03/01/2026

EVA ( Erlândia Ribeiro ) in Vermelho/Ruína; Urutau, 2021).

 repete a dose

infame
morre em mim
mais uma vez
eu não nasço
e nem morro
mediando o processo
encontro
traumas perdidos
orgulho ferido
e mexo
numa parte profunda
que ainda desconheço

malícia e desejo
dois significados
dois pesos involuntários
nas minhas costas
de Eva
descobrindo
o paraíso.

PANGEIA ( Letícia Sodré ) in "Ré" ; Urutau, 2020.

 o cheiro úmido verde

crepitante da terra
ocupou meus vãos

virei argila
fresca maleável macia

tão inteira que
sem pele sem borda

tão fértil que
de mim tudo brota

Big Bang
pré colisão

GEOGRAFIA DOS SABORES ( Letícia Sodré ) in "Ré" ; Urutau, 2020.

 a vida se aprende

antes pela língua

na ponta
o doce
delicado e pujante
o mamilo e o leite

língua adentro
o salgado
a gana por
tirar os véus

mais a fundo
a acidez
perceber que nem
sempre, nem tudo

no fim
o amargo
a morte
o não

e lá no côncavo
onde fica a saliva
e o que faz salivar
umami

NUM QUANDO (Ana Rüsche) in Sarabanda. São Paulo: Editora Patuá, 2013.

 a cirurgia foi um after hours, mas estou

acostumada a ir dormir tarde
acho que os médicos também, tão animados
fui sim até o centro cirúrgico bem acordada e
fiquei acordada, sinto a hack entrando
entrando
ainda ao longe, bem corajosinha, uma conversa
sobre qualquer coisa, luzes nos olhos
para que me sinta bem iluminada, bem disposta
de súbito lembro que não fiz depilação, e isso me
envergonha mortalmente
seria tudo filmado e colocado no youtube da
faculdade de medicina, ririam de mim
mas tenho de explicar – foi de urgência a
cirurgia, não houve tempo
nunca há tempo para nada nessas terras, apenas
para ficar ali, suspensa
e, afinal, não tenho namorado, foi uma urgência,
acontece

no início me estacionaram com o carro-maca ao
lado de um cara paciente também
podíamos até começar ali um romance,
lembro de ter desejado ao final “boa sorte, moça”
e isso acabou já com tudo, que bobo
ele morria de medo, ia retirar uma pedra do rim e
não se rendia a dormir
eu logo disse, ah, comigo também pensaram que
era cálculo renal, pela dor,
mas  depois viram que era uma laranja na
barriga que eu tinha
de súbito lembro que removeram o cara paciente
com seu carro-maca e com seu medo
e fiquei pensando num poema do zukofsky, sobre
uma laranja e o sol e a letra a
e estava já chorando, desesperada por estar sozinha
e confundindo os poemas, estar tão sozinha,
e a dor, bem, isso é com as mulheres

O POEMA BRANCO (Ana Rüsche) in Sarabanda. São Paulo: Editora Patuá, 2013.

 e ela montada

no topo da bicicleta ergométrica
uma caixinha de música
laqueada como gelo
a rodar, a esperar
a agulha hipodérmica de endorfina
para capar seu coração.

um romance raso.
eu queria ser um esquimó
mas entre uma faísca e outra,
o frio da estroboscópica,
a solidão me dá picadas
uma cocaína negra com mel
que me anima.

minhas mortes são semanais.
em lençóis alugados por pernoite
no degelo de teus cabelos negros
de latin lover

e como você faz a tantas donzelas
teus dedos apalpam
minha pequena morte úmida
e lhe aplicam um
grito seco na canção de rádio pela tarde
olhos pretos cheios de branco

mas agora é escuro
pela pia de mármore duro
ela derrama a borra de café
que se transforma em terra
e embala os natimortos de nossos sonhos

um romance raso.
e ela entediada roía unhas
na internet os esquimós
seus pés assustadoramente descalços.

PRIMEIRO CÍRCULO – 240 SEGUNDOS (Maria Giulia Pinheiro) in “Alteridade”, Selo do Burro

Escalo até o topo de um monte de terra.

Vejo um homem de terno entrar. Paro.
Ele caminha um círculo ao meu redor.
Chove em mim.

Silêncio de vagar em ziguezagues concretos,
em meios-fios imaginários,
entre sons.
Como se boa parte do meu corpo fosse uma
biópsia

Dor ante.
Ele caminha mais um círculo em mim.
Você já sentiu isso? Nada. Completamente vazia, com
uma arma dentro de mim, apontada no meu sexo, pronta
para explodir.
Vaza.

Uma bolha de água na boca muda.
Ele caminha mais um círculo ao meu redor.
Posso ouvir ainda. O carro. Posso. Nada. Vazia.
Só a arma dentro de mim, pronta para atirar e eu
quietinha quietinha quietinha quietinha quietinha,
não atira, Moço, que saí de dentro de mim e não quero
morrer assim, só corpo, só. Quietinha quietinha,
imóvel, ninguém na mente, nem Deus. Me salva dessa,
Deus, me ilumina. Sem morte na arma. Por favor. Deus.
Sem fim pra sempre. Nesta arma quente úmida que me
invade. Sem isso.

Ele caminha outro círculo em mim.
Foi sem querer, Deus, me perdoa. Isso não. Não me
deixa morrer agora, por favor, só corpo. Não me deixa
vazar. Não me deixa guardar. Não me deixa adoecer.
Não. Quero morrer alma, Deus, e ser alma com uma
arma dentro de mim, quietinha quietinha quietinha.
Não! Não consigo.

Ele caminha mais um círculo em mim.
Deus, por favor. Sinto muito. Quietinha quietinha
quietinha. Sinto muito. (Por favor.) Não. Por favor. Faz
ele desistir dessa arma, do braço no pescoço, do sopro,
do aperto, do escuro. Por favor.
Está escuro. Um ruído. Um ruído devagar. Passa. Uma
luz. Uma fresta. Passa. Um silêncio. Um.
P a s s a d e v a g a r b e m b a i x o u m a l g o p o r n ó s .
Mais um círculo em mim.

Não me vejam, por favor, que vergonha, fui eu, desculpa, fui eu que passe aqui agora, quietinha quietinha, juro, sem ninguém aqui. Desculpa. Passo sempre, mas hoje, hoje, hoje: tudo o que veio a mim sem que eu procurasse. A arma fora de mim. A arma sempre apontada pra mim. A arma cansada mas mas mas mas mais mais mais mais mas mas mas mas mais mais mais mais forte que.

Ele caminha o sétimo círculo de mim.
Ele termina e recompõe o terno.
Ele caminha.
Ele é dele.
Ele se deita à frente, abaixo, num caixão de vidro
transparente.
Tampa e fecha.

Para de chover.

XIII ( Luiza Mendes Furia ) in "Vênus em Escorpião", Editora Patuá

 Escrevo o que me vem ao pensamento

Para falar de ti esqueço a hora
Amor, amada minha, flor do tempo
girando entre os ponteiros da demora.
Estive à tua espera e este momento
é a síntese da morte que estertora
Amor meu, nego a morte, vou constante
em busca desse amor a vida afora
Os meus minutos são teus, rosa silente,
prenunciando pétalas ardentes
que quero aspirar nas profundezas
Depois chegar ao cerne docemente
roçando a língua quente com destreza
até que tu te entregues e floresça.

TRINTA E CINCO DÓLARES ( Lubi Prates ) in Triz, Editora Patuá

 um corpo que

estabelece o limite
com o outro

ser

um corpo que
é membrana e
ampara

a personalidade

um corpo que
guarda os escapes
da mente
assim como
o contrário:
tudo que acontece
no corpo chega
às camadas psicológicas.
como pensar um corpo
que é tocado
dominado
invadido

destruído:

é saber o corpo
de uma mulher:
mutilado
estuprado
vendido
na África,
todo clitóris
é cortado
para que
nenhuma        mulher
sinta prazer.
na África, também
as meninas                   ainda meninas
apertam seus seios
para que pareçam
meninos e
não sejam invadidas.

como pensar um corpo

como saber o corpo
de uma mulher:
no Brasil,
trinta        e            três
homens
estupraram uma mulher.
ainda, no Brasil, a cada
onze minutos
uma mulher
é estuprada
mas não fala-se
a respeito
parece natural.

como pensar um corpo

como saber o corpo
de uma mulher:
a cada ano, dois milhões
de mulheres
são vendidas
cada mulher custa
trinta     e                  cinco
dólares.
eu não estou
à venda mas
o que eu custo:
trinta      e                   cinco
dólares.

como pensar um corpo

como saber o corpo
de uma mulher:

apenas carne.

02/01/2026

O CORPO É UM CORPO ( Ana Rüsche ) in Furiosa, São Paulo, edição de autora, 2016

o corpo é um campo

de batalha

se diz faca diz faça

se diz toque diz toca

esconde encolhe esconde 

meu campo é um campo

de batalha

de apanhadores 

e quando se dirá

amanhecer flauta

águas-vivas líquens

piratas areia quente

e cavalos grávidos de mar? 

: mais que nada se dirá

quando

um corpo for um corpo

um corpo for um corpo

um corpo é um corpo

um corpo é um corpo

TIGRE ( Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 A mesma velha partida,

o terror das coisas mortas.
Ali ele se fundiu novamente.

A noite escapou pelas duas pupilas reluzentes
e asfixiou com um brilho estranho meus ouvidos.

Então o asfalto flameja, o concreto brilha
e se acedem todas as estrelas.
Tigre, tigre
me persegue, me possui
me devasta, me rasga
e rasga,
corro, cambaleio e caio
chorando pelo meio da rua deserta.

INACABADO SOBRE BRENNAND ( Ana Rüsche ) in Sarabanda

 Não há mais novenas
                                        porque os santos só saem
                                        dos esconderijos
                                        para as missas solenes.
                                        Minas, prendei vossos santos.
                                                 
Donizete Galvão, "Santos nas Grades"

 as meninas de francisco

já nascem de calcinhas velhas
e culotes à mostra

as meninas de francisco
desabrocham
bicos de seio de barro e se deixam bolinar

as meninas de francisco
despetalam
de flor vermelha e choram orando para o céu

as meninas de francisco
nunca foram donzelas

TEMPO NUBLADO NO CARNAVAL ( Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 um jardim japonês,

pernas banhadas em veludo,
almofadas de tigre.

o primeiro tato,
a palma liqüefazia-se em luz
e vc procurava com calma meu umbigo.

a chuva fina escorria nas minhas veias
vc descortinava meu sono em mordidas,
e deflorou de leve minha manhã.

LUGAR COMUM 10: SALOMÉ (Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 E ela dança.


Seus guizos ainda molhados,
olhos de cocaína e peito
arfando. E ela brada:
— Tragam-me a cabeça de João Baptista!

Trouxeram-lhe na bandeja de prata, os cabelos de mendigo escorriam na palidez arroxeada dos anjos decepados.

Anticlímax e luzes brancas no palco. Algum espectador tossiu, sacos de pipoca.
E por não haver palavras suficientes, inventou-se o beijo:

Cravo com ódio os lábios naquela boca de impropérios.

E ela suga — os lábios duros com o resto da última saliva,
a língua do morto solta como pedra forrada de veludo.
Ela acaba e olha ao redor.

Salomé em luz, com o vestido branco pela lua falsa, com a cabeça horrenda a escorrer pela mão.
E por não haver palavras suficientes, os aplausos vieram:

No início a balir como rebanho lerdo, depois exultantes, o exército de mãos brancas, ante a plasticidade romântica da cena.

E ela dança.

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 Lembro-me muito bem do tal cantor basco

que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente seja possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

ROMA AMOR ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 Seu cabelo está vermelho

você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde os seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
Uau
você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
Quem sabe
se na centésima partícula
não será possível achar um pedacinho
do genoma do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó em genomas
que acontece brilhantemente
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
Quando apontou a concha de ouro
La deite a mano no tempo expresso diano
Você falou
é a forma como maio bate na janela
se refrate na geladeira
vai bater nos azulejos
se aloja em seus cabelos
respondi
é a época
das sementes e das explosões
amante de final de semana
não, meu bem
muito menos de quinta-feira
Pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro do tio das crianças
Veja só
nem todo mundo tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
Um dançarino suspenso
um dançarino su-suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo e a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper com a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para espulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
Você falou
vai embora
Desça as escadas e suma
Saia agora
Tem alguém chegando aí
e hoje
hoje é só segunda-feira

GOLPE DE 7 GRAUS ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

Há aquele poema que fala de renas

e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.

RIO DE JANEIRO — LISBOA ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 

um dia você

adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta