23/12/2025

AMOIN ARUKÁ (Alexandre Marino) in Terra Sangria, Editora Penalux - 2022

 Está bem morto

o guerreiro Amoin Aruká
último homem do povo Juma
último dos sete sobreviventes
do massacre do Rio Assuã

Comerciantes de Tapauá
reuniram suas forças armadas
que atiraram nos Juma como se fossem macacos:
sessenta índios mortos
e as castanheiras do território estão salvas

Amoin Aruká
ainda se lembrava das almas decapitadas
espalhadas na floresta
corpos dos índios devorados por porcos-do-mato
em mil novecentos e sessenta e quatro

Amoin Aruká
era ele e mais quatro em dois mil e dois
dos quinze mil índios Juma
do início do século vinte

Amoin Aruká
foi exterminado aos poucos
oitenta ou noventa anos vividos e sobrevividos

Mas agora Amoin Aruká está bem morto
o último guerreiro do povo Juma.
Foto:Juma Xipaia primeira mulher a se tornar cacique no Médio Xingu

A CIDADE NO CORPO (Donizete Galvão) in Pelo Corpo (2002)

 A cidade perfura

o corpo
até a medula.
Contamina os ossos
com seus crimes.
Bica o fígado,
pesa sobre os rins.
Imprime seu labirinto de cinzas
na árvore dos pulmões
A cidade finca raízes
no espaço das clavículas.
Esta cidade: minha cela.
Habita em mim
sem que eu habite nela.

RÉQUIEM DO PEQUENO ( Herbert Vianna )

 Te falta o gesto largo, a ébria poesia

Te sobra a pequeneza, as pequenas certezas
Como Agenor dizia
A vida não te intoxica enquanto contas trocados
Não vês o anzol e a linha da vida que passa ao teu lado
Te falta subir ao mais alto, te falta descer ao mais baixo
Te sobra a maldita prudência, alegrias compradas a prazo
Ao invés de viver, sobrevives, sacrificas o essencial
Não choras de dor em finados, não gritas de amor carnaval
Cometes então, que surpresa! O sacrilégio final
Não vês a fugaz e humana beleza e sonhas em ser imortal

22/12/2025

CALAFRIO ( Francisco Carvalho ) in As Verdes Léguas (1979)

 O amor

é um calafrio
que nos percorre
o corpo
e deságua
na foz
de um secreto rio.

IN MEMORIAM ( Eugénio de Andrade ) in Ofício de Paciência (1994)

 Esses mortos difíceis

que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
de fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

A POESIA NÃO VAI ( Eugénio de Andrade ) in O Sal da Língua (1995)

 A poesia não vai à missa,

não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

CUIDADO ( Carlos Drummond de Andrade )

 A porta cerrada

não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.

Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

CANÇÃO AMIGA ( Carlos Drummond de Andrade )

 Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

20/12/2025

PEQUENO POEMA ( Sebastião da Gama )

 Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais.
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém.

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.

QUADRILHA ( Carlos Drummond de Andrade )

 João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

AMOR ( João Ricardo & João Apolinário )

 Leve

Como leve pluma, muito leve, leve pousa
Muito leve, leve pousa

Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma

Sombra
Silêncio ou espuma
Nuvem azul que arrefece

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Que em mim amadurece

AMÁLGAMA ( Zé Ramalho )

 És a fonte maior do meu desejo

És a única fortaleza mansa
És o algo misterioso vento
Cataventos que rodam no sertão
És o amálgama da minha couraça
Ventanias que passam no grotão
És a música fina da madeira
Mesmo o cão de cabeças a puxar

És a última gota do orvalho
Do compasso que morde a esperança
És a lâmina quente da madeira
Lavadeiras que lavam o sertão
És a lança no meio do canteiro
Companheiros de tudo o que cantou
És a lã do camelo e do carneiro
Desde a dor do começo do pomar

JARDIM DAS ACÁCIAS ( Zé Ramalho )

 Nada vejo por esta cidade

Que não passe de um lugar comum
Mas o solo é de fertilidade
No jardim dos animais em jejum

Esperando alvorecer de novo
Esperando anoitecer pra ver
A clareza da oitava estrela
Esperando a madrugada vir

E eu não posso com a mão retê-la
E eu não passo de um rapaz comum
Como e corro, trafego na rua
Fui graveto no bico do anum

Vez em quando sou dragão da lua
Momentâneo alienígena
A formiga em viva carne crua
Perecendo e naufragando o mar
Naufragando no mar

A papoula na terra do fogo
Sanguessuga sedenta de calor
Desemboco o canto nesse jogo
Como a cobra se contorce de dor

Renegando a honra da família
Venerando todo ser criador
No avesso de um espelho claro
No chicote da barriga do boi

No mugido de uma vaca mansa
Foragido como judas em paz
A pessoa que você mais ama
No planeta vendo o mundo girar

MORTE DE UMA ESTAÇÃO ( Antonia Pozzi ) Tradução: Inês Dias

 Choveu toda a noite

sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantamos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida –

e refletiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.

CANTO DA MINHA NUDEZ ( Antonia Pozzi ) Tradução: Inês Dias

 Olha para mim: estou nua. Da inquieta

languidez da minha cabeleira
até à tensão fina do meu pé,
sou toda de uma magreza amarga
envolta numa cor de marfim.
Olha: como é pálida a minha carne.
Dir-se-ia que o sangue não a percorre.
O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida
pulsação azul se esbate no meio do peito.
Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta
é a curva das ancas, mas os joelhos
e os tornozelos e todas as articulações
são escanzelados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e deitar-me-ei nua
amanhã sobre um leito, se alguém
me quiser. E um dia nua, só,
estendida de costas sob demasiada terra,
hei-de estar, quando a morte me tiver chamado.

PERGUNTA ( Talita Galindo )

 quando você chegou

amor eu já estava cansada
quem sabe a culpa seja do síndico
das ligações do itaú
da colonização portuguesa
ou da colonização espanhola
de walt disney e dos sete anões
ou ainda da resposta que me deste
quando perguntei
quem é que lava suas roupas
quem é que faz sua comida

A DANÇA DAS CHUVAS ( Célia Moura )

 Sejam bem-vindas todas as chuvas

que clamo
e me inundem a alma em chamas
fazendo renascer vida onde tudo tem sido noite e pranto.
Pois que da terra queimada se erga
tal soberana fénix!
Professo meu amor que parto,
e me embalarás em teus braços
enquanto eu vou e venho serena quanto uma flor
em teu corpo.
Cadência infinita deste amor tão nupcial !
Não me acordes deste sonho,
em que vou chapinhando, indo e vindo como as aves
ao som de um clarinete
com véu e grinalda,
numa dança feita de mim
e das chuvas
que sempre aliviam este corpo feito deserto
em mais um fado que não canto
porque me calas a boca de beijos!

18. ( Carol Mondin )

 Prazer e fúria.

Você dentro de mim.

Nós dois contra o mundo.

Por Carol Mondin

 “Distraídos venceremos”, já diria Leminski.

Distraidamente, fomos poesia

Nos perdemos em saraus

Aconchegamos na prosa

amanhecemos histórias


Distraidamente, fomos água

Em nascente do peito

escoando pelos olhos

Desaguando no mar

adoçando a alma


Distraidamente, fomos pedra

tropeçando entre afetos e chamegos

um pé no que era, outro no que será

mãos ancestrais de escrever e iluminar


Distraidamente, fomos CASA

compartilhando risos e café

pasta dental e fissuras profundas

Lar presente de ser e estar


Distraidamente, fomos abraço

saudade desmedida e barulhenta

pele quente em noite gelada

Anjos escrevedores que nos relembram como voar

e pousar


Distraidamente, fomos sonhos

materializando um grande delírio literário

entre nossos mestres e palavras

entregamos nossos livros ao mundo


Por ti, Leminski, por nós que estamos, pelos que estiveram e pelos que vem ai, vencemos!

PLANO NUTRICIONAL ( Carol Mondin )

 Coma pessoas gostosas

de alma leve e riso frouxo

de coração amoroso e alma gentil

dessas que festejam o brilho alheio

e reconhecem poesia no bom dia

 

Devora essa gente

que molha e dá água na boca

de ouvir cantar

que é barulho e alegria

farol pra travessia

Esticam as mãos pro infinito só pra não desentrelaçar os dedos quando em queda livre

 

Mastiga com fome o desejo da pele

Besunta de amor

Descansa a prosa

Chupa, lambe, prova

Gosta, morde, desgosta

Saboreia o sexo

Se farta no gozo

 

Come. Come mais.

Na sobremesa, tem bis.

19/12/2025

DESEJOS VÃOS ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas, 1919

 Eu q’ria ser o mar d’altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu q’ria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu q’ria ser o sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu q’ria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza.
As Árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras essas pisa-as toda a gente!

ÓDIO? ( Florbela Espanca ) in Livro de Soror Saudade, 1923

 À Aurora   Aboim

Ódio por Ele? Não. Se o amei tanto,

Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não não vale a pena.

REALIDADE ( Florbela Espanca ) in Charneca em Flor, 1931

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci.

Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei, se te perdi.

AS PALAVRAS 3 ( Herberto Helder ) in Apresentação do Rosto, 1968

 Deslocações de ar, de palavras, partes do corpo, deslocações de sentido nas partes do corpo.

As ribeiras tremem na base das montanhas — geladas, de costas, as montanhas tremem sobre as águas deslocadas de repente.
Os animais apoiam-se no seu próprio sangue.
As flores apoiam-se na sua própria cor.
As idades apoiam-se na sua própria memória.
E o sono desloca-se da terra para o coração.
Vive-se com o coração a tremer como uma montanha sobre ribeiras de luz — e depois a treva desloca-se da idade para o coração como um lugar inteiro.
E um dia os animais passam junto aos lençóis estendidos, e a sua passagem queima a brancura exposta a todas as deslocações.
Então candeias e papoulas deslocam-se sobre imagens cheias de patas — e fechamos os olhos para a terrível dor da carne, respiramos mal, trememos apoiados no nosso próprio terror.
Deslocações de dedos em volta de umas ancas ferozes, mão atentamente aberta sobre uma vagina viva como uma boca nas virilhas, a flor do ânus, a flor do ânus — e depois a luz desloca-se de toda a parte para toda a parte.
O dia apoia-se no seu próprio movimento.
O peixe apoia-se na sua própria submersão.
O amor apoia-se no seu próprio êxtase.
E as vozes apoiam-se no seu próprio som.
Apenas as flores se apoiam no perfume veloz.
Apenas os corpos se apoiam nas flores que eles próprios são — atados como ramos de um cego e amargo e monstruoso e veloz perfume, como um perfume de corpos.
As ribeiras de luz respiram a prumo.
As ribeiras de treva respiram a prumo.
Vive-se a tremer com o pavor e a glória.
Vive-se de uma ponta à outra o extremo amor, o amor, e a solidão como um lugar inteiro.
Alguém respira onde é vivo — uma boca, um ânus, uma vagina viva.
Alguém ferve pela luz adiante até entrar nas trevas e ficar respirando nas trevas.
Um perfume de esperma.
Um perfume de salsa.
Um perfume de enxofre que estonteia.
Alguém se transforma numa coisa inominável.

AFRODITE FORMOSA (Herberto Helder)

 Esses peitos pequenos, cheios.

Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro.
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas.
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo.
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono.
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza.
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão
corpo.
Não és mística, não exacerbas, não
angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne.