre, um delírio,

Uma mandinga bem feita,
cama com cheiro de lírio.

Era um delírio, uma febre,
amor que não se endireita,
quebranto que ninguém quebra,
tremedeira de maleita,
uma mulher e um ébrio
de amor que não toma jeito.
E ela, que não se emenda?

Meus dedos fazendo renda
com os pelos do seu peito;
o coração que se escuta
pelo quarteirão inteiro;
pitangas no travesseiro,
cama com cheiro de fruta.

ABSOLUTA ( Cristina Garcia Lopes ) In O Continente e Outros Poemas; Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2004.

 é essa tempestade

que não vem
que se arma oculta
sobre nós
ano após ano

essa tempestade
que dorme comigo
que mora em meu ventre
ansioso
dia após dia

não quer a tempestade
se precipitar de vez
se desatar
no céu
um laço de ferro
sobre a terra
invertida

é essa tempestade
que não vem

O XADREZ ( Cristina Garcia Lopes ) In O Continente e Outros Poemas; Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2004.

 o corpo que se dobra

no ar, ágil
e suntuoso

branco e preto:
a pele e o cabelo
sobre o cinza invisível
dos ossos

para a destreza
houve convergência
de todas as partes

se fosse assim dividido:
o olhar doído
a mão indefesa

o corpo que se dobra
frágil
aos jogos do amor

NU ( Adair Carvalhais Júnior )

 a poeira se esgueira

no pôr do sol por trás
da lua
minguante

um poema se perde
nas cintilações do dia

a solidão se
enreda na chuva
fina na transparência
da lágrima

o silêncio vibra nas
fontes do teu corpo sob
as dobras da tua
pele

um poema amanhece
nas cintilações dos teus
olhos

19/08/2024

OS MEUS MELHORES DESEJOS ( Amália Bautista )

Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.

NU DE MULHER ( Amália Bautista )

Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.

NEM VELAS NEM MOLHO BRANCO ( Martha Medeiros )

 nem velas nem molho branco

hoje nosso jantar
acontece por baixo da mesa

desfias minhas pernas de seda
teu beijo promete mais tarde

jogo a toalha de renda no chão
me rendo

16/08/2024

SINUOSIDADES (Raíça Bomfim)

 quando vi sua hesitação, eu já sabia

é que tenho jeito de moça pura
e cara de mulher vadia

por via das dúvidas, você, cauto,
convidou:
que tal um sorvete e alguns livros de poesia?
adorei a ideia
linda tarde a nossa

quando veio a noite, sugeri qual uma
dama:
que tal uma cachaça nas curvas da cama?

pra nossa delícia, baby
meu prazer tem mais vias que suas dúvidas

NARCISA ( Iara Maria Carvalho ) in Milagreira, Casarão de Poesia, Currais Novos - RN, 2011

 agora que sou uma

mulher aprendida
no amor

recolho os frêmitos elaborados
frente às águas

e ao meu sono fluvial retorno
como uma sereia desativada
pra peixes e homens.

SEDUZ ( Iara Maria Carvalho ) in Milagreira, Casarão de Poesia, Currais Novos - RN, 2011

 feitiça de longe

amaciando palavras de barro:

flores atacadas por saúvas
cajus travados na garganta
silêncio insinuando sonhos.

se me dá uma água de beber
bem no meio do deserto,
o vestido desce ao chão
arrastando nu tecido
(pernas, poemas, estrelas)

escapa das mãos
um primitivo toque cigano
adivinhando o cheiro de vinagres e desejos.

irrigada de águas agridoces,
minha boca amanhece com seu nome dentro.

A LÂMINA ( Déborah de Paula Souza ) In O Livro Vermelho

 Tonta com o vinho

das tuas palavras
tantra sob a lâmina
das tuas ciladas
morta de dar risadas
brilho como falsa jóia
— e tão cálida —
zonza entre tuas mãos e tuas facas
santa com perfume de dálias
sem sutiã, sem rumo, sem sandálias
criança pequena brincando com navalhas

12/08/2024

AO FIO DA VOZ ( Silvia Chueire )

 desfez-se o mundo

no assombro da tua voz afiada
cortando a noite.
e caíram todas as coisas:
meu corpo entregue ao teu,
os gestos que te esperavam,
teus olhos pedintes
e braços a encerrarem o amor,
nossas noites indormidas,
os corpos a rirem-se
debruçados no vinho
e na música
- todas as coisas.

ainda te procuro.
vejo-te nos lugares que tomaste para ti,
toco-lhes e encontro a tua ausência.

minha voz nada diz,
as palavras coladas à mágoa
cristalizam-se nos lábios.

ESTE CORPO ( Silvia Chueire )

 Olha, digo,

é este o corpo que tenho.
Não é um corpo de arestas.

Pudesses saber agora
em que píncaros,
em que precipícios ele se construiu,
saberias também o que tenho de pássaro.
O que de oceano, tenho.

O que de só carne e sangue,
artérias batendo contra as têmporas,
pequenas taquicardias
neste corpo desconsoladamente humano.
Que não recusa a glória de o ser,
nem sua submissão ao tempo.

DIZER ( Silvia Chueire )

 Diz o teu amor a tocar as pétalas

do fogo que nos lambe os olhos,
e nos enche a alegria de significado.

Diz a tua extrema delicadeza
ao segurá-lo nas mãos,
o medo atravessado no teu sangue.

Diz o teu desejo incendiado junto
ao teu afeto no oceano de palavras
que te ocorrem. Diz a língua que te fala.
Diz.

E me espera.
No mesmo lugar de sempre.


 

DO ALTO DO AMOR ( Silvia Chueire )

 Freqüentemente me esqueço que o mundo

tem a idade do olhar dos homens
para as coisas e as mulheres,
como se fossem deuses, ou baú de brinquedos.
Que as mulheres vivem na oscilação lunar
pisando ora em lâminas,
ora na areia da praia,
em pequenas taquicardias,
a oferecerem o seio ao amante,
ou ao pequenino que alimentam
com olhos mansos.

Freqüentemente me esqueço
da aguda mortalidade nossa.
Nossa, de todas as criaturas,
transfiguradas em pó ou pedra
ou numa árvore qualquer,
sem solenidade.
Apenas porque um dia surge
depois de outro.

Freqüentemente me esqueço
e quero o teu corpo
para amá-lo, abrigar-me nele,
por ele me deixar amar
atravessada de prazer.
Acolhida por ti em luz,
alegria, música
- o desejo atendido,
a atender-te.

Porque do alto do amor
pouco me interessa a questão metafísica da morte,
ou da possibilidade de não estarmos aqui
se o tempo do olhar
não corresponde ao tempo físico.

MARÉS ( Silvia Chueire )

 o mar a habitar o corpo

entregue a ti todos os dias
o sonho

o amor entrelaçado às pernas,
entregue ao sonho todos os dias,
o oceano

o sonho a habitar o amor
entregue à vida todos os dias
o corpo

o amor, o corpo,
o sonho, a ir e vir,
o oceano

IMERSA ( Silvia Chueire )

 Há uma palavra imersa em meus sentidos,

um poema que não se pode dizer.

Faz do meu corpo seu país,

deita versos desalinhados

sobre mim.

Depois voa,

seu voo de canção.

UMA PEDRA ( Silvia Chueire )

 Há uma pedra na insônia.

São de pedra as nuvens carregadas e a voz calada.

Um corpo pende no abismo.
Equilibra-se ou não,

como qualquer objeto.

Toda a consciência da pedra,
da luz,

do sangue,

da microscópica importância da existência

se entrechocam.

OLHAR PARA TRÁS ( Silvia Chueire )

 não há nostalgia,

dor,
ou arrependimento.

olhar para trás

traz a satisfação da vida bem vivida.

medo, ousadia, ansiedade, prazer,

perdas, ganhos, riso e lágrimas.

o vinho bem bebido,

a música embalando corpo e alma,

as palavras atadas ao afeto.

olhar para trás traz esta certeza:

viver é preciso.


CORPO ( Silvia Chueire )

 não se pode elidir o corpo

ele é nós. nós somos ele.

pele, artérias, sangue,

órgãos, músculos.

sentidos e sensações.


não se pode fingir que não existe,

ou deixar de pronunciá-lo

em palavras claras

- como se fosse um erro.


é nosso corpo.

e está vivo.

NAUFRÁGIO ( Silvia Chueire )

 naufraguei nas tuas costas

ó país dos desalentos.

perdi-me nas tuas águas
a tempestade a varrer-me
o corpo em ascendido movimento

soube assim da crueldade dos gestos
da inutilidade das palavras

UM MAR ( Silvia Chueire )

 era um mar desmesurado

demasiado mar
e ondas
e poder
e grito por vir

era a emoção súbita
a revelar ao meu corpo
sua natureza fragilíssima
sua pequena natureza humana

era o mar a crescer-me no peito
vozes do mundo
homens e mulheres no amor

era o mundo líquido
suspenso entre a minha respiração
e o vértice da minha vida

MAR ( Silvia Chueire )

 cola a tua boca

no mar que sou
o sal e as ondas

derramadas.

ouves o marulhar
na respiração ritmada
que cresce
e desliza na praia?

às vezes é tudo tão azul
que ofusca

POSSESSÃO ( Myriam Fraga )

 O poema me tocou

Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
Com seu hálito
De brisa perfumada.

O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.

De repente, sem aviso,
O poema como um raio
— Elegbá, pombajira! —
Me tocou com sua graça,
Aceso como chicote,
Certeiro como pedrada.

ARS POÉTICA ( Myriam Fraga )

 Poesia é coisa

De mulheres.
Um serviço usual,
Reacender de fogos.
Nas esquinas da morte,
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde o demônio habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta paixão
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.

LXII ( Hilda Hilst ) in De Amavisse, 1989.

 Que as barcaças do Tempo me devolvam

A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

LUÍZA ( Iracema Macedo )

 Não sou precisa

nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
Não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

11/08/2024

TARDIA ELEGIA PARA SYLVIA PLATH ( Afonso Félix de Sousa )

 Sem bater à porta

chego à soleira
do teu delírio

Sem lira ou lírio
feito um verme faminto
me adentro por teus olhos
e roubo e roo
visões que se desfazem
e se refazem
e te apavoram
e te alimentam
enquanto vão te lambendo
as línguas geladas
da morte

Línguas do inferno
oh the tongues of hell

Traduzo-te as palavras
e o que há por trás das tuas
palavras
(What does it mean?)
e sinto-te bela
como se estivesse entrevendo

numa rua de Londres
no outono
de mil novecentos
e cinqüenta e nove
e próxima
como se nos amássemos
há três dias
há três noites
há milênios

Enquanto te traduzo
línguas do inferno
chegam às soleiras
do coração
da mente

Querem lamber-me
e queima-me a tua febre
e molha-me o suor
de tua pele
e tudo o que vês e deixas
de ver
e eu vejo
de dentro de teus olhos
vai-se cobrindo
das cinzas de Hiroshima.


 

A CHEGADA DE MERCÚRIO ( Iracema Macedo )

 Acendes espelhos por onde passo

e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes fogueiras viagens
tudo me trazes nos dias
em que ancoras
tua ventania nos meus braços

O HORTO ( Iracema Macedo )

 Juazeiro, Juazeiro,

o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
tantas imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

LOTA DE MACEDO SOARES ( Iracema Macedo )

 Lembro-me bem de minha roupa cor de vinho

E pérola e do guarda-chuva
Que também tinha cor de sangue
Aguardando tua chegada sob a chuva

Meu peito sem rédea era socado por pedras
À simples pronúncia do teu nome
Um jardim morto
Era o que havia então
Onde fui bela e forte e tu eras amada

Lembro-me bem do meu pranto de meretriz
Dos escândalos que fiz e do consolo infeliz
Que tu me davas com aquela maldita frase
De Oscar Wilde:
"Os corações existem para ser despedaçados"