19/12/2025

REALIDADE ( Florbela Espanca ) in Charneca em Flor, 1931

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci.

Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei, se te perdi.

AS PALAVRAS 3 ( Herberto Helder ) in Apresentação do Rosto, 1968

 Deslocações de ar, de palavras, partes do corpo, deslocações de sentido nas partes do corpo.

As ribeiras tremem na base das montanhas — geladas, de costas, as montanhas tremem sobre as águas deslocadas de repente.
Os animais apoiam-se no seu próprio sangue.
As flores apoiam-se na sua própria cor.
As idades apoiam-se na sua própria memória.
E o sono desloca-se da terra para o coração.
Vive-se com o coração a tremer como uma montanha sobre ribeiras de luz — e depois a treva desloca-se da idade para o coração como um lugar inteiro.
E um dia os animais passam junto aos lençóis estendidos, e a sua passagem queima a brancura exposta a todas as deslocações.
Então candeias e papoulas deslocam-se sobre imagens cheias de patas — e fechamos os olhos para a terrível dor da carne, respiramos mal, trememos apoiados no nosso próprio terror.
Deslocações de dedos em volta de umas ancas ferozes, mão atentamente aberta sobre uma vagina viva como uma boca nas virilhas, a flor do ânus, a flor do ânus — e depois a luz desloca-se de toda a parte para toda a parte.
O dia apoia-se no seu próprio movimento.
O peixe apoia-se na sua própria submersão.
O amor apoia-se no seu próprio êxtase.
E as vozes apoiam-se no seu próprio som.
Apenas as flores se apoiam no perfume veloz.
Apenas os corpos se apoiam nas flores que eles próprios são — atados como ramos de um cego e amargo e monstruoso e veloz perfume, como um perfume de corpos.
As ribeiras de luz respiram a prumo.
As ribeiras de treva respiram a prumo.
Vive-se a tremer com o pavor e a glória.
Vive-se de uma ponta à outra o extremo amor, o amor, e a solidão como um lugar inteiro.
Alguém respira onde é vivo — uma boca, um ânus, uma vagina viva.
Alguém ferve pela luz adiante até entrar nas trevas e ficar respirando nas trevas.
Um perfume de esperma.
Um perfume de salsa.
Um perfume de enxofre que estonteia.
Alguém se transforma numa coisa inominável.

AFRODITE FORMOSA (Herberto Helder)

 Esses peitos pequenos, cheios.

Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro.
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas.
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo.
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono.
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza.
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão
corpo.
Não és mística, não exacerbas, não
angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne.

CÓPULA ( Zé Ramalho )

 Não há muito o que falar

Desses limites e invasões
Da pele fina que eu vou tocar
Bem lá no ventre dessas seduções
O corpo todo faz o movimento
Multiplicando e virando tesões
E a força passa pelo sentimento
E incendeia aquelas paixões

A liberdade é ave voando
É o para-raio de todos cometas
A boca treme, vai balbuciando
Mordendo pontas de todas as tetas

Silenciando a alma agitada
E acalmando a voz que só geme
Faz a visão ficar desnudada
E abraçada saindo no sêmen

18/12/2025

Por Rosalía de Castro - Tradução de Henriqueta Lisboa. 2ª. ed. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1987.

 Aonde irei comigo? Onde me esconderei,

que já ninguém me veja e eu não veja ninguém?

 

A luz do dia assombra-me, pasma-me a das estrelas,

e os olhares dos homens na alma me penetram.

 

Pois o que guardo dentro em mim penso que ao rosto

me sai, como do mar ao fim um corpo morto

 

Houvesse, e que saísse!...; mas não, te levo dentro,

fantasma pavoroso dos meus remordimentos!

13 (Rosalía de Castro ) Tradução de Henriqueta Lisboa. 2ª. ed. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1987.

Sant´Antônio bendito,

daí-me um homem,

ainda que me mate,

ainda que m´esfole.

 

 

    Meu santo Sant´Antônio,

daí-me um hominho,

ainda que o tamanho tenha

d´um grão de milho.

Daí-mo, meu santo,

ainda que tenha os pés coxos,

tortos os braços.

 

    Uma mulher sem homem...,

santo bendito!,

é corpinho sem alma,

festa sem trigo,

pau viradouro

que onde quer que vá

quebra que quebra.

 

    Mas, tendo um hominho,

Virgem do Carmo!,

não há mundo que baste

pra alguém folgar.

Pois mesmo cambaio,

sempre é bom ter um homem

pra remediar.

 

    Eu sei dum que cobiça

causa em quem o mira,

esbeltinho de corpo,

vermelho e encarnado,

carninhas de manteiga,

e palavras tão doces

quão mentirosas.

 

    Por ele peno de dia,

de noite peno,

pensando nos seus olhos

cor de céu;

mas ele, já douto,

de namoricos entende,

de casar: pouco.

 

    Fazei, meu Sant´Antônio,

que pra junto de mim venha

para casar comigo,

moça solteira

que levo de dote

uma colher de ferro,

quatro de buxo,

 

    um irmãozinho novo

que já tem dentes,

uma vaquinha velha

que não dá leite...

Ai, meu santinho!:

fazei que tal suceda

qual vos peço.

 

    Sant´Antônio bendito,

daí-me um homem,

ainda que me mate,

ainda que m´esfole,

pois mesmo cambaio,

sempre é bom ter um homem

pra remediar.

17/12/2025

CAÇADA ( Ana Martins Marques )

 E o que é o amor

senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

DO EFÊMERO PRESENTE ( Elisa Lucinda )

 Às vezes passo um dia

e sinto que o perdi.
Um dia sem importâncias dentro dele,
sem fruto, sem feito,
metade avião, metade hotel.
Mas que mania é essa de querer
que o pobre do dia seja sempre cheio de tarefas?
Um dia escravinho, sofrendo na senzala calendário.
Ora essa, tem gente que dorme quase todos os dias o dia todo,
tem gente que passa o dia
sequestrado pela tela da televisão,
cama, sofá e dor nas costas.
Tem gente que nem nota,
tem quem vive só no computador,
toma remédio para nem sentir passar o dia,
e toma outro para que a noite seja uma hipnose,
já que é a sua vida uma overdose de desanimação.

Eu não.
Ao menos num dia assim,
dele não me despeço sem fazer, no mínimo,
esses mínimos versos.

PARA O MEU AMANTE VOLTANDO PARA A ESPOSA (Anne Sexton) Tradução: Adelaide Ivanova

Ela está bem aqui.

Ela foi cuidadosamente esculpida para você
saída de sua infância
saída dentre seus cem colegas de escola preferidos.

Ela sempre esteve aqui, meu bem.
Ela é de fato extraordinária.
Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro
e tão real como uma panela de ferro fundido.

Vamos ser sinceros, eu fui passageira.
Um artigo de luxo. Um veleiro vermelho-brilhante no cais.
Meu cabelo para fora da janela do carro, esvoaçante como fumaça.
Mariscos fora de época.

Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
ela semeou seu crescimento prático, tropical.
Ela não é uma experiência. Ela é toda harmonia.
Ela cuida para que no bote salva-vidas haja remos e ganchos,

coloca flores do campo na janela para o café-da-manhã,
ao meio-dia senta-se à roda do oleiro,
criou três filhos sob a lua,
três querubins desenhados por Michelangelo,

fez isso com as pernas abertas
nos terríveis meses na capela.
Se você olhar para cima, as crianças estão lá
como balões delicados que descansam no teto.

Ela também carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, suas cabeças inclinadas,
duas pernas protestando, íntimas, pessoa contra pessoa,
o rosto corado com uma canção e soninho.

Eu devolvo seu coração.
Eu dou meu consentimento –

para o detonador dentro dela, latejando
na lama com raiva, para a sua cadela interior
e o enterro das suas feridas –
para enterrar viva a ferida, pequena e vermelha –

para a pálida tremelicante labareda debaixo de suas costelas,
para o marinheiro bêbado que aguarda em seu pulso esquerdo,
para o joelho materno, para a meia,
para a cinta-liga, para a chamada –

a estranha chamada
você vai se esconder nos braços e nos seios
e puxar a fita cor de laranja do cabelo dela
e atender a chamada, a estranha chamada.

Ela é tão nua e única
Ela é a soma de você mesmo e o seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou uma aquarela.
Eu evaporo.

CAFÉ NOTRE DAME ( Lawrence Ferlinghetti ) Tradução: André Lima e Isabelle Lima

 Uma espécie de trauma sexual

prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metrô
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão

ESCULTURA ( Luli Heloisa Orosco )

 Na estrada de tuas curvas vou

Plasmando em teu corpo a medida exata do amor
A estrada bem cedo me levou
Prazeres e dores forjaram o que hoje eu sou

Nas linhas da mão pelas curvas. a faca procura a beleza no traço
Madeira virando escultura na ponta do aço
Na forma escavada a leveza, no passo a certeza, a inteireza no espaço
As curvas da estrada que levam para o teu abraço

Mão que lava a outra, que planta o futurio no chão
Mão, flor de carne, com poder de vida e morte
Faz o corte, tira a sorte, conjura o condão
Que bate palmas e toca sanfona, consola na viola, repica o carrilhão
Mão que desbrava, que escava, abre as portas do meu coração

AVE DE PRATA ( Zé Ramalho )

 É muito mais do que muito

Muito mais do que quantos anos todos piorei
É muito mais do que mata
Muito mais do que morrem todos pela planta do pé
É muito mais do que fera
Mais do que bicho quando quer procriar
Uma espécie, sementes da água, mistérios da luz

É muito mais do que antes
Mais do que vinte anos multiplicar
Dividir a mentira entre cabelos, olhos e furacões
Inventar objetos pela esfinge quando era mulher
Ave de prata
Veneno de fogo
Vaga-lume do mar

O mar que se acaba na areia
Gemidos da terra apoiados no chão
Entre todos que usam os dentes do arpão
Apoiados em cada parede pela mão
Pela mão que criou tantas trevas e luz

E cada coisa perdida
Perdidamente pode se apaixonar
Pela última vida
Poucos amigos hão de te procurar
Como é o silêncio?
E nesse momento tudo deve calar numa história
Que venha do povo o juízo final

O JARDIM ( Cecília Meireles)

 O jardim é verde, encarnado e amarelo.

Nas alamedas de cimento,
movem-se os arabescos do sol
que a folhagem recorta
e o vento abana.

A luz revela orvalhos no fundo das flores,
nas asas tênues das borboletas,
-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,
perdida nas sombras,
submersas nos limos.

Ensina a cintilar também
os insetos mínimos,
-alada areia dos ares, que se eleva
até a ponta dos ciprestes vagarosos.

Pássaros que jorram das altas árvores
caem na relva como pedras frouxas.
As borboletas douradas e as brancas
palpitam com asas de pétala,
entre água e flores.
E as cigarras agarradas aos troncos
ensaiam na sombra suas resinas sonoras.

Essa é a glória do jardim
com roxos queixumes de rolas,
pios súbitos, gorjeios melancólicos,
voos de silêncio,
música de chuva e vento
débil queda de folhas secas,
murmúrio de gota de água
na umidade verde dos tanques.

Quando um vulto humano se arrisca,
fogem os pássaros e borboletas;
e a flor que se abre, e a folha morta,
esperam, igualmente transidas,
que nas areias do caminho
se perca o vestígio de sua passagem.

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS? ( Cecília Meireles )

 De que são feitos os dias?

– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças

A PEDRA (Stein Mehren ) tradução: Ana Cristina de Aguiar

 Eu acumulei tanto tempo

em cada grama de matéria, diz a pedra
que milhões de anos são um
mero piscar de olhos em mim

Eu conheço a dor do mundo
continua a pedra. O peso que é necessário
carregar. Peso que é o sofrimento do mundo
em espaços banhados de luz

Se ficares totalmente calado
poderás ouvir os gritos de luz
tragados para dentro de seus buracos negros
em mim e dentro de mim, diz a pedra

VAMOS ( Ellen Bass ) in Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014. Trad.: Nelson Santander

Vamos tirar nossas roupas e nos divertir.

Podemos rolar
como cães sem coleira na Lighthouse Beach. Vamos explorar
os corpos uma da outra
como uma liquidação de quatro de julho, revolvendo a orgia
de tweed e sarja, seda e lantejoulas rodopiando em turbilhões.
Buda diz para não discutir a não ser que seja necessário.
Vamos abrir as ostras,
banha-las com Martini seco,
a mesa repleta de conchas peroladas. Podemos encher
a banheira e fingir que estamos contemplando
o pôr do sol sobre a Tomales Bay. Seus seios
são lanternas cintilando sobre as águas.
Seu quadris são ainda as colinas douradas da Califórnia.
Esta manhã, abri um e-mail do Texas
que dizia que eu vou para o inferno e que você não me ama de verdade,
mas se eu me arrepender, embora escarlates sejam os meus pecados,
eles se tornarão brancos como a neve.
Meu bem, é bom saber que temos opções,
mas por enquanto vamos buscar os chihuahuas trigêmeos
e carrega-los em bolsas de couro envernizado.
Tire seu violão de baixo da cama
e cante “Rose of My Heart” outra vez.
Vou caçar na garagem os meus zills e o top bordado com moedas
e fazer a dança do ventre no corredor estreito.
Não vamos pensar em nossas crianças, a quilômetros de distância,
fazendo coisas que preferimos não saber.
Já não esculpimos estátuas suficientes?
Lembra-se da campina que arrendei pra você?
Você a queria ensolarada e cercada de árvores.
Paguei cem dólares àquela velha
para que você pudesse se deitar sob a marquise azul do céu.
Quanto mais tempo ficamos juntas, menos eu posso lhe dizer.
Mas este não foi um longo dia?
Lamenta a presidenta da Angústia Infinita
ter concorrido ao cargo. Ela imaginou
que seria como aqueles anjos musculosos
que te colocam nas banheiras de lama quente em Calistoga.
Mas macacos estão sendo empanturrados com manteiga de amendoim
para que a ciência possa provar que a gordura engorda,
e os trabalhadores que cultivam rosas no Equador
são envenenados para que possamos afirmar tal verdade com flores.
Amanhã escreveremos cartas. Vamos nos esforçar mais.
Vamos baixar o termostato e a bicicleta para trabalhar
e você agitará sacolas plásticas em uma pia de água com sabão
onde elas flutuam como as medusas com as quais são confundidas.
Mas hoje à noite, vamos trazer Bessie de volta para um bis.
Você não quer um pouco de açúcar
em sua bela tigela?
Vamos fazer um pouco de chuva, vamos inventar a pele,
dê-me suas gostosas, gloriosas e generosas coxas.
O fantasma de minha mãe está no porão lavando roupa,
oferecendo às peças úmidas aquela sacudida extra.
Ela não ficaria feliz
em nos ouvir resfolegar e relinchar?
Ela não ficaria feliz em saber que
a morte esta noite está pastando em outro lugar?
Vou polvilhar suas pálpebras com canela
e trançar essas velhas penas em seu cabelo.
A manhã nos surpreenderá dormindo no telhado,
nossos rostos inexpressivos como um novo dia, só o rouxinol
na palmeira esfarrapada do vizinho
assobiando uma melodia que soa um pouco como um raga persa,
aquela cítara vibrante, levantando o sol.

90 (Herberto Helder, "A Faca Não Corta O Fogo - Súmula & Inédita", Assírio & Alvim, 2008)

 Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.
Imagem: O julgamento de Páris,  de Gérard de Lairesse.