17/12/2025

TU ÉS O MEU RELÓGIO DE VENTO ( Isabel Meyrelles, in O Rosto Deserto, 1966 )

 Tu já me arrumaste no armário dos restos

eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

ESPLANADA ( Manuel António Pina) poemas Encontros de Talábriga, 1999

 Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.

4:48 PSICOSE ( Sarah Kane ) tradução: Pedro Marques; Campo das Letras, 2001

 Estou triste

Sinto que não há esperança no futuro e que as coisas não podem melhorar
Estou farta e insatisfeita com tudo
Sou um fracasso completo como pessoa
Sou culpada, estou a ser castigada
Gostava de me matar
Sabia chorar mas agora estou para além das lágrimas
Perdi o interesse nas outras pessoas
Não consigo tomar decisões
Não consigo comer
Não consigo dormir
Não consigo pensar
Não consigo ultrapassar a minha solidão, o meu medo, o meu desgosto
Sou gorda
Não consigo escrever
Não consigo amar
O meu irmão a morrer, o meu amante a morrer, estou a matá-los aos dois
Invisto na direcção da minha morte
Estou aterrorizada com a medicação
Não consigo fazer amor
Não consigo foder
Não consigo estar sozinha
Não consigo estar com os outros
As minhas ancas são grandes de mais
Não gosto dos meus órgãos genitais
Às 4:48
quando o desespero me visitar
enforco-me
ao som da respiração do meu amante.

34 ( Maria Gabriela Ilansol )

 Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.

Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti  até que a dor alegre recomece.

202 ( Maria Gabriela Ilansol )

 É frequente sentar livros na cadeira, e eles

Se isolarem das outras espécies que povoam
O quarto. Começa aí a simbiose entre livros
E autores. Intuindo que a paisagem é o vigia
Que a cria, faz-lhes perguntas a que os
Livros dão resposta «Qual foi a tua problemática?»
Se sai com alguns, vai à procura da sua
Imagem-fonte, sem esquecer que todos eles
Se sentaram em bancos de jardim. Com os
Livros já fechados, começa a ler deixa
Que os autores se evadam por vontade própria,
Suas missivas distribuídas pelo quarto. Quando
Eu partir, como livro arrumado amorosamente
No seio do legente, espero que este por generosidade
Me deixa ir.

XV ( Maria Gabriela Ilansol )

 num desses momentos,

a objecto de beleza
sob o aspecto de uma abertura larga,
terá medo que o amor a desfeie e lhe roube o brilho que a en-
volve.
 
     Nesse momento, serei naturalmente implacável,
por ora, a única abertura visível é a porta da minha casa, la-
deada por duas lanternas.
     Dentro, e ao lado das nossas casas, estão várias casas,
 
abrigo que nos permitimos atingir quando sentimos fadiga.
Fadiga muito doce por não se querer sentir a fadiga cruel que
todo o vento brando, àquela hora, espalha pela clareira,
 
 
todos somos, de facto, incompletos a certas horas do dia, e
mostrei-lhe a Casa.

LV. EU SEI ( Maria Gabriela Ilansol )

Um piano pode crescer como uma criança? Pode, nos nossos ou-
vidos formados, ser esse instrumento de sussurro, como dom
também o urso se tornou minúsculo e o elefante se reduziu
à visão que eu tinha do marfim.       
 Se o desconhecido que havia de
entrar fosse órfão,
eu considerá-lo-ia mais livre do que só,
ou só era apenas a imagem do liberto.

ESPERO O DIA EM QUE POSSA DEIXAR CRESCER AS UNHAS ( Andreia C. Faria )

 Espero o dia em que possa

deixar crescer as unhas
as meias por cerzir
a boca
sem propósito de beijar.

O dia que misture à noite
uma respiração de espelhos,
um registro acidental, mortificado,
ou o livro que se leu na tarde até perder a luz.

Que a natureza avance em mim sem esperança de ressurgimento.
Afagarei um cão
sem medo de guardar mãos ásperas.

E em ti não pensarei. Entre nós uma opressão de mundos,
distâncias sem cura
(do autocarro para os subúrbios, do crente
relativamente a deus),
uma disciplina oposta ao prazer.

Espero o dia em que console e gaste o corpo
um rio sujo à minha porta,
a corrente escura dos teus ombros,
uma paisagem sem apelo
abrindo as mãos dentro de mim.

JARDIM DAS DELÍCIAS ( Ângela Santos )

 Convido-te

a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea, perfeitos amores

Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.

Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida

Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas

Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.

LUA PRATEADA ( Ângela Santos )

Lua

O BEIJO ( Ângela Santos )

 aberta,

16/12/2025

JOSÉ (Carlos Drummond de Andrade)

 E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

15/12/2025

A INICIADA ( Adélia Prado )

 A menina de coração sensível e desmedida fome

fica comendo a vida no quintal.
A flor do mamão-macho: ô cheiro!
O ovo no galinheiro: ô coisa!
Seu país verdadeiro são caminhos de chão,
sol e abelhas,
pai e mãe sem morrer,
um domingo sem fim.
A vida plausível
e os olhos do homem nela,
um susto novo.
E o coração batendo como um surdo.

COMENSAIS ( Adão Ventura )

 A minha pele negra

servida em fatias,
em luxuosas mesas de jacarandá,
a senhores de punhos rendados
há 500 anos.

EIS - ME (Sophia De Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto - Moraes Ed., 1962; Assírio & Alvim, 2014)

 Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

A SUICIDA ( Ruy Espinheira Filho, de A Cidade e os Sonhos -2003 )

 Quando atentou contra a vida

entristeceu a cidade.

Mais tolo e sério motivo:
um amor contrariado.

A comoção arrepiou
do comunista ao vigário.

Algumas vozes pesadas
arquitetaram vingança,

mas o caixeiro-viajante,
que jurara e perjurara,

já ia lépido e longe,
levando o sonho dos sonhos:

grinalda, véu, aliança,
padrinhos, padre, juiz

e marcha nupcial.
Pobre moça. Ainda bem

que o gesto tresloucado
não chegara a cumprir sua

sinistra finalidade,
embora tivesse havido

forte determinação
— tanto que ela bebera,

de uma só vez, todo um vidro
de tinta — para canetas —

Parker Quink. Felizmente,
de um azul claro, suave

e (o que por certo lhe
salvara a vida) lavável.

MEMÓRIA ( Ruy Espinheira Filho )

 Os seios adolescem

sob a blusa azul.
ao vento da tarde
doce de quintais.

À sombra, os cães
farejam as últimas
perdizes ocultas
no alto dos morros.

Na sala, o silêncio.
No silêncio, ele,
o menino, sonha
seios, cães, perdizes.

Sonha e é sonhado
ao fluir da história
que suave marulha
sempre sempre sempre

num país defeso
aquém/além do rosto
em que o tempo verte
seu lento vitríolo.

À TUA ESPERA ( Célia Moura, in "Terra De Lavra" )

Sê silêncio!

É urgente sentir de novo a deliciosa volúpia
desses teus lábios entreabertos
de menina
essa imagem inocente que me rasga as madrugadas
em sonhos ousadamente pérfidos
teu calor no meu pescoço
tua saliva dentro de mim
esse mosto de paixão
no ranger do soalho
tuas mãos inquietas
entre páginas e páginas rasgadas
flores estilhaçadas
sempre teu ventre aberto
acolhendo-me como um vagabundo!
Sê silêncio
meu amor de sempre,
minha mulher menina!
Vai, corre veloz como um rio em tempestade
até ao mar,
cigana dos olhos negros de breu
sempre vieste com as chuvas
amada
livre como um furacão
terna como uma noite de Verão.
Sê silêncio!
Tal como nos têm ensinado. Ancestrais.
Vai meu amor
neste tempo de ir
voa!
Para onde quer que o rio ou o vento te leve
estarei à tua espera.

NA LINHA DO MAR (Carlos Campos, in Nuvem Que Passa Devagar)(Col. A Água e a Sede; Modocromia, 2024)

Menina que corres na linha do mar

Que ideias, que poemas
Vais tu a imaginar?
Curvas os teus passos
na linha do mar
Abres os braços
e marcas os compassos
para a orquestra das ondas.
Sorriem as Giocondas,
Os reis e as rainhas
Cada vez que uma vaga
Atrai as andorinhas.
E a tua mente divaga
Em desejos sibilinos
Quando os voos das gaivotas
São os teus violinos.
E nessa corrida
Está toda uma vida
Entre fugir e regressar.
Corre, menina
Na linha do mar.
Teus passos dispersos
Com música e versos
Não são só beleza
São a certeza
Ainda que escondida
De que depois de sonhar
Há sempre vida
E nesse passeio
Está todo o enleio
da arte de amar.

14/12/2025

A TUA BOCA ( Manuela Alves )

 Beijo os teus dedos de sol e vento,

E fico dividida entre o sabor a sal
E o poema escrito nas linha da tua mão.
Beijo os teus lábios e a brisa para
Para segredar-me que o mar é doce,
Enquanto fecho o livro de búzios
E o poema na volúpia naufraga
 in Colectânea de Poesia Contemporânea da Beira Interior 2001-Kreamus, 2001.

OLORES (Cecília Vilas Boas )

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ADVINHAS - ME ( Daniela S. Pereira )

 Sussurro-te uma frase inacabada

E tu desvendas no meu olhar,
Todo o restante mistério.

Adivinhas-me,
Por entre os dedos que te tocam
E que te escrevem.

E te descrevem…

Adivinhas-me,
Como adivinhas a melodia
Dos fios do meu cabelo,
Soltos numa brisa suave ao teu olhar.

Adivinhas-me,
O arrepio na pele
Quando percorres com as pontas dos dedos,
Os lábios que te beijam em silêncio.

E num sopro de um só sentimento,
Aprendeste a amar(me)
Como ninguém.

12/12/2025

BIÓPSIA ( Helen Farish )

 Vou fugir com os meus seios

para Barcelona, as Canárias.
Têm afeição por essa vida de esplanada,
pescadores, vinho local.
Não deixo nem mais um pedaço no hospital.
Compreendo agora a massa,
como as células se aglutinaram
em crescente, qual lua jovem,
um barco polido de mar, uma rede.
Todos esses símbolos de desejo:
tivesse eu tomado conta
não teriam tomado forma.