07/01/2026

MÃOS ( Augusto dos Anjos )

 Há mãos que fazem medo

Feias agregações pentagonais,
Umas, em sangue, a delinqüentes natos,
Assinalados pelo mancinismo,
Pertencentes talvez...
Outras, negras, a farpas de rochedo
Completamente iguais...
Mãos de linhas análogas a anfratos
Que a Natureza omnicreadora fez
Em contraposição e antagonismo
Às da estrela, às da neve, às dos cristais.

Mãos que adquiriram olhos, pituitárias
Olfativas, tentáculos subtis
E à noite, vão cheirar, quebrando portas
O azul gasofiláceo silencioso
Dos tálamos cristãos.
Mãos adúlteras, mãos mais sanguinárias
E estupradoras do que os bisturis
Cortando a carne em flor das crianças mortas.
Monstruosíssimas mãos,
Que apalpam e olham com lascívia e gozo
A pureza dos corpos infantis.

MINHA ÁRVORE ( Augusto dos Anjos )

 Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada!

Como que a erva tem dor... Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!

Entre os pedrouços maus dessa morada
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!

Mulher nenhuma afagará meu tronco!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do furacão que, rábido, remoinha...

Folhas e frutos, sobre a terra ardente
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!

MÁGOAS ( Augusto dos Anjos )

 Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita à Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

VENCEDOR ( Augusto dos Anjos )

 Toma as espadas rútilas, guerreiro,

E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração  estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

A ÁRVORE DA SERRA ( Augusto dos Anjos )

 — As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

06/01/2026

A FLOR E O ASCO ( Célia Moura )

 Decerto hei-de escrever

a forma como me matarás,
até lá brincarei com as açucenas
que abominas
e peço perdão ao Infinito
por todos os que riram desta lama,
desta incomesurável dor
desde as ilhargas até ao peito.

Ainda que ninguém saiba,
eu sei e tu também
o quanto fizeste arder toda a poesia
na fogueira,
o quanto meu corpo gemeu
por todos os abraços
que me desprezaste.

Não, não sou tua flor!
Sou uma mulher,
que transformaste em asco
sou de ninguém.

E antes que me mates,
hei-de parir todos os filhos
que nunca quiseste de mim.
E porque haverias de os querer
se sou tua flor
loucura absoluta
destas noites sem alvorada,
numa verdade feita mentira
deambulando nua
por todos os jardins
que de meu ventre arrancaste!

TRANSFIGURAÇÃO (Célia Moura) in “Jardins Do Exílio” - pág. 116 – 2003.

 Mulher,

Mito presente,
Decerto não serpenteias mais
Entre Vitrais de Lua Cheia.

Serás ainda a musa
Por quem os Poetas clamam,
Ou o flagelo inscrito
Em rostos baços?

A hipócrita
Louca soberba,
Caridosa, por vezes
Não retém,
Nem asfixia
O hálito fresco
Das açucenas amantes
No teu corpo,
Em trajes nupciais.

Mulher,
Por onde vagueiam hoje teus pés,
Hastes douradas em submissão?

Mataste tu,
A víbora vigilante,
Assassina dos férteis sorrisos das crianças
E uniste tua breve alegria
Á sabedoria da Festa?

E, a saudade, onde repousa?

Virá decerto no regresso das aves migratórias,
Ou nos olhos dos girassóis!

Essas vozes que ouves,
São baladas!
E, as larvas ainda rodopiam arco-íris,
Enquanto acalentas as grotescas pedras da calçada.

Emerge em ti (burilada já és),
No convite desse raro Amor,
Dádiva do vento
E da solidão do mar,
Entoando um fado!

Já te despiram
Na pia baptismal
Todos os anjos do céu.
Eles te acolherão
No flamejante ventre da Terra Mãe,
Que por ti
Se abre

Por isso vem,
Ilusão pura
De beleza consagrada,
Com rosto de mito, de prata,
Ou somente de Mulher!

NÃO ME DEIXES ( Gonçalves Dias )

 Debruçada nas águas dum regato

A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

OLHOS VERDES ( Gonçalves Dias )

 São uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

ROLA ( Gonçalves Dias )

 Dês que amor me deu que eu lesse

Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeu!
Seja noite ou seja dia,
Eu te procuro constante:
Vem, oh! vem, ó meu amante,
Tua sou e tu és meu!

Vem, oh! vem, que por ti clamo;
Vem contentar meus desejos,
Vem fartar-me com teus beijos,
Vem saciar-me de amor!
Amo-te, quero-te, adoro-te,
Abraso-me quando em ti penso,
E em fogo voraz, intenso,
Anseio louca de amor!

Vem, que te chamo e te aguardo,
Vem apertar-me em teus braços,
Estreitar-me em doces laços,
Vem pousar no peito meu!
Que, se amor me deu que eu lesse
Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeu.

Por Maria Afonso, in Corpo Irrepetível ; Ed. Sem Nome, 2021.

 deixa o teu olhar repousado na pele

lisa do meu respirar
lavarei a manhã com os panos
brancos onde adormeci
e toda a luz se apagará sob as
minhas pálpebras
cono se planeassem desgastar o
mover do dia
ou tão só abrasar o ar em redor
do meu corpo

OLHOS (Maria do Rosário Pedreira) in O Meu Corpo Humano - Quetzal, 2022.

 Apaga a luz - é justo

que tenhas nos teus
braços a rapariga
que fui antes de ti.

05/01/2026

SOU UMA CASA COMPLETA ( Fernando Young ) in A Mão Esquerda de Vênus

 Sou uma casa completa.

Tenho recantos em minhas
Dobras, lareira e um belo
Jardim de tulipas negras.

Também sou uma caravela
Que corre ruidosa e
Escorregadia sobre os oceanos
Que conduzem a novos
Continentes.

E uma caneta macia de um
Garçom orgulhoso; ele gosta
De ouvir: – Que caneta boa!
Quando assinam a conta.

Posso ser os elásticos de
Pompom nas chiquinhas de
Uma menina que chora,
Chata, no pátio ao lado.

Ou um simples copo de água
Oferecido a alguém que
Trouxe uma pesada
Encomenda.

Quiçá sou eu, sim, eu.
Eu mesma. Sofisticada e
Demencial. Essa que fala
Demais e diz que te ama,
Que não quer ir, e não quer
Ficar aqui.

Esse aqui que vaga e
Ressente.

HÁ ESTES DIAS EM QUE PRESSENTIMOS... ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

 Há estes dias em que pressentimos na casa

a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato

ESCONDERIJO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Dessemelhanças

 Estas são palavras que eu não

deveria dizer
palavras que ninguém
deveria ouvir
que elas permanecessem no silêncio
de onde vêm
no fundo escuro da língua
cheio de doçura e ruídos
com o ranço informulado
dos segredos
por via das dúvidas escondi-as aqui
neste poema
onde ninguém as vai encontrar

MEU AMIGO ( Ana Martins Marques ) in Risque Esta Palavra

 Meu amigo,

quase já não escrevo
passo o dia sentada em algum lugar
olhando florescer qualquer coisa que esteja
posta diante dos olhos

com isso já vi morrer uma pedra
e um cachorro enforcar-se
numa nesga de sol

mas nada disso era uma palavra
dessas que coloco agora uma após a outra
para que depois você as receba como um aviso
de que ainda não morri de todo

não se parecia tampouco com uma palavra
embora lembrasse vagamente naufrágio
a mulher que atravessou a rua velozmente
carregando como uma criança
um girassol sem cabeça

e o que encontrei
um dia após o outro
não foi uma palavra
mas uma canoa em chamas
não foi uma palavra
mas um acidente doméstico
envolvendo um barco de brinquedo
e uma máquina de costura
não foi uma palavra

(embora em torno das coisas
sempre se ajuntem palavras
como cracas no casco
de uma embarcação antiga)

às vezes sim me ocorre encontrar uma palavra
apenas quando a encontro
ela se parece com um buraco
cheio de silêncio

às vezes sim me ocorre encontrar uma palavra
enganchada numa lembrança
como uma lâmpada num bocal

um poema não é mais
do que uma pedra que grita

risque por favor
esta palavra

04/01/2026

Conceição Evaristo, in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Do velho ao jovem

Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem

o frescor da pele
e o brilho dos olhos

são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas

de ambos,
o velho tempo
funde-se ao novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,

as palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
um ponto final na história
Infinitas são as personagens…
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendó, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
e mais e mais, outras e outros.
Nos olhos do jovem

também o brilho de muitas histórias.
e não há quem ponha
um ponto final no rap
É preciso eternizar as palavras
da liberdade ainda e agora

Por Annita Costa Malufe, in Quando Não Estou Por Perto; 7Letras / Petrobras, 2012.

 me deixe ir era a moça que dizia me deixe

ir como estou assim mesmo pés no chão blusa
amarrotada deixe me deixe era a voz de uma mulher
lá longe muito fina aguda era um pedido ele
se amarrava a seus pés ele não a deixava não assim
a mesa posta para o café ela sabia que o tempo tinha sido
este não um tempo planejado mas simplesmente
este ela sabia que ele pedia algo impossível deixe-me
é simples mais simples do que se prender a uma
imagem eu sou apenas uma imagem adentrando
a janela a luz branca apenas uma visão preciso
partir assim mesmo de pés no chão os cabelos
desalinhados o tempo deste modo sobre nós
súbito como um evento banal corriqueiro deixe-me
a voz era fina suplicante ele não a deixava ir os braços
se atavam às pernas à cintura à pele de uma imagem
branca tão branca que não se via apenas ele a via e
a prendia mesmo longe um vapor mesmo sem o tato
o cheiro os pés os cabelos em desalinho os pés no chão a história
rompida pelo tempo súbito um farol passando numa esquina
a iluminação súbita do farol o vidro iluminado de relance
a visão o vapor ele se atava ela pedia deixe-me ir é simples
preciso ir estou indo assim mesmo como estou
os pés tocando de leve o chão à minha frente e após

Por Annita Costa Malufe, in Quando Não Estou Por Perto; 7Letras / Petrobras, 2012.

 antes do sono chegar são seus cabelos

que se espalham sobre as pernas
as que não tenho mais antes mesmo
do sono antes as portas estão vigiadas a
solidez dos cadeados uma ressaca de mar
a viagem entre caminhos que a água cava
na areia o sal a vivência que adere
à pele antes do sono chegar estou acordado
perambulo novamente respondo a alguém que
me chama na rua em frente procuro
minhas pernas as que perdi entre águas o sal
a solidez que retorna calcário mar antes
são as imagens um mar de cabelos sobre
as pernas o sono interrompido
a resposta estou indo o poste queimado
na rua em frente a beirada de uma guia
seguir os caminhos fincados no cimento as pernas
onde estão onde você está quem
me chama na rua em frente no escuro da rua
em frente vigiada pelo poste queimado mesmo
antes do sono chegar desperto o corpo estaria morto
e como seria estar morto senão um gole o último
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto penso
na solidez dos cadeados na necessidade de
perder as pernas embaixo dos lençóis

03/01/2026

NANQUIM (Ana Martins Marques) in Da Arte das Armadilhas; Companhia das Letras, 2011.

 Olhos de nanquim.

Escreves o dia
para teu próprio uso.
Calas como a fruta,
repartida de sol,
e que esconde,
em seus úmidos,
seus claros.
Ardes como a água
cheia de peixes vermelhos.
Repousas como as feras,
como as mãos fechadas,
tece com cordões
teu sono violento.
E em silêncio
bates a casa aberta
onde se mora e se morre,
onde o tempo trabalha
seus meio-dias,
seus punhais, sua cega luz.
E enquanto arquitetas a vida
com restos de vinho e copos de mar,
com linhas claras e escuras
e o troco do ônibus
e a dobra de noite do sexo,
bebes a luz do dia nas cervejas,
toda a tarde na espuma branca,
tanta alegria na esponja dessa dor,
tonto amor
nos olhos de nanquim.

I LIKE MY BODY (Ana Martins Marques) in Da Arte das Armadilhas; Companhia das Letras, 2011.

 o meu corpo tão mais bonito

junto ao seu
músculos, pelos
meus seus cabelos
encostados nossos
joelhos juntos
densos, compactos
acidentes de ossos
nos seus braços
os meus braços
tão melhores
mãos encontradas
ao acaso das vértebras
um caminho
áspero, liso
pela pela
(sua língua
lenta
entre
entra)
o meu corpo tão mais bonito
junto ao seu
côncavas, iguais
nossas bocas
se recebem

A VIDA SUBMARINA (Ana Martins Marques) in A vida Submarina; Editora Scriptum, 2009.

 Eu precisava te dizer.

Tenho quase trinta anos
e uma vida marítima, que não vês,
que não se pode contar.
Começa assim: foi engendrada na espuma,
como uma Vênus ainda sem beleza,
sobre a apele nasciam os corais,
pele de baleia, calcária e dura.
Ou assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os peixes começam a consumir por dentro
o sal do desejo,
estão habituados ao sal.
Quando vês, a água inundou os pulmões,
neles crescem algas íntimas,
os olhos volta-se para dentro,
para o sono infinito do mar.
As mãos se movem num ritmo submerso,
os pensamentos guiam-se pela noite
do Oceano, um anoite maior que a noite.
Tenho quase trinta anos e uma vida antiga
anterior a mim.
Daí meu silêncio, daí meu alheamento,
daí minha recusa da promessa desse dia que você me oferece,
esse dia que é como uma cama
que se oferece ao peixe
(você não haveria de querer
um peixe em sua cama).
Quem atribuiria ao mar
a culpa pela solidão dos corais
pelas vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal e silêncio e sono?
Eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
submarina.