São uns olhos verdes, verdes,
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
06/01/2026
OLHOS VERDES ( Gonçalves Dias )
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
depois que os vi!
São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!
ROLA ( Gonçalves Dias )
Dês que amor me deu que eu lesse
Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeu!
Seja noite ou seja dia,
Eu te procuro constante:
Vem, oh! vem, ó meu amante,
Tua sou e tu és meu!
Vem, oh! vem, que por ti clamo;
Vem contentar meus desejos,
Vem fartar-me com teus beijos,
Vem saciar-me de amor!
Amo-te, quero-te, adoro-te,
Abraso-me quando em ti penso,
E em fogo voraz, intenso,
Anseio louca de amor!
Vem, que te chamo e te aguardo,
Vem apertar-me em teus braços,
Estreitar-me em doces laços,
Vem pousar no peito meu!
Que, se amor me deu que eu lesse
Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Por Maria Afonso, in Corpo Irrepetível ; Ed. Sem Nome, 2021.
deixa o teu olhar repousado na pele
lisa do meu respirar
lavarei a manhã com os panos
brancos onde adormeci
e toda a luz se apagará sob as
minhas pálpebras
cono se planeassem desgastar o
mover do dia
05/01/2026
SOU UMA CASA COMPLETA ( Fernando Young ) in A Mão Esquerda de Vênus
Sou uma casa completa.
Tenho recantos em minhas
Dobras, lareira e um belo
Jardim de tulipas negras.
Também sou uma caravela
Que corre ruidosa e
Escorregadia sobre os oceanos
Que conduzem a novos
Continentes.
E uma caneta macia de um
Garçom orgulhoso; ele gosta
De ouvir: – Que caneta boa!
Quando assinam a conta.
Posso ser os elásticos de
Pompom nas chiquinhas de
Uma menina que chora,
Chata, no pátio ao lado.
Ou um simples copo de água
Oferecido a alguém que
Trouxe uma pesada
Encomenda.
Quiçá sou eu, sim, eu.
Eu mesma. Sofisticada e
Demencial. Essa que fala
Demais e diz que te ama,
Que não quer ir, e não quer
Ficar aqui.
Esse aqui que vaga e
HÁ ESTES DIAS EM QUE PRESSENTIMOS... ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças
Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
ESCONDERIJO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Dessemelhanças
Estas são palavras que eu não
deveria dizer
palavras que ninguém
deveria ouvir
que elas permanecessem no silêncio
de onde vêm
no fundo escuro da língua
cheio de doçura e ruídos
com o ranço informulado
dos segredos
por via das dúvidas escondi-as aqui
neste poema
MEU AMIGO ( Ana Martins Marques ) in Risque Esta Palavra
Meu amigo,
quase já não escrevo
passo o dia sentada em algum lugar
olhando florescer qualquer coisa que esteja
posta diante dos olhos
com isso já vi morrer uma pedra
e um cachorro enforcar-se
numa nesga de sol
mas nada disso era uma palavra
dessas que coloco agora uma após a outra
para que depois você as receba como um aviso
de que ainda não morri de todo
não se parecia tampouco com uma palavra
embora lembrasse vagamente naufrágio
a mulher que atravessou a rua velozmente
carregando como uma criança
um girassol sem cabeça
e o que encontrei
um dia após o outro
não foi uma palavra
mas uma canoa em chamas
não foi uma palavra
mas um acidente doméstico
envolvendo um barco de brinquedo
e uma máquina de costura
não foi uma palavra
(embora em torno das coisas
sempre se ajuntem palavras
como cracas no casco
de uma embarcação antiga)
às vezes sim me ocorre encontrar uma palavra
apenas quando a encontro
ela se parece com um buraco
cheio de silêncio
às vezes sim me ocorre encontrar uma palavra
enganchada numa lembrança
como uma lâmpada num bocal
um poema não é mais
do que uma pedra que grita
risque por favor
04/01/2026
Conceição Evaristo, in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
Do velho ao jovem
Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se ao novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
um ponto final na história
Infinitas são as personagens…
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendó, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
e mais e mais, outras e outros.
Nos olhos do jovem
também o brilho de muitas histórias.
e não há quem ponha
um ponto final no rap
É preciso eternizar as palavras
da liberdade ainda e agora
Por Annita Costa Malufe, in Quando Não Estou Por Perto; 7Letras / Petrobras, 2012.
me deixe ir era a moça que dizia me deixe
ir como estou assim mesmo pés no chão blusa
amarrotada deixe me deixe era a voz de uma mulher
lá longe muito fina aguda era um pedido ele
se amarrava a seus pés ele não a deixava não assim
a mesa posta para o café ela sabia que o tempo tinha sido
este não um tempo planejado mas simplesmente
este ela sabia que ele pedia algo impossível deixe-me
é simples mais simples do que se prender a uma
imagem eu sou apenas uma imagem adentrando
a janela a luz branca apenas uma visão preciso
partir assim mesmo de pés no chão os cabelos
desalinhados o tempo deste modo sobre nós
súbito como um evento banal corriqueiro deixe-me
a voz era fina suplicante ele não a deixava ir os braços
se atavam às pernas à cintura à pele de uma imagem
branca tão branca que não se via apenas ele a via e
a prendia mesmo longe um vapor mesmo sem o tato
o cheiro os pés os cabelos em desalinho os pés no chão a história
rompida pelo tempo súbito um farol passando numa esquina
a iluminação súbita do farol o vidro iluminado de relance
a visão o vapor ele se atava ela pedia deixe-me ir é simples
preciso ir estou indo assim mesmo como estou
Por Annita Costa Malufe, in Quando Não Estou Por Perto; 7Letras / Petrobras, 2012.
antes do sono chegar são seus cabelos
que se espalham sobre as pernas
as que não tenho mais antes mesmo
do sono antes as portas estão vigiadas a
solidez dos cadeados uma ressaca de mar
a viagem entre caminhos que a água cava
na areia o sal a vivência que adere
à pele antes do sono chegar estou acordado
perambulo novamente respondo a alguém que
me chama na rua em frente procuro
minhas pernas as que perdi entre águas o sal
a solidez que retorna calcário mar antes
são as imagens um mar de cabelos sobre
as pernas o sono interrompido
a resposta estou indo o poste queimado
na rua em frente a beirada de uma guia
seguir os caminhos fincados no cimento as pernas
onde estão onde você está quem
me chama na rua em frente no escuro da rua
em frente vigiada pelo poste queimado mesmo
antes do sono chegar desperto o corpo estaria morto
e como seria estar morto senão um gole o último
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto penso
na solidez dos cadeados na necessidade de
03/01/2026
NANQUIM (Ana Martins Marques) in Da Arte das Armadilhas; Companhia das Letras, 2011.
Olhos de nanquim.
Escreves o dia
para teu próprio uso.
Calas como a fruta,
repartida de sol,
e que esconde,
em seus úmidos,
seus claros.
Ardes como a água
cheia de peixes vermelhos.
Repousas como as feras,
como as mãos fechadas,
tece com cordões
teu sono violento.
E em silêncio
bates a casa aberta
onde se mora e se morre,
onde o tempo trabalha
seus meio-dias,
seus punhais, sua cega luz.
E enquanto arquitetas a vida
com restos de vinho e copos de mar,
com linhas claras e escuras
e o troco do ônibus
e a dobra de noite do sexo,
bebes a luz do dia nas cervejas,
toda a tarde na espuma branca,
tanta alegria na esponja dessa dor,
tonto amor
I LIKE MY BODY (Ana Martins Marques) in Da Arte das Armadilhas; Companhia das Letras, 2011.
o meu corpo tão mais bonito
junto ao seu
músculos, pelos
meus seus cabelos
encostados nossos
joelhos juntos
densos, compactos
acidentes de ossos
nos seus braços
os meus braços
tão melhores
mãos encontradas
ao acaso das vértebras
um caminho
áspero, liso
pela pela
(sua língua
lenta
entre
entra)
o meu corpo tão mais bonito
junto ao seu
côncavas, iguais
nossas bocas
A VIDA SUBMARINA (Ana Martins Marques) in A vida Submarina; Editora Scriptum, 2009.
Eu precisava te dizer.
Tenho quase trinta anos
e uma vida marítima, que não vês,
que não se pode contar.
Começa assim: foi engendrada na espuma,
como uma Vênus ainda sem beleza,
sobre a apele nasciam os corais,
pele de baleia, calcária e dura.
Ou assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os peixes começam a consumir por dentro
o sal do desejo,
estão habituados ao sal.
Quando vês, a água inundou os pulmões,
neles crescem algas íntimas,
os olhos volta-se para dentro,
para o sono infinito do mar.
As mãos se movem num ritmo submerso,
os pensamentos guiam-se pela noite
do Oceano, um anoite maior que a noite.
Tenho quase trinta anos e uma vida antiga
anterior a mim.
Daí meu silêncio, daí meu alheamento,
daí minha recusa da promessa desse dia que você me oferece,
esse dia que é como uma cama
que se oferece ao peixe
(você não haveria de querer
um peixe em sua cama).
Quem atribuiria ao mar
a culpa pela solidão dos corais
pelas vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal e silêncio e sono?
Eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
MARINHA (Ana Martins Marques) in A vida Submarina; Editora Scriptum, 2009.
Ardo-me peixe,
movo-me estranha
entre palavras
de escama e sal.
Calo-me ostra,
clausura de algas e sexos,
casa obscura
onde o desejo mora.
A água dessa noite é habitada,
esconde seus corais de perigo,
seus olhos abertos.
Invento um amor
de amplas janelas
RELÂMPAGOS (Ana Martins Marques) in A Vida Submarina; Editora Scriptum, 2009.
Certas máquinas são feitas para o esquecimento.
Há dias em que sinto trabalharem em mim
as confusões do relâmpago.
Então coleciono letras, órbitas, radares.
A linha que me liga aos quadris desta noite imensa
é a mesma que sai da garganta aberta do dia.
Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,
sei muitas coisas rápidas, precisas,
O DESEJO (Ana Martins Marques) in A vida Submarina; Editora Scriptum, 2009.
Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada;
o desejo me deixa
ÁGUAS SÃO ESPAÇOS ABERTOS ( Erlândia Ribeiro ) in Vermelho/Ruína; Urutau, 2021).
sonho perpétuo
língua estremecida
em qual curva
fugimos?
tudo enfraquecido
afoga
no precipício
as águas são espaços abertos
você é um espaço aberto
ABRASIVIDADE ( Erlândia Ribeiro ) in Vermelho/Ruína; Urutau, 2021).
caindo em brasas fortes
em tempos escuros
tua mão envolta
de segredos infinitos
te leio por onde posso
uma chama que incendeia
nos teus olhos de culpa
e sempre perdidos
ofereço minha boca:
eu te amo como quem corta
EVA ( Erlândia Ribeiro ) in Vermelho/Ruína; Urutau, 2021).
repete a dose
infame
morre em mim
mais uma vez
eu não nasço
e nem morro
mediando o processo
encontro
traumas perdidos
orgulho ferido
e mexo
numa parte profunda
que ainda desconheço
malícia e desejo
dois significados
dois pesos involuntários
nas minhas costas
de Eva
descobrindo
PANGEIA ( Letícia Sodré ) in "Ré" ; Urutau, 2020.
o cheiro úmido verde
crepitante da terra
ocupou meus vãos
virei argila
fresca maleável macia
tão inteira que
sem pele sem borda
tão fértil que
de mim tudo brota
Big Bang
GEOGRAFIA DOS SABORES ( Letícia Sodré ) in "Ré" ; Urutau, 2020.
a vida se aprende
antes pela língua
na ponta
o doce
delicado e pujante
o mamilo e o leite
língua adentro
o salgado
a gana por
tirar os véus
mais a fundo
a acidez
perceber que nem
sempre, nem tudo
no fim
o amargo
a morte
o não
e lá no côncavo
onde fica a saliva
e o que faz salivar
NUM QUANDO (Ana Rüsche) in Sarabanda. São Paulo: Editora Patuá, 2013.
a cirurgia foi um after hours, mas estou
acostumada a ir dormir tarde
acho que os médicos também, tão animados
fui sim até o centro cirúrgico bem acordada e
fiquei acordada, sinto a hack entrando
entrando
ainda ao longe, bem corajosinha, uma conversa
sobre qualquer coisa, luzes nos olhos
para que me sinta bem iluminada, bem disposta
de súbito lembro que não fiz depilação, e isso me
envergonha mortalmente
seria tudo filmado e colocado no youtube da
faculdade de medicina, ririam de mim
mas tenho de explicar – foi de urgência a
cirurgia, não houve tempo
nunca há tempo para nada nessas terras, apenas
para ficar ali, suspensa
e, afinal, não tenho namorado, foi uma urgência,
acontece
no início me estacionaram com o carro-maca ao
lado de um cara paciente também
podíamos até começar ali um romance,
lembro de ter desejado ao final “boa sorte, moça”
e isso acabou já com tudo, que bobo
ele morria de medo, ia retirar uma pedra do rim e
não se rendia a dormir
eu logo disse, ah, comigo também pensaram que
era cálculo renal, pela dor,
mas depois viram que era uma laranja na
barriga que eu tinha
de súbito lembro que removeram o cara paciente
com seu carro-maca e com seu medo
e fiquei pensando num poema do zukofsky, sobre
uma laranja e o sol e a letra a
e estava já chorando, desesperada por estar sozinha
e confundindo os poemas, estar tão sozinha,
O POEMA BRANCO (Ana Rüsche) in Sarabanda. São Paulo: Editora Patuá, 2013.
e ela montada
no topo da bicicleta ergométrica
uma caixinha de música
laqueada como gelo
a rodar, a esperar
a agulha hipodérmica de endorfina
para capar seu coração.
um romance raso.
eu queria ser um esquimó
mas entre uma faísca e outra,
o frio da estroboscópica,
a solidão me dá picadas
uma cocaína negra com mel
que me anima.
minhas mortes são semanais.
em lençóis alugados por pernoite
no degelo de teus cabelos negros
de latin lover
e como você faz a tantas donzelas
teus dedos apalpam
minha pequena morte úmida
e lhe aplicam um
grito seco na canção de rádio pela tarde
olhos pretos cheios de branco
mas agora é escuro
pela pia de mármore duro
ela derrama a borra de café
que se transforma em terra
e embala os natimortos de nossos sonhos
um romance raso.
e ela entediada roía unhas
na internet os esquimós
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