04/12/2025

O CAVALEIRO E OS MOINHOS ( João Bosco / Aldir Blanc )

 Acreditar na existência dourada do sol

Mesmo que em plena boca
Nos bata o açoite contínuo da noite
Arrebentar a corrente que envolve o amanhã
Despertar as espadas
Varrer as esfinges das encruzilhadas
Todo esse tempo foi igual a dormir no navio
Sem fazer movimento
Mas tecendo o fio da água e do vento

Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro,
Malandramente, pelos caminhos
Meu companheiro tá armado até os dentes
Já não há mais moinhos como os de antigamente

TOM MAIOR ( Martinho da Vila )

 Está em você

O que o amor gerou
Ele vai nascer, e há de ser sem dor
Ah! Eu hei de ver
Você ninar e ele dormir
Hei de vê-lo andar
Falar, sorrir

Ah! Eu hei de ver
Você ninar e ele dormir
Fazê-lo andar
Falar, cantar, sorrir

E então quando ele crescer
Vai ter que ser homem de bem
Vou ensiná-lo a viver
Onde ninguém é de ninguém
Vai ter que amar a liberdade
Só vai cantar em Tom Maior
Vai ter a felicidade de
Ver um Brasil melhor

03/12/2025

DANIEL NA COVA DOS LEÕES (Renato Russo/Renato Rocha)

 Aquele gosto amargo do teu corpo

Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo, então salgado, ficou doce
Assim que o teu cheiro forte e lento

Fez casa nos meus braços
E ainda leve, forte, cego e tenso
Fez saber
Que ainda era muito e muito pouco

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante

E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção

Mas tão certo quanto o erro de ser barco a motor
E insistir em usar os remos
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

01/12/2025

4 ( Luíza Mendes Furia ) in Lições de Casa - Antologia "Nada Nos Resta Senão Cantar"

 A mulher que pendurou a toalha na janela

não sabe que aquilo é um poema
voando no compasso do vento e dos acordes da música
que o rádio espalha

Talvez ninguém tenha visto
o indescritível amarelo caiado
do prédio vizinho, cercado de azul:
pálidas tintas que compõem esta manhã.

No fundo deste bairro
quem ouve tanta luz?
Mesclada à picareta que desce às pedras
e a outros ruídos aparentemente banais

a mulher que pendurou a toalha
não sabe de mim nem ouve rádio.
Talvez nunca tenha imaginado
que sua toalha fosse uma asa enlouquecida.

XIV ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 As noites eram sempre verão.

Entre meu corpo e o teu
o sol se dilatava até explodir
em constelações — então
éramos Antares e Algedi
no escuro a cintilar.

Agora que o verão passou
nos vejo árvores do mesmo pomar
E fulgurantes frutas pendem
de nossos braços abertos
onde pássaros de açúcar vêm pousar.

ELIPSE ( Cida Pedrosa )

 finco a chuva

entre tuas pernas

e espanto o estio

 

da pele fogem relâmpagos

da boca saltam trovões

nos olhos pairam coriscos

e um céu sertanejo

 

sulco a terra

neste plano horizontal

levemente oblíquo

 

caminho abissal

semeadura de contas

folhagem

 

teu verso coruscante

aflige ensandece espanta

 

o inverno se faz

em uma tempestade

quadrada

ao amor é dada

a calha

 

ah! quem sabe agora

o orvalho se move

e nos devolve as espigas

que colhemos durante a noite


RITUAL ( Nanda Prietto )

 A minha nudez é isso

Que você está vendo.

Meus cabelos exalam

Gafanhotos e outras pragas.

 

Para a missa, entro nua

De bíblia em punho.

 

Enquanto "eles" bebem,

Em torno do altar do holocausto,

As vísceras do crucificado mais recente,

Recolho, um a um, os sêmens

Dos cordeiros primogênitos.

 

Na rua, minha nudez é

O que você está vendo:

Câncer no coração.

Vermes nos olhos.

Lepra na genitália.

A nudez é o que

Você vê?

Eu, nua

Sob a burka.

Democra$ia!

Simulacros de intestinos que bebemos

Exercitando

Nossa ilusão de livre-arbítrio.

UM POBRE INSTANTE ( Joan Margarit )

 A morte não é mais do que isto: um quarto,

a luminosa tarde na janela,
e este toca-fitas na mesinha
tão desligado como o teu coração
com todas as tuas canções cantadas para sempre.
Teu último suspiro segue dentro de mim,
todavia em suspenso: não deixo que termine.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves como no pátio da escola
as crianças estão brincando?
Sabes, ao final da tarde,
como será esta noite,
noite de primavera? Pessoas virão.
A casa acenderá todas as suas luzes.

                                    Tradução: Nelson Santander

IMÓVEL (Miriam Reyes) Tradução: Nelson Santander

 abandonado a teu peso de homem imóvel

olhas-me com antiquíssimos ressentimentos.

Ouve-me bem:
sou inocente de teu passado
não sou a tua puta mãe
nem a tua enferma mãe
nem a tua louca mãe
embora seja uma puta louca.
Não mereço receber agressões alheias,
atrasadas e caducas.
Não projetes em mim os fantasmas de tua infância,
tenho forma, cor e dimensões próprias.

Tampouco venhas para mim
chorando como um bebê
quando não o és
este colo que te acolhe também te deseja.

Não exageres,
a mim também me expulsaram do paraíso
antes do tempo
e sem notificação prévia,
a quem é que não?

Vamos, homem,
sai dessa!

A TREVA ( Adélia Prado )

 Me escolhem os claros do sono

engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos,
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.

Por Rupi Kaur, in Outros Jeitos de Usar a Boca / Tradução: Ana Guadalupe

pelo

se não era pra estar aqui

não cresceria

em nosso corpo pra começo de conversa 

- estamos em guerra com o que há de mais natural em nós

Por Rupi Kaur / Tradução: Ana Guadalupe

 você envolve meu cabelo

com os dedos
e puxa
é assim
que você tira
música de mim

— preliminares

ANAGAPESIS ( Silvana Guimarães )

 menos que um corpo mais que uma coisa

ser um girassol onde nunca chove

ser o que eu quiser, baby

 

não é a solidão é mais que a solidão

o que me livra dessa espécie de amor

que me feriu e me fez ferir

 

nunca mais seu esperma a trofosperma

alimentando outras vidas com a minha

pode espernear: mon coeur mis à nu

 

lá fora passa o carro da pamonha

e o moço grita pelo alto-falante:

os deuses estão mortos

 

na vitrola o disco arranhado

naquela parte em que a voz

implora let me try again

PERFEIÇÕES ( Ana Elisa Mercadante )

 No ubíquo mar da minha inveja

nadam e surfam jovens seminus
Na pele espelho, o sol imprime ouros.
Montando águas, potros luzidios
empinam ondas.
Sobem na tensão
turbando arcos verdes de cristal.
Se lançam:
setas ávidas de vida
rasgando espumas.
Ícaros do mar
se escondem.
Pumas
se embrenhando em ventres
vão grafitando nomes de água e sal.
Ressurgem
lassos de êxtases
de espasmos
mas já buscando a volta, o renovar.

No horizonte vagas perfeições
formam volumes, planos e apelos.

No leito seda,
as curvas destruídas,
em letargia,
afagam pés que fogem.

São deuses.
Deuses alheios ao meu mau olhar.

GINÁSTICAS ( Ana Elisa Mercadante )

 Tirana de seus eixos e seus fulcros,

asseia em óleos íntimas roldanas.
Não óleos bentos, certamente lúbricos,
óleo de peças amoldando atritos.
Em tácito controle de seus músculos
apura sempre as modernas juntas,
aptas à luta pelas endorfinas,
a exalar suor e feromonas
nessa rotina de correr pelas ruas
e de repente disparar  de susto.
Aptas à guerra santa ou pulcra
dessa rotina de correr sempre por camas
e competir por nota em kama sutra.

ESCRITO NA PELE ( Ademir Assunção )

  a pele          o melhor papel

                            para uma escrita de vertigens

         poros                    piras acesas
                            ao roçar das línguas

         papiro de delícias                     onde se grafam
                                                        carícias, ideogramas

                            numa linguagem de líquidos
         :
         suores         sêmen                 nanquim
                            sem rasuras

         escrita que se renova              na passagem dos dias
                                                        mas também se apaga

                            nada de rastros
                            dessas páginas de prazeres

                            marés, luas cheias
                            ventos varrem as pegadas

         de tantos pés pisados:                      traços delicados
         palavras                que eriçaram os pelos
         risadas                 loucuras               fúria animal

         sem vírgulas                                     reticências
                                                                  ou ponto final

Por Clara Albuquerque

 quando ficava nua

na cama

não ficava nua

não dormia nua

quando os homens na rua a despiam com os olhos

o olhar dos homens

eram anáguas de morte

no espelho

não ficava nua

e mesmo quando erguia uma das bandas

da bunda

para a mulher da depilação

não se sabia nua

nunca tinha ficado tão nua

que não sabia como de fato

fosse uma mulher nu

ESTADO ( Carla Diacov )

 E.

e ter de estar nua

aos pés da estante

para poder te dizer

sou canibalesca

e gosto muito de chupar os ossinhos dos ouvidos humanos

gosto de comer pelada

e não lavo as mãos antes de ler

este é o dia de hoje

veja bem

é o meu Estado

estou sujeita

 

 

S.

sim

é pelada

o Estado onde posso

fazer as unhas

abrir bem as pernas

e lixar as unhas dos pés

posto que neste Estado

posso

cantar como cantava uma perereca que conheci

dar de túnel

imitação de túnel

como um túnel que conheci:

que aturdido obelisco de infantaria inculta!

 

 

T.

totem:

 

um cavalo está parado diante das minhas mãos

e não posso:

estou pelada

 

uma criança me vê pelada

e não posso:

estou imaculada

sou invisível

 

escorrego e me espatifo toda no chão de cimento cru

estou lá

pelada e me sinto terrível

uma megera

o chão é cru! o chão é cru! e eu não me caramujo nem um tanto.

 

 

A.

aforismo e autuação

este é o meu Estado

sou a pelada

e um lagarto passa por mim

(adotei o lagarto de um antigo encantador de serpentes que conheci)

(o encantador de serpentes que conheci também encantava fumaças e lombrigas)

passam por mim minhas memórias a despeito de um livro irritante

o lagarto ainda passa

das memórias

uma de especial

MIGRAR A LÁBIA PARA O LADO ONDE BANDEIRA ALGUMA INSISTA

o lagarto ainda passa

e ai

como gosto do tempo que o lagarto usa

trocando as bases de seu próprio tempo de pele

nas proximidades do meu tempo nos limites do meu Estado

 

 

D.

dizem

digo

já é de tradição

quase autoritária

sonhar que

chegando pelado à escola

o indivíduo deite-se numa gigantesca língua púrpura

seja

ainda que por três ou quatro litros de segundos

um tanto hermético em sua maneira de rolar pela dita

deixe

que seu couro todo sinta os pólipos e os périplos

esbarrando no adjetivo mais inadequado

esfregue sua genitália

nas áreas mais coibidas da filosofia no paladar

levante-se e deite-se e levante-se e sente-se e role

pressinta a narrativa ordinária e a prepotente

ou que pelo menos

numa espécie rara de dança tribal

acorde todo salivado nos olhos e nas canelas.

 

tradição!

 

 

O.

ouço

voltando ao meu Estado

pelada

os urubus circundando, gritando, pedindo

imagino

voltando e saindo do meu Estado

uma camisa vestindo a mim

uma calça e uma calcinha e um chapéu e um sonho

vestindo a mim

pelada

botinas de homem e um cinto de couro de crocodilo

pelada

tudo vestindo a mim

ao meu couro

em pleno Estado meu

eu, pelada

tudo numa ordem zanzada

hora inexata de ser

um tanto menos de ser

(como ser justa com os cabelos no Estado de onde me vou saindo?)

uma cabeça de gente na janela da frente

uma de bicho

no vão da porta

(não estávamos no telhado?)

(eu, meu Estado, aquele livro, a tradição, os ossinhos e o lagarto?)

(a criança e o cavalo?)

(não estávamos lá?)

tudo numa ordem penitente, amargada

eu pelada

sumariamente chorosa

ai, chorar pelada! cantar pelada.

pelada, tomar chuva ou tapa na orelha!

já voltando e já saindo

do meu Estado

pelada

tendo devorado

a tudo o que é vivo ou relativo

e voltar a mascar a nudez como a um ursinho de goma

uma palestra, filhotes melados

procissão, dedos lambrecados

rachos arabescos e vingança

tudo dentro e fora da jurisprudência do meu Estado

 

mas veja bem o Estado:

eu pelada

pareço porca esquematizada

ponto a ponto

 

imito a tua silhueta ao me despojar dos panos?

sou o fantasma nos limites do meu Estado

estou no meu Estado

sou a memória da égua da noite.