Quem os vê andar pela cidade
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
19/09/2025
OS AMANTES ( Julio Cortázar )
VIAGEM INFINITA ( Julio Cortázar )
para quem com seu incêndio te ilumina,

17/09/2025
IN NOMINE SUO ( Mafalda Mautner )
antes
em nome do Pai
muitas orações
e flagelações
(castigo
pra toda nudez
imaginada no confessionário)
agora
em seu próprio nome
só ereções
e masturbações
(uma parte animal
não se enjaula)
POSSESSIVO ( Líria Porto )
queria-me nua
tão completamente
que depois das vestes
arrancou-me a pele
(fiquei carne viva)
então me salgou
comeu uma parte
e não satisfeito
congelou o resto
(vai comer mais tarde)
UM GATO PRA APOLLINAIRE ( Nina Rizzi )
caminha por entre os livros, agarrada aos gatos,
a mulher cheia de razão.
quando acorda não me faz café:
esgueira até o banheiro seus dedos de arranhar azulejos;
se ama, se beija, se cospe, se come.
antes e depois de mim
— não está disposta a nos desperdiçar.
PRO_POSIÇÃO ( Líria Porto )
eu te proponho
um naco de realidade
e um sonho
:
és do ramo — abre tua flor
quebra meu galho
eu me arrasto
tu te arrastas
nós nus
(um sobre o outro)
腹切り ( Líria Porto )
com o tanto na barriga
da esquerda para a direita
desabro a vida
a lava escorre e lava
minha honra minha adaga
esta é a paga
FINJO - ME ESFINGE ( Líria Porto ) in "Escritoras Suicidas". edição 36. agosto 2009.
meia lua meu amor
é tua
a outra metade
guardei-a para o compadre
que me beija a boca
quando chegas tarde
da casa da outra
(IM)POLUTOS ( Líria Porto )
entre mim e ti
mentiras in_verdades
homem tira as mãos dos meus quadris
não vou permitir que teu abdômen se imponha
não te deites sobre mim
tirante a impureza da mente
o hímen permanecerá intato
SEM CERIMÔNIA ( Líria Porto )
o amor me quis — entreguei-me
ofereci-me em bandeja
cheirou-me lambeu-me
partiu-me em mil pedaços
e sem usar guardanapo
comeu-me
deixou o resto às baratas
e ratos tiram proveito
URBANO ( Líria Porto )
na cabeça chapéu
sobre os ombros obrigações culpa medo
segredos no bolso entre as pernas
o pau duro
:
nos pés
sapatos e meias
UAU ( Líria Porto )
na hora do amor
subir nas paredes
depois despencar
(não se arrepender
é tudo tão bom)
o inferno e o céu
são faces da mesma
moeda
ESCREVER ( Irene Lisboa)
Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
RELIGIÕES ( Cristina Peri Rossi )
Não gosto do monoteísmo
nem da monogamia
Entre os vários deuses
é possível encontrar um benevolente
e entre os diversos amores
é possível encontrar um verdadeiro.
COM A TUA LETRA ( Fernando Assis Pacheco )
Fala-se de amor para falar de muitas coisas
CÉLIA MOURA , in "No Hálito de Afrodite"
Nada restou de ti
14/09/2025
FRUTA ( Líria Porto )
nasci flor — fazer o quê
era macia cheirosa
mas depois quando encorpei
a minha polpa rachou
despertou fome
e desejo
uns homens
os mais gulosos
sujaram a boca
e os bigodes
ARMADILHA ( Heloisa Defarge )
trago entre as pernas
este doce alçapão
aberto aos passarinhos
mas gosto mesmo
é de vê-los pousar
CHAVE DE BUCETA ( Heloisa Defarge )
UM BUCHO TODOS OS BUCHOS ( Carla Diacov )

pelos dias índios
já não ando
menstruo
menstruar pela orla
nos dias terríveis
menstruar pelas ordens
onde já não ando
menstruo
com o bucho para fora da armadura
o volume mais língua que a distância
um bucho todos os buchos
por nomenclatura norte meu
norte
o bucho
e a despeito das delicatessens
o bucho
é pobre pobre o homem de bem
leva a piada na ponta do sexo
o galho mais distante da língua
homens
uns como mulheres
umas feito homens de bem
já não ando bem das bolas
gravo beijos nas ruas no passeio
me perdoe se sujo seus brancos
mas é que menstruar acomete sem querer
eu disse
por imposição apócrifa
sim
é o bucho que sangra
eita bucho
quereria parir uma cabra de três cabeças
mas sangra
menstruo
e já não ando
por imposição apócrifa
menstruo
como que embaraçada de todas as onças
de tudo que é índio
de tudo que é quando e monstro
com a pança para fora da armadura
cheia de novelas com pombos
a consolação do homem de bem
a comiseração do homem de bem
perseguidos
coitados são todos os homens de bem
é imperativo sangrar a pomba
disse o homem de bem
também eu
que já não ando bem
mas é que mensurar acomete de dedos e quebra o quando
eu disse
por liquidação
já não afio a régua
menstruo
uns dias turvos como o lado de fora
umas noites de meu bem
umas com passos menos
umas com laços anêmicos
umas feito os dias incultos
menstruar para sair e voltar
nos dias terríveis
menstruar pelos canais das sombras
para fora da armadilha
o bucho
o aparato mais índio que a distância
a distância feito minha pança
respira em quandos
eita bucho
e já não anda bem
10/09/2025
ROLDÃO ( Líria Porto )
meias arrastão levaram-me ao cais
marinheiros atracaram-se às minhas coxas
quando o navio zarpou voltei para casa
(frouxa)
BRINQUEDO ( Lia Beltrão )
Não me toque às cegas
Não me dispa logo
Não me morda os lóbulos
Não me amasse os seios
Não me afunde os dedos
Não me coma às pressas
Que eu não sou brinquedo
Me toque
Me dispa
Me morda
Me amasse
Me afunde
Me coma
Brincando comigo






















