20/05/2025

POEMA ANTIGO ( Maria Teresa Horta )

 O homem que percorro

com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio

o oceano
penso paralelo – ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio

ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo – bússola
com raiz – grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto
a lua que concebo.

18/05/2025

DE MINHA CONCHA ( Marize Castro )

De minha concha ouço todos que chegam
Seminua vejo os primeiros amantes
Os mais belos causam-me fulgor
Os menos belos, nostalgia
Não resisto aos mais vulneráveis
Suas mandíbulas de ouro fascinam-me:
triturem-me, peço-lhes

O dilúvio desses olhos aterroriza

No matadouro mais próximo, entregam-se
novos e velhos corpos
(entre línguas de felpa, o divino se mostra)


Então repito:

toca-me, ar
toca-me, água
toca-me, fogo
toca-me, terra
toca-me, éter


Eis o inevitável:
quedo-me

17/05/2025

ESTA PALAVRA ( Marize Castro )

 esta palavra a quem pertence?

perguntou-me a mais devastada esplanada

é minha, respondi

molhei a terra, adubei
sepultei sementes, desenhei lápides

perdi metade do meu coração

este é o aroma do fracasso, da dor, inspire
— asseverou

arbórea, peregrina, neblina afora
gritei: esta é a minha verdade

inaudita senhora

ENCONTRO TERESA ( Marize Castro )

 encontro Teresa em Lisieux


fotografo seu jardim
filmo seu oratório
suas árvores
seu chão

olho em seus olhos
e eles dizem:
não acredite
escolha sozinha
sua dor

INTEIRA ( Marize Castro )

 Iluminada por oráculos

alimento anjos com asas quebradas.

Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.

Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.

Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.

Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.

O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.

ERMA ( Marize Castro )

 Recolho-me tão profundamente

que tudo me alcança:
mísseis, desastres, lanças.

Recostada ao rosto de Deus
pedi-lhe a fé perdida
a palavra antiga — invencível.

Ele me deu o mar no nome
e uma fome borgiana, dizendo-me:
Eis sua herança, jovem senhora
de velhíssima alma e furiosas lembranças.

NÉCTAR ( Marize Castro )

 A verdade aproxima-se.

Olha-me com os olhos
abismados da beleza.

Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.

Escrever me fez suportar todo incêndio
— toda quimera.

DE INÚTIL BELEZA ( Marize Castro )

 Após o terremoto, o rio será atravessado,

frações de veneno serão espalhadas
para afugentar as cobras,
raízes de gengibre serão colhidas
em profundo silêncio.
O amor se banhará em ervas
e retornará da infância
com o seu verdadeiro nome,
saberá a origem de toda planta,
o odor de todo gozo.
O amor pertence ao amor,
isso ninguém lhes rouba,
nem mesmo sentenças de morte
proferidas por bestas assassinas
em horrendos tribunais.
Sempre o amor olhará para o amor
e estilhaços de inútil beleza
se soltarão da intimidade do solo.
No ressoar de suas asas, a verdade surgirá:
não se separa o amor do amor.


CÁSSIA. JANIS. NINA ( Marize Castro )

 Deliciosas mortas cantam nesta casa.

O delicado espelho revela
o que se apagou por hipocrisia
acidez
babaquice
indulgência
horror.
Deveríamos vir aqui mais vezes
neste lugar onde a gentileza
é uma montanha que desmorona
e se ergue a cada festa
devolvendo aos olhos do mundo
o pequeno-grande sol
— seu primeiro filho.
Somente aqui
(não mais em nenhum outro lugar)
deliciosas mortas reinventam
a vida.

UMA MENINA ( Marize Castro )

 Uma menina

de cabelo vermelho
perdeu olhos
sonhos
espelhos
perdeu o desejo de ser boa, má
perdeu rio
lama
mar
perdeu a dor antiga
a quase alegria
perdeu a flor que escondia no sexo
a lembrança do primeiro beijo
o desamparo do último gozo
perdeu vidrinhos de geleia
meias
bilhetes
adesivos
relógios
asas
pai
mãe
filhos
véus
dentes
pinças
pincéis
meias
pentes
postais
tesouras
livros
lápis
entranhas
sangue
peso
cabelos
canetas
chapéus

Uma menina
de cabelo vermelho
(ou seria negro
amarelo
azul
marrom?)
morreu/nasceu
assim:
perdendo

SAFO À TARDE ( Marize Castro )

 Às 2h45 da tarde

não escrevo
não durmo
não como
não bebo
não luto
abro janelas
— leio Safo.
Coloco minhas mãos
sobre a minha antiga alma
e a puxo para mim:
eu a ensinei a beijar
ela me ensinou
a morrer.

ESTÁ CONFIRMADO ( Marize Castro )

 Está confirmado:

a poeta desativará ogivas;
não perderá corrida para estranhos
ao alvorecer; emergirá em brasas dos
confins do nada; incendiará hipócritas;
mesmo amarrada, irá se atirar ao mar;
mesmo com cera nos ouvidos, ouvirá;
boicotará mulheres e homens que não
choram; denunciará a prisão de meninas
africanas, em cavernas de paredes escuras,
escrevendo com o sangue de suas vaginas
lamentos de intensa dor;
enfrentará o senhor Guerra,
de olhos azuis, de pele muito clara
e alma pútrida;
não perdoará ditadores;
não perdoará genocidas;
gritará em todas as tribunas:
Gaza pertence a Gaza;
subirá as cortinas;
manterá as janelas abertas;
recolherá relíquias;
permanecerá indomada, úmida, mutável;
adentrará florestas;
lerá mil vezes o fragmento 31 de Safo;
deslizará em hexâmetros;
festejará sozinha;
cairá na outra margem;
surpreenderá a si mesma.

Está confirmado:
a poeta concorda com a outra poeta
— nem para milhões,
nem para uma única pessoa,
nem para si mesma,
escreve-se para a própria obra.

RETORNO DO MEU REPOUSO ( Marize Castro ) in Jorro, 2020

Retorno do meu repouso na tristeza
e anuncio:

hora de uivar
abraçar o escorregadio
e o viscoso
acariciar prostitutas
e prostitutos
nutrir o feio
e o belo

Hora de violar o inviolável
esbofetear a hipocrisia

Não a nenhum assassinato de indígenas
Não a nenhum tráfico escravista
Não a nenhum estupro
de mulher
de homem
de bicho
de vegetal
de pedra
Hora de urrar
proteger a mais preciosa
e mais ordinária joia
(não desistir)

BACKUP ( Giselle Vianna ) in Intempestiva - Patuá, São Paulo, 2023

 lá no umbral

umbilical, no bico
da primeira mamadeira
lá na murcha folhagem
do ipê transplantado
onde o pé largou a terra
para dar o passo
lá nesse sertão de alma
onde a comida é rala
e a farinha engrossa
o caldo
lá onde o desígnio é rio
intermitente
onde oscila o sinal
de internet e, de repente,
é lápis sem ponta o que era
traço, o suco faz-se sulco: é inverno
— na ponta seca do compasso,
lá onde o mundo cresce, lá
onde algo se perde,
lá — e somente lá —
é que eu existo
se a memória fenece
na cama
da calma, no imemorial
átomo
no antílope azul
e seu último sono terrestre

DA DOR ( Ana Cecília de Sousa Bastos ) in Uma Vaga Lembrança do Tempo.

 A dor é algo como se não fosse.

Derrapagem à beira do abismo
                       (aquele como se não estivesse).
Holofote sobre escura porção de sombras.
Eco à revelia do próprio eu
                                 re-ver-be-ra-ção
                                 por sobre o dia.
Fissura aberta minando,
                       ora esquecida ora sempre,
                       em alguma parte do corpo
                       como se fosse o todo.

Dasdô?
Na infância era uma prima
e seus olhos encovados.

PERSONA ( Mariana Botelho )

  o poema

                    essa estranha máscara
                    mais verdadeira do que a própria face
                             Mário Quintana


não é isso o que somos mas é assim que resistimos
porque fingimos que fingimos

empurramos nossos barcos contra as marés da aurora
para que a noite não passe

e continuemos despidos

15/05/2025

O DESEJO (Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, 1988)

 O desejo, o aéreo e luminoso

e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

CANÇÃO DO AMOR LIVRE ( Jacinta Passos ) em "Poemas Políticos". RJ: Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1951.

 Se me quiseres amar

não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

Por Carollini Assis

 Colho a solidão da mulher de Áries

o ímpeto de uma decisão precipitada
de um palavrão na hora exata
de um pavio curto no rabo de um cavalo alado
quando penso nessa mulher
me vem Eva sendo expulsa do paraíso
Pequenina e voluptuosa
seus cabelos nada volumosos
aparados no dente
Eva devia ser de Áries.
Provocada, comeu a maçã
Porque sim, seria sua resposta.
Porque quis, talvez outra
Com ranço do paraíso
E dos pássaros a cantarolar
Fosse uma canceriana diria:
A serpente me lembrou Adão.
Mas Eva ariana, não!
Maçã? Que maçã?
Aquilo lá era uma acerola
E estava azeda! - Diria.
Arianas sempre querem ser expulsas
E conhecer um mundo novo.

ESPELHOS ( Lívia Natália )

 Antes minha mãe era aquela que chegava e saía para o

trabalho.
Que ria de bochechas rebrilhantes,
que escaldava roupas brancas no fogo,
que alimentava a casa e fazia girar a grande roda da vida.

Agora não,
cada vez mais eu reconheço nela uma mulher
como eu.

Vejo seus seios bonitos,
suas curvas dobradas em gorduras macias,
suas mãos em gestos de silêncio,
seu olhar dançando pardo no mundo.

Minha mãe, antes de sê-lo, é uma mulher.

Seu corpo o denuncia.
E eu sou não apenas filha,
mas a prova mais poderosa de seu feminino frutificado.

AMARESIA ( Namibiano Ferreira )

 Magias e morfemas

beijam madrepérolas
no marulhar da nudez
dos teus passos nacarados
– búzio a cantar o mar –
vestindo rendas chuvas
organzas
espumas
calemas.

BUCÓLICA ( Miguel Torga ) (1907-1995)

A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


13/05/2025

De Urbano Tavares Rodrigues

 II

Nas folhagens do azul
mais luminoso
encontro a música silenciosa
do teu primeiro sorriso
e lembro
depois
o automóvel cortando a noite
a tua boca fremente
a tua mão na minha
Lisboa a madrugar
no renascer do mundo

De Urbano Tavares Rodrigues

 I

Rosa vibrante dos subterrâneos
de uma nova resistência
desabrochas
com a luz do dia
sempre ao meu lado
o rosto e o seio
irradiando
o fogo jovem da paixão
dá-me essa água
da felicidade
que nos teus olhos brilha
Quero o sumo dos teus lábios
Entrar no jardim do teu corpo
é o esplendor da vida.

TODAS AS MULHERES MERECEM ( Lília Tavares )

 Todas as mulheres merecem calçar sapatos de princesas

no dia das mães.
Desejam caminhar elegantes com os filhos de mão dada.
Não querem limpar demoradas águas nos olhos.
As lágrimas podem trazer diamantes de memórias,
mas tornam baço o olhar das mães.
Todas as mães merecem que os seus corações abarquem
apenas alegrias e sorrisos, carinhos e abraços,
como rebuçados de mel.
Pela noite são dignas de adormecer num colchão de nuvens e
acordar frescas sobre suaves pétalas de rosas.

11/05/2025

TRUFAS ( Liz Christine )

 Amanhecendo Clareando


E eu aqui vagando
Trufas devorando
Em você pensando

Se escolher
possível fosse
Não seria exatamente

Trufa a ser devorada
Seria claro
Você a ser beijada

Agarrada Mastigada
Amassada
Coitada!

PAIXÃO ( Liz Christine )

 O que é a paixão?

Você consegue definir
O imenso
Tesão
Você é capaz de sentir?
O choque intenso
A me confundir
Mergulhar
Ou fugir?
Aproveitar
Ou amargar?
Prazer ou decepção?
Amada
Ou usada?
Paixão.
Te amo, te uso
Escrevo, abuso
Porque você me fudeu
E foi o melhor que me aconteceu
Em toda a minha vida.
Te amo, fudida.
Você me corrompeu
Me conduziu à fidelidade
E te amo de verdade

FETICHE ( Liz Christine )

 Fetiches?!

Doce de leite pastoso delicioso
Fácil de espalhar
Irresistível se lambuzar

Piercing Língua Umbigo
Barriga masculina
Quadris femininos

Três quilos de chocolate branco derretidos
Quentes escaldantes
Despejados sendo
Em maravilhosos corpos humanos
Voraz Insaciável Compulsiva
Com doces?
Só com doces!

LILITH ( Liz Christine )

 Ah, delírio que me erotiza.

Você me despreza, você me pisa.
Me xinga e me avisa.
Que posso fazer?
Eu quero você e gosto de sofrer.
Não é doentio,
É doce esse martírio.
Você é meu desafio.
Quero ser amarrada,
Quero ser queimada.
Pelo fogo da paixão,
Me morde com tesão.
Me morde e me usa.
Depois você me acusa.
De louca e confusa.
Vai, usa, abusa,
Xinga, morde, pisa.
Quero ser espancada,
Quero ficar marcada.
Pela dor dessa paixão.
Quero a marca da sua mão.
Em meu corpo, olhos e coração.
Te amar é morrer.
Me afogar no prazer.
LILITH    &    EVA (by Yuri Klapouh - 1963)

MULHER E PÁSSARO ( Dora Ferreira da Silva )

 Linha invisível

liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.

TODOS ESSES ANJOS ( Lya Luft )

 Todos esses

Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?

Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

MIRADA SECRETA ( Lya Luft )

 Foram-se

os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.


 

HINO ( Bruna Lombardi )

 Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher

no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.