14/01/2026

CORPO ( Lourdes Espínola ), in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins.

 Ofereço-te:

esta coordenada-cordilheira

esta longa seda desprendida

o buraco, o vale, o abraço prolongado.

Cavalga amor com mãos acesas

- argonauta da bússola partida –

para que sul e norte se soltem

para que os signos azuis

te devorem,

para que a minha voz cubra

o teu silêncio.

 

Onde reconheci o teu sinal,

                            onde reconheci o meu?

                            Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos

                            ou no silêncio que precede o silêncio?

                            A tua mão ordena a desordem do caos

                            e a minha paixão agita os ramos da árvore

                            que há dentro de ti

                            para que os frutos caiam.

                            Que generosos são os deuses

                            sábios e calados!

                            Posso observar o seu sorriso

                            de prazer, de entendimento

                            quando nos vêem

                            caminhando juntos,

                            desenredando os fios

                            em estranhos, secretos labirintos.

                                     

                            Podem acontecer duas coisas:

                            que o caracol se vire sobre si mesmo

                            ou que se erga rolando

                            para fora.

                            Assim são os caminhos,

                            as nossas vidas.

                            Eu dobrada sobre mim mesma

                            e tu estendendo-te, cingindo.

                            Num ponto qualquer

                            os círculos concêntricos

                            tocaram-se:

            estranhos meteoros

         de rápidos planetas.

            Não te enganes,

         posso ensinar-te muitas coisas.

         Guardo dentro de mim esse segredo,

         o que procuraste e procuras

         em tantas outras mãos.

 

De noite, quando as tuas pálpebras te cobrem,

         escapo-me,

         visito os teus fantasmas

         e examino lentamente as tuas feridas

         sanadas pela minha língua.

         Quando te aproximas

         e pensas

         escondo-me e, de assalto,

         digo o teu nome, esconjuro-o.

         E cresço dentro do teu corpo

         e tu dilatas-te no meu coração

         porque assim o disseram

         os antigos deuses.            

 

Espero-te, embora estejas a meu lado,

         calado e como ausente.

         Espero o sinal

         para o silencioso encontro

         das tuas torres com os meus cumes,

         do teu abismo

         com os meus braços.

         Embora digas o meu nome em sonhos,

         espero-te desde esta imensa

         eternidade,

         desde o território do amor,

         semeando.   

 

A tua carícia é um laço,

                            seda colada à minha pele,

                            veludo que se estende

                            e se agarra às minhas pernas.

                            A tua carícia é um látego feroz

                            que me submete ao jugo do teu tempo

                            e do teu prazer.

                            A tua carícia solta

                            o mar enlouquecido

                            dos meus gemidos.
 Se pudesses ver que sou uma espécie em extinção:

                            humana, demasiado humana.

                            Se o teu cérebro pudesse autorizar

                            o teu coração,

                            se fechasses os olhos.

                            Se sentisses

                            toda esta constelação que treme

                            nas minhas mãos.

                            Se pudesses receber o meu coração,

                            olhá-lo fixamente,

                            ser sua testemunha

                            antes que se extinga.

                            Se pudesses.

 

                         Um dia os ponteiros dos relógios girarão ao contrário

                            e os nomes repetir-se-ão

                            sem pensar nisso.

                            A presença de tantas madrugadas

                            que trago nos alforges

                            despertará.

                            E abrir-te-ei a porta

                            como antigamente:

                            tremor, raiz cravada no meu epicentro.

                            A noite será oferenda:

                            a serpente de seda e a taça da ninfa,

                            unidas,

                            tão amadas.

VAMOS CONSIDERAR TUDO ( Lourdes Espínola ) in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins

 Vamos considerar tudo:

o teu olhar empapado de outras noites,
as tuas mãos de semente
prestes a cravar-se nas minhas costas,
e sobretudo o teu fogo, tão criador
e que receio me destrua;
e também
a morte pontual do amor,
como tu disseste.
É melhor, porém, assim: não consideremos nada
e
estende
o ramalhete de nervos dos meus dedos
apenas para que Deus
não me encontre adormecida.

UMAS MÃOS EXPERIENTES ( Lourdes Espínola ), in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins

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PROCURAR A TUA BÚSSOLA ( Lourdes Espínola ) ,in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins

 Procurar a tua bússola,

ser taça, fruto, receptáculo,
som do amor
que se junta na água e na terra.
Madrugadas tardias
a tecer a tua boca na minha almofada
(entre a meada da lembrança
e a do esquecimento).
Acordo tersa,
fecunda hélice perene;
esta espiral aquática
que ignora sempre o teu apelo.
Jogo do tímpano e do som
carregado de humidade e de colinas,
de língua de desejo
ou tensa funda.
Eu sou a tépida humidade
que não volta,
sou o desejo que espera em silêncio,
sou a outra que acorda de madrugada.

SOLIDÃO ( Lourdes Espínola ), in Ser Mulher e Outras Desventuras. tradução: Albano Martins.

 Com o cheiro dos meus poros,

inclinas-te comodamente
sobre o longo corredor do meu peito.
Órfã de mim mesma,
percorres as minhas entranhas,
reconheces o ten velho território.
Escorpião mordido
pelo seu próprio veneno
vejo-me retorcida
no teu sorriso final.

DELMIRA ( Lourdes Espínola ), in Ser Mulher e Outras Desventuras. tradução: Albano Martins

 Ser contradição ou mulher

é a mesma coisa, afinal,
arder
fingir pudor
calar, cantar
adorar o próprio corpo
engalaná-lo com vestidos
cremes, perfumes e artifícios
tudo envolto cm falsa modéstia.
 
E ter
a medida exacta,
o olhar virginal
os olhos sorridentes
mas desejando
a longa carícia
que solte os cavalos
do desejo sabiamente reprimido.

MITO DA CRIAÇÃO ( Lourdes Espínola ), in As Palavras do Corpo : tradução: Albano Martins.

 Abri as pernas

para dar luz ao sol.
O calor derretia-se nas minhas costas
e a sua luz
iluminava os meus joelhos.
As articulações, ao rodar,
transformaram-se em música
que se apaziguava com o passar do tempo.
Abri os braços
e dos seios nasceu a lua.
Então a tua língua
ergueu-me para a humanidade inteira.

DESEJO ( Djavan )

 Desses olhos

Tenho medo
Quer dizer tudo
Tudo é segredo
Vejo em sua cor
Que tudo será triste
Se um dia eu deixar de te ver

O teu beijo
Eu invento
Na sala escura
Do sentimento
Quando bate a dor
Eu sei que o amor existe
E onde vive que eu chamo
E não vem

Sofrer, cantar
Socorrer, fugir da paixão
Pra que?
Mesmo onde há certeza de dores
Que flores dão
Que nem de algodão
Vago em teu calor

Sou, sou tão leve
Se o amor é breve
Deixa nascer
Pra ver

CONCEIÇÃO ( Jair Amorim & Dunga )

 Conceição

(Eu me lembro muito bem)
Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem 

Foi então
Que lá em cima apareceu
Alguém que lhe disse a sorrir
Que, descendo à cidade, ela iria subir 

Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou

Só eu sei
Que, tentando a subida, desceu,
E agora daria um milhão
Para ser outra vez Conceição

13/01/2026

NAÇÃO ( Aldir Blanc / João Bosco / Paulo Emílio)

 Dorival Caymmi falou pra Oxum

Com Silas tô em boa companhia
O Céu abraça a Terra
Deságua o rio na Bahia

Jêje
Minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta
Planta flor, irmã da bandeira
A minha sina é verde-amarela
Feito a bananeira

Ouro cobre o espelho esmeralda
No berço-esplêndido
A floresta em calda
Manjedoura d'alma
Labarágua, sete quedas em chama
Cobra de ferro, Oxumaré
Homem e mulher na cama

Jêje
Tuas asas de pomba
Presas nas costas
Com mel e dendê
Aguentam por um fio

Sofrem
O bafio da fera
O bombardeiro de Caramuru
A sanha d'Anhanguera

Jêje
Tua boca do lixo
Escarra o sangue
De outra hemoptise
No canal do mangue

O uirapuru das cinzas chama
Rebenta a louça, Oxumaré
Dança em teu mar de lama

12/01/2026

A NOSSA CASA ( Florbela Espanca ) in Charneca em Flor

 A nossa casa, Amor, a nossa casa!

Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi.
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim.

O TEU OLHAR ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas

 Passam no teu olhar nobres cortejos,

Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

DOCE CERTEZA ( Florbela Espanca ) , in A Mensageira das Violetas

 Por essa vida fora hás-de adorar

Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer.

Hás de tecer uns sonhos delicados.
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!

AMAR! ( Florbela Espanca ) in Charneca Em Flor.

 Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui. Além.
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente.
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder pra me encontrar.

IX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003

 Os cascos enfaixados

Para que eu não ouça
Teu duro trote.
É assim, cavalinha,
Que me virás buscar?
Ou porque te pensei
Severa e silenciosa
Virás criança
Num estilhaço de louças?
Amante
Porque te desprezei?
Ou com ares de rei
Porque te fiz rainha?

XXIX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003

 Te sei. Em vida

Provei teu gosto.
Perda, partidas
Memória, pó

Com a boca viva provei
Teu gosto, teu sumo grosso.
Em vida, morte, te sei.

BAILANDO NO VENTO E NO COSMO ( Zoraida H. Guimarães ), in “Na Passarela do Tempo”: Riomar, 1997.

 Eu sou essa música

que ouves em surdina
nas máquinas do tempo.
Eu sou esse perfume
finado, mas vivo
que o vento trouxe
para reavivar a tua memória
Sou a beleza sonhada
da nossa história
que não foi vivenciada
pelos nossos sentidos.
Eu sou essa alma sozinha
que baila no vento
à espera de abraços
Sou música em surdina
sou perfume e beleza no espaço,
sou o teu sonho mais lindo de outrora
que agora te chama
em forma de rima
Vem comigo, o sonho recordar
e se a música te anima
o vento te ensina:
– aprende a amar!

IDOS SIDOS ( Darcy Ribeiro ) , in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 Que é que fiz, não fiz, de mim?

Que é que fiz na vida, da vida?
Quem sou eu? Esse eu que me sou.

Minhas mãos me pendem soltas.
Inúteis para fazimentos.
Só servem para escrever, acarinhar.

Não sei dançar, nunca soube.
Olho, idiota, o céu estrelado.
Não conheço estrela nenhuma.

As árvores, tantíssimas, que vi.,
Recordo inumeráveis, enormíssimas,
Não sei quem são.

Diante das flores me extasio.
Tolo, só reconheço rosas, orquídeas, cravos.
A música clássica me atordoa, cansa.

Quem sou eu, septuagenário,
Que esgoto meu tempo de me ser aqui?
Insciente, perplexo, inexplicado.

Só cheio de saudades de mim.
De tantos eus que fui. Sidos. Idos.
Somos descartáveis, sei, mas dói.