22/10/2025

TÁBUA DAS MARÉS ( Antonio Martinelli )

na vazante,

seu corpo se resumia em sal
[havia gesto]
na cheia,
seu corpo transbordava água
[e havia dança]

na vazante,
meu corpo desenhava no vazio
[havia rito]
na cheia,
meu corpo transitava o seu
[e havia luta]

entre, espaço : tempo, 
era presente e já não era 
[mas havia ritmo]

preamar, amar, baixa mar,
amar.
[e havia rima?]

e você ainda me dizia 
não saber [sobre o domínio] da lua 
em nossos corpos,

eu, tampouco, [sobre o amor].

21/10/2025

CALAFRIO (Miriam Alves) em "Cadernos Negros". n. 7, SP : 1984.

 O sorriso gela

a porta do paraíso prometido

A tarde cobre-se de frio
grita
esconde-se atrás dos
casacos
faz esculpir aquela saudade
do lugar
jamais percorrido.

Escorrem feito sorvete
as esperanças derretidas
no ardor do querer.

MULHER EM TRÊS TEMPOS ( Murilo Mendes )

 Minha boca está no presente,

O meu olhar, no passado,
Meu ventre está no futuro.
Minha boca toda a noite
Está na boca amorosa
Do meu marido atual,
Meu olhar está no olho
Do meu namorado antigo,
Meu ventre está no futuro
Do corpinho do meu filho.

CORPO ( Dante Milano )

 Adorei teu corpo,

Tombei de joelhos.
Encostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

CHEIRO DE ESPÁDUA ( Alberto de Oliveira )

 Quando a valsa acabou, veio à janela,

sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava.
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
e estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a espádua, aquela
carne rosada de um mimo! A arder na lava
de improvisa paixão, eu, que a beijava,
hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh, ciúme!
sair velada da mantilha. A esteira
sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-me ainda,
sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
este ar da noite àquela espádua linda!

20/10/2025

MULHER LIBERADA ( Martha Medeiros )

  a verdadeira mulher liberada

não é a que deita sem ser casada
que toma um drinque depois das seis
que fez plástica mais de uma vez
que dirige uma empresa privada
que sai à noite sem ser escoltada
que não é financiada pelo seu ex
liberada é quem recusa clichês
e não dá queixa por ter sido cantada

HÁ MULHERES ( Martha Medeiros )

 há mulheres

que têm diversos namorados
depois casam e têm diversos filhos e filhas
eventualmente um ou dois amantes
e chegam no fim da vida
sem nunca sentirem-se amadas como as artistas
há mulheres
que tiveram uns poucos flertes ligeiros
no máximo um amor platônico
não casam, não fazem filhos
cultivam meia dúzia de amigos
e nunca se sentem benquistas

há mulheres
que preferem ficar sozinhas
não amam senão viagens, plantas e espelhos
e no entanto os homens morrem por elas
largam a família, se atiram a seus pés
amam estas mulheres com o amor mais
puro que existe
e nem isso conquista

fraqueza, defeito
desvio cultural
herança genética, trauma de infância
carência existencial
vá saber a razão
para tanto
eu te amo ocasional

nenhuma mulher se sente
amada o suficiente
desista

NÃO QUERO SABER ( Martha Medeiros )

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NO FUNDO ( Martha Medeiros )

 eu penso conforme o tempo

eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo

mas no fundo
eu não me conformo

LIVRO NOVO ( Mariela Cordero ) tradução: Gladys Mendía

 Lias um livro novo

em meu corpo

indagavas outro credo

outra língua

Sentias o cheiro de uma remota maré

fechavas os olhos

até quase senti-la bater

contra teus dedos.

 

Entravas às cegas

no outro mar.

Por Ariadne Marinho

=

 Hoje, cansei.

Simplesmente… cansei.

De telas que me devoram os olhos,

de buscar sentido nos vãos, no nada.

Não aceito brechas -

sou vastidão.

Repito em voz plena: SOU IMENSA!

Sou poesia que pulsa,

vontade em carne viva,

metal

movimento em combustão.

Mas também sou sopro,

sou pausa,

sou o instante que se alonga no tempo.

A espera

O silêncio

E mesmo assim, sigo.

Não me encaixo no comum.

Não sou quase.

Sou o tudo que transborda.

Vida e morte,

entrelaçadas numa dança ardente.

Sou riso solto,

lágrima densa e feia

grito e suspiro.

Sou imensidão.

Sou abismo.

aos poucos, me desencanto.

Sou feita de versos —

gosto de mergulhos, não de margens.

 

Vibro com o que é sensível,

me comovo com o que pulsa.

Não sou rasa —

sou mar em dias de tormenta.

 

Vivo além das linhas desta cidade.

Gosto do mato, das cores

dos caminhos pisados por outros pés.

 

Corro.

E como corro e me derramo.

Extravaso a vida em cada passo.

Sou potência viva,

em carne e em chama.

 

Não sou convenção.

Sou cor.

Mesmo nua,

sou tempestade em aquarela

Por Ariadne Marinho

 Um quase abraço que terminou em distância.

Um quase afeto que nunca se nomeou.
Um quase encontro que ardeu no corpo, mas fugiu da alma.

Fomos desejo pulsante, pele quente, beijos que nunca souberam ser só brincadeira.
Fomos impulso, urgência, vontade crua.
Fomos palavras jogadas onde habita o silêncio.

Por Victoria Benarroch

 O desejo de suas pálpebras

me chove
no branco
de uma luz extraviada

 

esse brilho esconde
a incerteza que prende minhas raízes

 

envolvo com força a água cristalina
e um refúgio permanece