10/12/2025

CORPOEMA ( Girlene Verly )

 o corpo letra

feito forma
feito palavra
força e frisson
o corpo silêncio
reticenciando tempos
alongando versos pelas pontas
dos dedos
o corpo-planta-ponte
plantando ideias
correndo mundo
abrindo portas
somente
aos que também
se alfabetizaram
na língua-mãe
do sentir

FASCÍNIO ( Brunna Viegas )

 E seria loucura?

querer se despir
Para quem já nos
faz sentir nua?

PRINCÍPIO DO PRAZER ( Brunna Viegas )

 Desejo o inalcançável

Nossa felicidade soberana
Gargalhadas ao infinito
Bolo de laranja
Pães de queijo no forno
Passarinhos piando
Caetano djavaneando
Conversas intermináveis
Freud, Maria Rita Kehl e Lacan
E a gente, no fim, gozando
Dessa falsa satisfação plena.

08/12/2025

PELA JANELA ABERTA ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Se deitada de costas

dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.

O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.

DESTREZA ( Marina Colasanti ) in Gargantas Abertas, 1998

 Quando Artemisia degolou

Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.

Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Judite decapitando Holofernes,  pintura da artista barroca italiana Artemisia Gentileschi 

AO REDOR ( Marina Colasanti )

Ao redor, a pele.

Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.

Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.

Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas

Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.

A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?

Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.

Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.

É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga 
como o areal
abriga a concha?

A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?

CARNE DE LEITE E LUA ( Marina Colasanti )

 Nenhuma mulher foi mais branca

que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvície
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
Obra: Suzanne et les Vieillards   de  Jacopo Tintoretto

RED POPPY ( Marina Colasanti )

 Na testa do meu amado

estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.

Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.

Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memória
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.

07/12/2025

MARINA ( Vinícius de Moraes )

 Lembras-te das pescarias

Nas pedras das Três-Marias
                    Lembras-te, Marina?

Na navalha dos mariscos
Teus pés corriam ariscos
                    Valente menina!

Crescia na beira-luz
O papo dos baiacus
                    Que pescávamos

E nas vagas matutinas
Chupávamos tangerinas
                   E vagávamos…

Tinhas uns peitinhos duros
E teus beicinhos escuros
                     Flauteavam valsas

Valsas ilhoas! vadio
Eu procurava, no frio
                    De tuas calças

E te adorava; sentia
Teu cheiro a peixe, bebia
                    Teu bafo de sal

E quantas vezes, precoce
Em vão, pela tua posse
                  Não me saí mal...

Deixavas-me dessa luta
Uma adstringência de fruta
                  De suor, de alga

Mas sempre te libertavas
Com doidas dentadas bravas
               Menina fidalga!

Foste minha companheira
Foste minha derradeira
                  Única aventura?

Que nas outras criaturas
Não vi mais meninas puras
                 Menina pura.

O ESPECTRO DA ROSA ( Vinícius de Moraes )

 Juntem-se vermelho

Rosa, azul e verde
E quebrem o espelho
Roxo para ver-te

Amada anadiômena
Saindo do banho
Qual rosa morena
Mais chá que laranja.

E salte o amarelo
Cinzento de ciúme
E envolta em seu chambre

Te leve castanha
Ao branco negrume
Do meu leito em chamas.

OS ACROBATAS ( Vinícius de Moraes )

 Subamos!

Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.

06/12/2025

ÚTERO ZARABATANA ( Gleice Ferreira )

 Por cinco dias

se fecha em si

dispara flechas

lança dardos

uiva de dor

é cruel

instintiva

engole o mundo

devora a fome

usa placebos

tem insônia

descama

tem náuseas

tonturas

alucinações

suores

a ferida é implícita

enquanto for fértil

todo mês

Será outra vez.

PRESA NÃO SOU RIO ( Lidiane Adjú Kariú )

 Não me queiram água mansa,

Porque água mansa não sou.

Eu sou correnteza,

E na correnteza eu vou.

Quebrando pedra,

Quebrando represa,

Quebrando tudo que me mantem presa.

Presa não sou rio,

Presa não sou.

 

Não me queiram espírito brando

Porque domesticada não sou.

Eu sou feita de selva

E a selva me ensinou.

A cantar o canto

A quebrar quebranto

A quebrar o encanto

Que me mantem presa.

Presa não sou tua,

Presa não sou.

TODAS AS SUAS IMAGENS ( Luciana Molina )

 Seria mais fácil se entendesse

todas as suas imagens

mas a imagem dos amantes estrangeiros

cada um alienígena na língua do outro

me enternece sobremaneira, e ainda mais.

Não é muito diferente do que passo

com o seu corpo

argonauta explorando não o mar

mas o negro do espaço

no momento em que a luz se apaga

e confiamos no tato

como um acrobata que se lança

para outros braços

e confia que o que lhe aguarda

não é a queda.

Quero confiar cegamente

como quem se venda

não é o mais prudente

mas o que mais me agrada.

E se me largas morro

mas se não me largo

morro ainda mais.

ANJO EXTERMINADO ( Jards Macalé & Wally Salomão )

 Quando você passa três

Quatro dias desaparecida
Eu me queimo num fogo louco de paixão
Ou você faz de mim alto relevo no seu coração
Ou não vou mais topar ficar deitado
Moço solitário, poeta benquisto
Até você tornar doente, cansada
Acabada das curtições otárias

Quando você passa três
Quatro dias desaparecida
Subo, desço, desço, subo escadas
Apago, acendo a luz do quarto
Fecho, abro janelas sobre a Guanabara
Já não penso mais em nada
Meu olhar vara, vasculha a madrugada

Anjo exterminado, olho o relógio iluminado
Anúncios luminosos, luzes da cidade, estrelas do céu
Me queimo num fogo louco de paixão
Anjo abatido, planejo lhe abandonar
Pois sei que você acaba sempre por tornar ao meu lar
Mesmo porque não tem outro lugar onde parar

05/12/2025

Por Célia Moura

 Há miosótis sorridentes

na menina dos teus olhos
e uma valsa de girassóis
sempre que fazes
tua boca
percorrer todo o meu corpo
e lentamente me desabotoas o vestido,
entrelaçando tuas mãos nas minhas.
Vou-me embriagando
no abismo e no deleite dos teus flancos,
afagando-te,
prendendo-te entre minhas pernas
onde desassossegadamente
numa cadência de corpos e instinto
te libertas na trilha do destino
que julgaras perdido
e nos braços do anoitecer
convocas a alcateia
que em ti habita.

04/12/2025

O CAVALEIRO E OS MOINHOS ( João Bosco / Aldir Blanc )

 Acreditar na existência dourada do sol

Mesmo que em plena boca
Nos bata o açoite contínuo da noite
Arrebentar a corrente que envolve o amanhã
Despertar as espadas
Varrer as esfinges das encruzilhadas
Todo esse tempo foi igual a dormir no navio
Sem fazer movimento
Mas tecendo o fio da água e do vento

Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro,
Malandramente, pelos caminhos
Meu companheiro tá armado até os dentes
Já não há mais moinhos como os de antigamente

TOM MAIOR ( Martinho da Vila )

 Está em você

O que o amor gerou
Ele vai nascer, e há de ser sem dor
Ah! Eu hei de ver
Você ninar e ele dormir
Hei de vê-lo andar
Falar, sorrir

Ah! Eu hei de ver
Você ninar e ele dormir
Fazê-lo andar
Falar, cantar, sorrir

E então quando ele crescer
Vai ter que ser homem de bem
Vou ensiná-lo a viver
Onde ninguém é de ninguém
Vai ter que amar a liberdade
Só vai cantar em Tom Maior
Vai ter a felicidade de
Ver um Brasil melhor

03/12/2025

DANIEL NA COVA DOS LEÕES (Renato Russo/Renato Rocha)

 Aquele gosto amargo do teu corpo

Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo, então salgado, ficou doce
Assim que o teu cheiro forte e lento

Fez casa nos meus braços
E ainda leve, forte, cego e tenso
Fez saber
Que ainda era muito e muito pouco

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante

E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção

Mas tão certo quanto o erro de ser barco a motor
E insistir em usar os remos
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

01/12/2025

4 ( Luíza Mendes Furia ) in Lições de Casa - Antologia "Nada Nos Resta Senão Cantar"

 A mulher que pendurou a toalha na janela

não sabe que aquilo é um poema
voando no compasso do vento e dos acordes da música
que o rádio espalha

Talvez ninguém tenha visto
o indescritível amarelo caiado
do prédio vizinho, cercado de azul:
pálidas tintas que compõem esta manhã.

No fundo deste bairro
quem ouve tanta luz?
Mesclada à picareta que desce às pedras
e a outros ruídos aparentemente banais

a mulher que pendurou a toalha
não sabe de mim nem ouve rádio.
Talvez nunca tenha imaginado
que sua toalha fosse uma asa enlouquecida.

XIV ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 As noites eram sempre verão.

Entre meu corpo e o teu
o sol se dilatava até explodir
em constelações — então
éramos Antares e Algedi
no escuro a cintilar.

Agora que o verão passou
nos vejo árvores do mesmo pomar
E fulgurantes frutas pendem
de nossos braços abertos
onde pássaros de açúcar vêm pousar.