Acreditar na existência dourada do sol
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
04/12/2025
O CAVALEIRO E OS MOINHOS ( João Bosco / Aldir Blanc )
TOM MAIOR ( Martinho da Vila )
Está em você
03/12/2025
DANIEL NA COVA DOS LEÕES (Renato Russo/Renato Rocha)
Aquele gosto amargo do teu corpo
01/12/2025
4 ( Luíza Mendes Furia ) in Lições de Casa - Antologia "Nada Nos Resta Senão Cantar"
A mulher que pendurou a toalha na janela
não sabe que aquilo é um poemavoando no compasso do vento e dos acordes da músicaque o rádio espalhaTalvez ninguém tenha vistoo indescritível amarelo caiadodo prédio vizinho, cercado de azul:pálidas tintas que compõem esta manhã.No fundo deste bairroquem ouve tanta luz?Mesclada à picareta que desce às pedrase a outros ruídos aparentemente banaisa mulher que pendurou a toalhanão sabe de mim nem ouve rádio.Talvez nunca tenha imaginadoque sua toalha fosse uma asa enlouquecida.
XIV ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001
As noites eram sempre verão.
ELIPSE ( Cida Pedrosa )
finco a chuva
entre tuas pernas
e espanto o estio
da pele fogem relâmpagos
da boca saltam trovões
nos olhos pairam coriscos
e um céu sertanejo
sulco a terra
neste plano horizontal
levemente oblíquo
caminho abissal
semeadura de contas
folhagem
teu verso coruscante
aflige ensandece espanta
o inverno se faz
em uma tempestade
quadrada
ao amor é dada
a calha
ah! quem sabe agora
o orvalho se move
e nos devolve as espigas
que colhemos durante a noite
RITUAL ( Nanda Prietto )
A minha nudez é isso
Que você está vendo.
Meus cabelos exalam
Gafanhotos e outras pragas.
Para a missa, entro nua
De bíblia em punho.
Enquanto "eles" bebem,
Em torno do altar do holocausto,
As vísceras do crucificado mais recente,
Recolho, um a um, os sêmens
Dos cordeiros primogênitos.
Na rua, minha nudez é
O que você está vendo:
Câncer no coração.
Vermes nos olhos.
Lepra na genitália.
A nudez é o que
Você vê?
Eu, nua
Sob a burka.
Democra$ia!
Simulacros de intestinos que bebemos
Exercitando
Nossa ilusão de livre-arbítrio.
UM POBRE INSTANTE ( Joan Margarit )
A morte não é mais do que isto: um quarto,
IMÓVEL (Miriam Reyes) Tradução: Nelson Santander
abandonado a teu peso de homem imóvel
olhas-me com antiquíssimos ressentimentos.
A TREVA ( Adélia Prado )
Me escolhem os claros do sono
Por Rupi Kaur, in Outros Jeitos de Usar a Boca / Tradução: Ana Guadalupe
pelo
se não era pra estar aqui
não cresceria
em nosso corpo pra começo de conversa
- estamos em guerra com o que há de mais natural em nós
ANAGAPESIS ( Silvana Guimarães )
menos que um corpo mais que uma coisa
ser um girassol onde nunca chove
ser o que eu quiser, baby
não é a solidão é mais que a solidão
o que me livra dessa espécie de amor
que me feriu e me fez ferir
nunca mais seu esperma a trofosperma
alimentando outras vidas com a minha
pode espernear: mon coeur mis à nu
lá fora passa o carro da pamonha
e o moço grita pelo alto-falante:
os deuses estão mortos
na vitrola o disco arranhado
naquela parte em que a voz
implora let me try again
PERFEIÇÕES ( Ana Elisa Mercadante )
No ubíquo mar da minha inveja
GINÁSTICAS ( Ana Elisa Mercadante )
Tirana de seus eixos e seus fulcros,
ESCRITO NA PELE ( Ademir Assunção )
a pele o melhor papel
Por Clara Albuquerque
quando ficava nua
na cama
não ficava nua
não dormia nua
quando os homens na rua a despiam com os olhos
o olhar dos homens
eram anáguas de morte
no espelho
não ficava nua
e mesmo quando erguia uma das bandas
da bunda
para a mulher da depilação
não se sabia nua
nunca tinha ficado tão nua
que não sabia como de fato
ESTADO ( Carla Diacov )
E.
e ter de estar nua
aos pés da estante
para poder te dizer
sou canibalesca
e gosto muito de chupar os ossinhos dos ouvidos humanos
gosto de comer pelada
e não lavo as mãos antes de ler
este é o dia de hoje
veja bem
é o meu Estado
estou sujeita
S.
sim
é pelada
o Estado onde posso
fazer as unhas
abrir bem as pernas
e lixar as unhas dos pés
posto que neste Estado
posso
cantar como cantava uma perereca que conheci
dar de túnel
imitação de túnel
como um túnel que conheci:
que aturdido obelisco de infantaria inculta!
T.
totem:
um cavalo está parado diante das minhas mãos
e não posso:
estou pelada
uma criança me vê pelada
e não posso:
estou imaculada
sou invisível
escorrego e me espatifo toda no chão de cimento cru
estou lá
pelada e me sinto terrível
uma megera
o chão é cru! o chão é cru! e eu não me caramujo nem um tanto.
A.
aforismo e autuação
este é o meu Estado
sou a pelada
e um lagarto passa por mim
(adotei o lagarto de um antigo encantador de serpentes que conheci)
(o encantador de serpentes que conheci também encantava fumaças e lombrigas)
passam por mim minhas memórias a despeito de um livro irritante
o lagarto ainda passa
das memórias
uma de especial
MIGRAR A LÁBIA PARA O LADO ONDE BANDEIRA ALGUMA INSISTA
o lagarto ainda passa
e ai
como gosto do tempo que o lagarto usa
trocando as bases de seu próprio tempo de pele
nas proximidades do meu tempo nos limites do meu Estado
D.
dizem
digo
já é de tradição
quase autoritária
sonhar que
chegando pelado à escola
o indivíduo deite-se numa gigantesca língua púrpura
seja
ainda que por três ou quatro litros de segundos
um tanto hermético em sua maneira de rolar pela dita
deixe
que seu couro todo sinta os pólipos e os périplos
esbarrando no adjetivo mais inadequado
esfregue sua genitália
nas áreas mais coibidas da filosofia no paladar
levante-se e deite-se e levante-se e sente-se e role
pressinta a narrativa ordinária e a prepotente
ou que pelo menos
numa espécie rara de dança tribal
acorde todo salivado nos olhos e nas canelas.
tradição!
O.
ouço
voltando ao meu Estado
pelada
os urubus circundando, gritando, pedindo
imagino
voltando e saindo do meu Estado
uma camisa vestindo a mim
uma calça e uma calcinha e um chapéu e um sonho
vestindo a mim
pelada
botinas de homem e um cinto de couro de crocodilo
pelada
tudo vestindo a mim
ao meu couro
em pleno Estado meu
eu, pelada
tudo numa ordem zanzada
hora inexata de ser
um tanto menos de ser
(como ser justa com os cabelos no Estado de onde me vou saindo?)
uma cabeça de gente na janela da frente
uma de bicho
no vão da porta
(não estávamos no telhado?)
(eu, meu Estado, aquele livro, a tradição, os ossinhos e o lagarto?)
(a criança e o cavalo?)
(não estávamos lá?)
tudo numa ordem penitente, amargada
eu pelada
sumariamente chorosa
ai, chorar pelada! cantar pelada.
pelada, tomar chuva ou tapa na orelha!
já voltando e já saindo
do meu Estado
pelada
tendo devorado
a tudo o que é vivo ou relativo
e voltar a mascar a nudez como a um ursinho de goma
uma palestra, filhotes melados
procissão, dedos lambrecados
rachos arabescos e vingança
tudo dentro e fora da jurisprudência do meu Estado
mas veja bem o Estado:
eu pelada
pareço porca esquematizada
ponto a ponto
imito a tua silhueta ao me despojar dos panos?
sou o fantasma nos limites do meu Estado
estou no meu Estado
30/11/2025
Por Rupi Kaur / Tradução: Ana Guadalupe
ontem














