23/12/2025

MÚSICA, MÚSICA ( Abel Silva & Sueli Costa )

 Música, Música

Companheira do quarto dos rapazes
Entre revistas e fumaça
Confidente do quarto das meninas
Entre calcinhas e sandálias
Música, música

Farol na cerração dos grandes medos
A força que levanta os bailarinos
Elétrica guitarra entre os dedos
Aflitos e quentes dos meninos
Música, música

Irmã, imã, irmã
Feroz como a ira do Irã
Ou mansa como o último carinho
Quando já chega a manhã
Música, Música

XVI ( Gilberto Nable) in O Mago sem Pombos (2008)

 Para Renata Pallottini

Percebo que não valeu a pena.

Foi apenas um tempo perdido.
Por que descobrimos, só depois,
o que antes parecia tão certo?

Atrás de ti fecharam-se as portas,
e abrem-se os turvos rios da memória:
escombros, gestos, palavras, mitos,
corredores de escuridão e assombros.

Entre eles volteias, o impróprio,
vindo de onde, dono sei lá de quê,
armado até os dentes de imposturas,
e sobre tua cabeça — o século.

Este século que muito desanima,
e te faz recolher, falto de estima,
a velhos bordéis e prostíbulos,
povoados duma fingida alegria.

Ali, onde os garçons são sérios,
e te servem o vinho pressurosos,
cheios de vênias e guardanapos.
Ali, onde remendas teu coração.

MAIO ( Donizete Galvão ) O Antipássaro, editora Martelo, Goiânia - 2018

 o ipê

entregou
   suas folhas
ao vento

despido
   explodiu
   em cachos
      púrpura

sob a larga
     copa
     ― abóbada de cores e galhos ―
um homem
encontra abrigo
   nesse manto de roxo e azul

por um instante
      ― olhos voltados para o alto ―
estar vivo
   não lhe traz nenhum sobressalto

NEGRO AMOR ( Bob Dylan ) versão: Caetano Veloso & Péricles Cavalcanti

 Vá, se mande, junte tudo que você puder levar

Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor

A estrada é pra você, e o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice no seu lençol
Sob os seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando fora
Levando os cobertores, e agora?
Até o tapete, sem você, voou
E não tem mais nada, negro amor

As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor

AMOIN ARUKÁ (Alexandre Marino) in Terra Sangria, Editora Penalux - 2022

 Está bem morto

o guerreiro Amoin Aruká
último homem do povo Juma
último dos sete sobreviventes
do massacre do Rio Assuã

Comerciantes de Tapauá
reuniram suas forças armadas
que atiraram nos Juma como se fossem macacos:
sessenta índios mortos
e as castanheiras do território estão salvas

Amoin Aruká
ainda se lembrava das almas decapitadas
espalhadas na floresta
corpos dos índios devorados por porcos-do-mato
em mil novecentos e sessenta e quatro

Amoin Aruká
era ele e mais quatro em dois mil e dois
dos quinze mil índios Juma
do início do século vinte

Amoin Aruká
foi exterminado aos poucos
oitenta ou noventa anos vividos e sobrevividos

Mas agora Amoin Aruká está bem morto
o último guerreiro do povo Juma.
Foto:Juma Xipaia primeira mulher a se tornar cacique no Médio Xingu

A CIDADE NO CORPO (Donizete Galvão) in Pelo Corpo (2002)

 A cidade perfura

o corpo
até a medula.
Contamina os ossos
com seus crimes.
Bica o fígado,
pesa sobre os rins.
Imprime seu labirinto de cinzas
na árvore dos pulmões
A cidade finca raízes
no espaço das clavículas.
Esta cidade: minha cela.
Habita em mim
sem que eu habite nela.

RÉQUIEM DO PEQUENO ( Herbert Vianna )

 Te falta o gesto largo, a ébria poesia

Te sobra a pequeneza, as pequenas certezas
Como Agenor dizia
A vida não te intoxica enquanto contas trocados
Não vês o anzol e a linha da vida que passa ao teu lado
Te falta subir ao mais alto, te falta descer ao mais baixo
Te sobra a maldita prudência, alegrias compradas a prazo
Ao invés de viver, sobrevives, sacrificas o essencial
Não choras de dor em finados, não gritas de amor carnaval
Cometes então, que surpresa! O sacrilégio final
Não vês a fugaz e humana beleza e sonhas em ser imortal

22/12/2025

CALAFRIO ( Francisco Carvalho ) in As Verdes Léguas (1979)

 O amor

é um calafrio
que nos percorre
o corpo
e deságua
na foz
de um secreto rio.

IN MEMORIAM ( Eugénio de Andrade ) in Ofício de Paciência (1994)

 Esses mortos difíceis

que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
de fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

A POESIA NÃO VAI ( Eugénio de Andrade ) in O Sal da Língua (1995)

 A poesia não vai à missa,

não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

CUIDADO ( Carlos Drummond de Andrade )

 A porta cerrada

não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.

Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

CANÇÃO AMIGA ( Carlos Drummond de Andrade )

 Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

20/12/2025

PEQUENO POEMA ( Sebastião da Gama )

 Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais.
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém.

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.

QUADRILHA ( Carlos Drummond de Andrade )

 João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

AMOR ( João Ricardo & João Apolinário )

 Leve

Como leve pluma, muito leve, leve pousa
Muito leve, leve pousa

Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma

Sombra
Silêncio ou espuma
Nuvem azul que arrefece

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Que em mim amadurece

AMÁLGAMA ( Zé Ramalho )

 És a fonte maior do meu desejo

És a única fortaleza mansa
És o algo misterioso vento
Cataventos que rodam no sertão
És o amálgama da minha couraça
Ventanias que passam no grotão
És a música fina da madeira
Mesmo o cão de cabeças a puxar

És a última gota do orvalho
Do compasso que morde a esperança
És a lâmina quente da madeira
Lavadeiras que lavam o sertão
És a lança no meio do canteiro
Companheiros de tudo o que cantou
És a lã do camelo e do carneiro
Desde a dor do começo do pomar

JARDIM DAS ACÁCIAS ( Zé Ramalho )

 Nada vejo por esta cidade

Que não passe de um lugar comum
Mas o solo é de fertilidade
No jardim dos animais em jejum

Esperando alvorecer de novo
Esperando anoitecer pra ver
A clareza da oitava estrela
Esperando a madrugada vir

E eu não posso com a mão retê-la
E eu não passo de um rapaz comum
Como e corro, trafego na rua
Fui graveto no bico do anum

Vez em quando sou dragão da lua
Momentâneo alienígena
A formiga em viva carne crua
Perecendo e naufragando o mar
Naufragando no mar

A papoula na terra do fogo
Sanguessuga sedenta de calor
Desemboco o canto nesse jogo
Como a cobra se contorce de dor

Renegando a honra da família
Venerando todo ser criador
No avesso de um espelho claro
No chicote da barriga do boi

No mugido de uma vaca mansa
Foragido como judas em paz
A pessoa que você mais ama
No planeta vendo o mundo girar

MORTE DE UMA ESTAÇÃO ( Antonia Pozzi ) Tradução: Inês Dias

 Choveu toda a noite

sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantamos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida –

e refletiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.

CANTO DA MINHA NUDEZ ( Antonia Pozzi ) Tradução: Inês Dias

 Olha para mim: estou nua. Da inquieta

languidez da minha cabeleira
até à tensão fina do meu pé,
sou toda de uma magreza amarga
envolta numa cor de marfim.
Olha: como é pálida a minha carne.
Dir-se-ia que o sangue não a percorre.
O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida
pulsação azul se esbate no meio do peito.
Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta
é a curva das ancas, mas os joelhos
e os tornozelos e todas as articulações
são escanzelados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e deitar-me-ei nua
amanhã sobre um leito, se alguém
me quiser. E um dia nua, só,
estendida de costas sob demasiada terra,
hei-de estar, quando a morte me tiver chamado.

PERGUNTA ( Talita Galindo )

 quando você chegou

amor eu já estava cansada
quem sabe a culpa seja do síndico
das ligações do itaú
da colonização portuguesa
ou da colonização espanhola
de walt disney e dos sete anões
ou ainda da resposta que me deste
quando perguntei
quem é que lava suas roupas
quem é que faz sua comida

A DANÇA DAS CHUVAS ( Célia Moura )

 Sejam bem-vindas todas as chuvas

que clamo
e me inundem a alma em chamas
fazendo renascer vida onde tudo tem sido noite e pranto.
Pois que da terra queimada se erga
tal soberana fénix!
Professo meu amor que parto,
e me embalarás em teus braços
enquanto eu vou e venho serena quanto uma flor
em teu corpo.
Cadência infinita deste amor tão nupcial !
Não me acordes deste sonho,
em que vou chapinhando, indo e vindo como as aves
ao som de um clarinete
com véu e grinalda,
numa dança feita de mim
e das chuvas
que sempre aliviam este corpo feito deserto
em mais um fado que não canto
porque me calas a boca de beijos!

18. ( Carol Mondin )

 Prazer e fúria.

Você dentro de mim.

Nós dois contra o mundo.

Por Carol Mondin

 “Distraídos venceremos”, já diria Leminski.

Distraidamente, fomos poesia

Nos perdemos em saraus

Aconchegamos na prosa

amanhecemos histórias


Distraidamente, fomos água

Em nascente do peito

escoando pelos olhos

Desaguando no mar

adoçando a alma


Distraidamente, fomos pedra

tropeçando entre afetos e chamegos

um pé no que era, outro no que será

mãos ancestrais de escrever e iluminar


Distraidamente, fomos CASA

compartilhando risos e café

pasta dental e fissuras profundas

Lar presente de ser e estar


Distraidamente, fomos abraço

saudade desmedida e barulhenta

pele quente em noite gelada

Anjos escrevedores que nos relembram como voar

e pousar


Distraidamente, fomos sonhos

materializando um grande delírio literário

entre nossos mestres e palavras

entregamos nossos livros ao mundo


Por ti, Leminski, por nós que estamos, pelos que estiveram e pelos que vem ai, vencemos!

PLANO NUTRICIONAL ( Carol Mondin )

 Coma pessoas gostosas

de alma leve e riso frouxo

de coração amoroso e alma gentil

dessas que festejam o brilho alheio

e reconhecem poesia no bom dia

 

Devora essa gente

que molha e dá água na boca

de ouvir cantar

que é barulho e alegria

farol pra travessia

Esticam as mãos pro infinito só pra não desentrelaçar os dedos quando em queda livre

 

Mastiga com fome o desejo da pele

Besunta de amor

Descansa a prosa

Chupa, lambe, prova

Gosta, morde, desgosta

Saboreia o sexo

Se farta no gozo

 

Come. Come mais.

Na sobremesa, tem bis.

19/12/2025

DESEJOS VÃOS ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas, 1919

 Eu q’ria ser o mar d’altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu q’ria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu q’ria ser o sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu q’ria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza.
As Árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras essas pisa-as toda a gente!

ÓDIO? ( Florbela Espanca ) in Livro de Soror Saudade, 1923

 À Aurora   Aboim

Ódio por Ele? Não. Se o amei tanto,

Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não não vale a pena.