17/09/2025

(IM)POLUTOS ( Líria Porto )

 entre mim e ti

mentiras in_verdades

 

homem tira as mãos dos meus quadris

não vou permitir que teu abdômen se imponha

não te deites sobre mim

 

tirante a impureza da mente

o hímen permanecerá intato


 

SABOR ( Líria Porto )

 não poupo o corpo da fruta

cravo-lhe os dentes e como

casca e sementes


SEM CERIMÔNIA ( Líria Porto )

 o amor me quis — entreguei-me

ofereci-me em bandeja

 

cheirou-me lambeu-me

partiu-me em mil pedaços

e sem usar guardanapo

comeu-me

 

deixou o resto às baratas

e ratos tiram proveito

URBANO ( Líria Porto )

 na cabeça chapéu

sobre os ombros obrigações culpa medo

segredos no bolso entre as pernas

o pau duro

:

nos pés

sapatos e meias




 

RESGATE ( Líria Porto )

 nós que fomos um do outro

voltamos a ser de nós mesmos

 

agora é só desejo

algemas matam o amor


UAU ( Líria Porto )

 na hora do amor

subir nas paredes

depois despencar

 

(não se arrepender

é tudo tão bom)

 

o inferno e o céu

são faces da mesma

moeda


ESCREVER ( Irene Lisboa)

 Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.

Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito.
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas.
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água , o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

RELIGIÕES ( Cristina Peri Rossi )

 Não gosto do monoteísmo

nem da monogamia

Entre os vários deuses

é possível encontrar um benevolente

e entre os diversos amores

é possível encontrar um verdadeiro.

COM A TUA LETRA ( Fernando Assis Pacheco )

 Fala-se de amor para falar de muitas coisas

que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

CÉLIA MOURA , in "No Hálito de Afrodite"

 Nada restou de ti

Senão o eco dolorido dos teus passos
Pelo antigo soalho,
E é tanto (meu) amor
Que essa profana que em mim habita
Sai rua fora
Incendiada de instantes
Rebolando nas famintas coxas,
Trôpega, a saudade.

Mas eu que sou ninho de andorinha
Murmúrio de vento aninhado
Beijando beirais

Permaneço lá
Exilada à velha casa
Porque me nasceste colina
Entre os seios
E lírios nos cabelos

Não, nada restou de ti
Senão esta dilacerante embriaguez de Vida
Que me revolve e renasce
Todo o sangue nas artérias.


 

14/09/2025

FRUTA ( Líria Porto )

 nasci flor — fazer o quê

era macia cheirosa

mas depois quando encorpei

a minha polpa rachou

despertou fome

e desejo

 

uns homens

os mais gulosos

sujaram a boca

e os bigodes


ARMADILHA ( Heloisa Defarge )

 trago entre as pernas

este doce alçapão

aberto aos passarinhos

mas gosto mesmo

é de vê-los pousar

felizes em minha língua


 





 

CHAVE DE BUCETA ( Heloisa Defarge )

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

UM BUCHO TODOS OS BUCHOS ( Carla Diacov )

 pelos dias índios

já não ando

menstruo

 

menstruar pela orla

nos dias terríveis

menstruar pelas ordens

onde já não ando

menstruo

com o bucho para fora da armadura

o volume mais língua que a distância

um bucho todos os buchos

por nomenclatura norte meu

norte

o bucho

e a despeito das delicatessens

o bucho

 

é pobre pobre o homem de bem

leva a piada na ponta do sexo

o galho mais distante da língua

homens

uns como mulheres

umas feito homens de bem

 

já não ando bem das bolas

gravo beijos nas ruas no passeio

me perdoe se sujo seus brancos

mas é que menstruar acomete sem querer

eu disse

por imposição apócrifa

sim

é o bucho que sangra

eita bucho

quereria parir uma cabra de três cabeças

mas sangra

 

menstruo

e já não ando

por imposição apócrifa

menstruo

como que embaraçada de todas as onças

de tudo que é índio

de tudo que é quando e monstro

com a pança para fora da armadura

cheia de novelas com pombos

a consolação do homem de bem

a comiseração do homem de bem

perseguidos

coitados são todos os homens de bem

 

é imperativo sangrar a pomba

disse o homem de bem

também eu

que já não ando bem

mas é que mensurar acomete de dedos e quebra o quando

 

eu disse

por liquidação

já não afio a régua

menstruo

uns dias turvos como o lado de fora

umas noites de meu bem

umas com passos menos

umas com laços anêmicos

umas feito os dias incultos

menstruar para sair e voltar

nos dias terríveis

menstruar pelos canais das sombras

para fora da armadilha

o bucho

o aparato mais índio que a distância

a distância feito minha pança

respira em quandos

eita bucho

e já não anda bem

IDENTIDADE ( Heloisa Defarge )

 a minha pele

nunca aprende

sobre o amor

 

sobre os sinais

apenas carece

de tuas digitais


 

10/09/2025

ROLDÃO ( Líria Porto )

 meias arrastão levaram-me ao cais

marinheiros atracaram-se às minhas coxas

quando o navio zarpou voltei para casa

 

(frouxa)


ARRASTÃO ( Líria Porto )

 teus olhos são rede

eu — peixe


ENFARO ( Líria Porto )

 comeu-a a de a a e tanto se satisfez

que cuspiu no prato


IMÃ ( Líria Porto )

 teus olhos me puxam eu vou de roldão

sem chão e sem prumo eu voo

outros vãos



BRINQUEDO ( Lia Beltrão )

 Não me toque às cegas

Não me dispa logo

Não me morda os lóbulos

Não me amasse os seios

Não me afunde os dedos

Não me coma às pressas

Que eu não sou brinquedo

 

Me toque

Me dispa

Me morda

Me amasse

Me afunde

Me coma

Brincando comigo

INFORTÚNIO ( Líria Porto )

 pé de coelho

trevo-de-quatro-folhas

guiné arruda alecrim

comigo-ninguém-pode

ferradura atrás da porta

banho de sal grosso

espada-de-são-jorge

e nada de sorte


por Adília do Rego Castro

 sufragete alcoviteira

a primeira na fila do talco

rendas & vidrilhos

dispostos na beira da banheira

estratagemas quais seriam?

um pé direito, sais de banho

a posição do corpo no espaço oval

e os dedos dedilhando em movimentos

de orquestra, allegro andante sem pausas

na pauta, lembrava o banho tcheco no bidê

levantou-se anestesiada, algum formigamento

nas partes baixas e notou algo quente

escorrendo entre as pernas com aparência

de leite derramado


 

CREPÚSCULO SOBRE A IRACEMA ( Nina Rizzi )

 sobre meus olhos, umidez.

sobre meu sexo, uma flor.

acredite, nos labirintos, umidez e uma flor.

[ancestral. negra, negra.


09/09/2025

NÁUFRAGA ( Isadora Galvão )

 de ilha em ilha

projeto meu país

das maravilhas

tal Alice insandecida

(cortem-lhe a cabeça,

mas jamais

a imaginação

nem o clitóris)

 

na minha ilha

sou ninfa, sereia, Safo

entre um desabafo

e um pileque

um Sexta-feira

a meu serviço

 

náufraga

e sôfrega

na minha ilha

(lá mando eu

qual Odisseu

na sua história

entre uma dose

de rum ou gim

ai de mim!

até que eu goze

em som e glória.)

Por Valéria Tarelho

 as meninas

dos olhos

ficaram moças

 

estão amando

 

dilatando à toa

chorando feito

criança


 

PETRICHOR ( Valéria Tarelho )

 quero amanhãs que me devorem. enjoei de hojes sem teus beijos. coleciono ontens secos. os lábios rachados dos agoras sangram em bicas. o poema chora seu sinal. vermelho. rima que nunca cicatriza. mordo as horas que há bocas nos separam. sepultam os abraços. hojes de urnas contendo cinzas.

quero amanhãs de asfalto, pedágios, velocidade máxima. amanhãs de pressas e apreços. precisão de línguas lambendo fal[h]as e silêncios. a saliva das palavras selando cada sílaba do desejo.

amanhãs tenros para nos comermos. crus. com destempero. destemidos.

à luz dos próximos milhões de sóis.

amanhãs com chuvas que desprendam nosso cheiro pelas ruas das futuras luas que levarei no ventre.



 

 

 

MILENA ( Cida Pedrosa )

 gosto quando milena fala

dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo

A JAULA ( Alejandra Pizarnik ) Trad.: Virna Teixeira

 Lá fora faz sol.

Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.