19/09/2025

OS AMANTES ( Julio Cortázar )

 Quem os vê andar pela cidade

se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.
 
São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.
 
Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.
 
Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.
Tradução: José Jeronymo Rivera

VIAGEM INFINITA ( Julio Cortázar )

 para quem com seu incêndio te ilumina,

cósmico caracol de azul sonoro,
branco que vibra um címbalo de ouro,
último trecho da lâmina fina.

a mão que te busca na penumbra
se detém na tépida encruzilhada
onde musgo e coral guardam a entrada
e um rio de pirilampos te alumbra,

sim, portulano, da esmeralda o fulgor,
sirte e fanal nua mesma bandeja
quando a boca navegante beija
a poça mais profunda do teu dorso,

suave canibalismo que devora
sua presa que o dança no abismo ermo,
oh, labirinto exato de si mesmo
onde o pavor das delícias mora

água para a sede de quem te viaja
enquanto a luz que junto ao leito vela
desce às tuas coxas sua úmida gazela
e por fim a trêmula flor escacha.
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

17/09/2025

IN NOMINE SUO ( Mafalda Mautner )

 antes

em nome do Pai

muitas orações

e flagelações

 

(castigo

pra toda nudez

imaginada no confessionário)

 

agora

em seu próprio nome

só ereções

e masturbações

 

(uma parte animal

não se enjaula)

 

POSSESSIVO ( Líria Porto )

 queria-me nua

tão completamente

que depois das vestes

arrancou-me a pele

(fiquei carne viva)

 

então me salgou

comeu uma parte

e não satisfeito

congelou o resto

(vai comer mais tarde)



 

 

UM GATO PRA APOLLINAIRE ( Nina Rizzi )

 caminha por entre os livros, agarrada aos gatos,

a mulher cheia de razão.

 

quando acorda não me faz café:

esgueira até o banheiro seus dedos de arranhar azulejos;

se ama, se beija, se cospe, se come.

 

antes e depois de mim

 

— não está disposta a nos desperdiçar.


PRO_POSIÇÃO ( Líria Porto )

 eu te proponho

um naco de realidade

e um sonho

:

és do ramo — abre tua flor

quebra meu galho

 

eu me arrasto

tu te arrastas

nós nus

 

(um sobre o outro)


腹切り ( Líria Porto )

 com o tanto na barriga

da esquerda para a direita

desabro a vida

 

a lava escorre e lava

minha honra minha adaga

 

esta é a paga



TOP SECRET ( Márcia Maia )

 os pelos que enegrecem-me

o púbis

enroscam-se carentes

de tuas mãos a desejá-los

perto


FINJO - ME ESFINGE ( Líria Porto ) in "Escritoras Suicidas". edição 36. agosto 2009.

 meia lua meu amor

é tua

 

a outra metade

guardei-a para o compadre

que me beija a boca

quando chegas tarde

da casa da outra

(IM)POLUTOS ( Líria Porto )

 entre mim e ti

mentiras in_verdades

 

homem tira as mãos dos meus quadris

não vou permitir que teu abdômen se imponha

não te deites sobre mim

 

tirante a impureza da mente

o hímen permanecerá intato


 

SABOR ( Líria Porto )

 não poupo o corpo da fruta

cravo-lhe os dentes e como

casca e sementes


SEM CERIMÔNIA ( Líria Porto )

 o amor me quis — entreguei-me

ofereci-me em bandeja

 

cheirou-me lambeu-me

partiu-me em mil pedaços

e sem usar guardanapo

comeu-me

 

deixou o resto às baratas

e ratos tiram proveito

URBANO ( Líria Porto )

 na cabeça chapéu

sobre os ombros obrigações culpa medo

segredos no bolso entre as pernas

o pau duro

:

nos pés

sapatos e meias




 

RESGATE ( Líria Porto )

 nós que fomos um do outro

voltamos a ser de nós mesmos

 

agora é só desejo

algemas matam o amor


UAU ( Líria Porto )

 na hora do amor

subir nas paredes

depois despencar

 

(não se arrepender

é tudo tão bom)

 

o inferno e o céu

são faces da mesma

moeda


ESCREVER ( Irene Lisboa)

 Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.

Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito.
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas.
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água , o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

RELIGIÕES ( Cristina Peri Rossi )

 Não gosto do monoteísmo

nem da monogamia

Entre os vários deuses

é possível encontrar um benevolente

e entre os diversos amores

é possível encontrar um verdadeiro.

COM A TUA LETRA ( Fernando Assis Pacheco )

 Fala-se de amor para falar de muitas coisas

que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

CÉLIA MOURA , in "No Hálito de Afrodite"

 Nada restou de ti

Senão o eco dolorido dos teus passos
Pelo antigo soalho,
E é tanto (meu) amor
Que essa profana que em mim habita
Sai rua fora
Incendiada de instantes
Rebolando nas famintas coxas,
Trôpega, a saudade.

Mas eu que sou ninho de andorinha
Murmúrio de vento aninhado
Beijando beirais

Permaneço lá
Exilada à velha casa
Porque me nasceste colina
Entre os seios
E lírios nos cabelos

Não, nada restou de ti
Senão esta dilacerante embriaguez de Vida
Que me revolve e renasce
Todo o sangue nas artérias.


 

14/09/2025

FRUTA ( Líria Porto )

 nasci flor — fazer o quê

era macia cheirosa

mas depois quando encorpei

a minha polpa rachou

despertou fome

e desejo

 

uns homens

os mais gulosos

sujaram a boca

e os bigodes


ARMADILHA ( Heloisa Defarge )

 trago entre as pernas

este doce alçapão

aberto aos passarinhos

mas gosto mesmo

é de vê-los pousar

felizes em minha língua


 





 

CHAVE DE BUCETA ( Heloisa Defarge )

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UM BUCHO TODOS OS BUCHOS ( Carla Diacov )

 pelos dias índios

já não ando

menstruo

 

menstruar pela orla

nos dias terríveis

menstruar pelas ordens

onde já não ando

menstruo

com o bucho para fora da armadura

o volume mais língua que a distância

um bucho todos os buchos

por nomenclatura norte meu

norte

o bucho

e a despeito das delicatessens

o bucho

 

é pobre pobre o homem de bem

leva a piada na ponta do sexo

o galho mais distante da língua

homens

uns como mulheres

umas feito homens de bem

 

já não ando bem das bolas

gravo beijos nas ruas no passeio

me perdoe se sujo seus brancos

mas é que menstruar acomete sem querer

eu disse

por imposição apócrifa

sim

é o bucho que sangra

eita bucho

quereria parir uma cabra de três cabeças

mas sangra

 

menstruo

e já não ando

por imposição apócrifa

menstruo

como que embaraçada de todas as onças

de tudo que é índio

de tudo que é quando e monstro

com a pança para fora da armadura

cheia de novelas com pombos

a consolação do homem de bem

a comiseração do homem de bem

perseguidos

coitados são todos os homens de bem

 

é imperativo sangrar a pomba

disse o homem de bem

também eu

que já não ando bem

mas é que mensurar acomete de dedos e quebra o quando

 

eu disse

por liquidação

já não afio a régua

menstruo

uns dias turvos como o lado de fora

umas noites de meu bem

umas com passos menos

umas com laços anêmicos

umas feito os dias incultos

menstruar para sair e voltar

nos dias terríveis

menstruar pelos canais das sombras

para fora da armadilha

o bucho

o aparato mais índio que a distância

a distância feito minha pança

respira em quandos

eita bucho

e já não anda bem

IDENTIDADE ( Heloisa Defarge )

 a minha pele

nunca aprende

sobre o amor

 

sobre os sinais

apenas carece

de tuas digitais


 

10/09/2025

ROLDÃO ( Líria Porto )

 meias arrastão levaram-me ao cais

marinheiros atracaram-se às minhas coxas

quando o navio zarpou voltei para casa

 

(frouxa)


ARRASTÃO ( Líria Porto )

 teus olhos são rede

eu — peixe


ENFARO ( Líria Porto )

 comeu-a a de a a e tanto se satisfez

que cuspiu no prato


IMÃ ( Líria Porto )

 teus olhos me puxam eu vou de roldão

sem chão e sem prumo eu voo

outros vãos



BRINQUEDO ( Lia Beltrão )

 Não me toque às cegas

Não me dispa logo

Não me morda os lóbulos

Não me amasse os seios

Não me afunde os dedos

Não me coma às pressas

Que eu não sou brinquedo

 

Me toque

Me dispa

Me morda

Me amasse

Me afunde

Me coma

Brincando comigo