13/01/2026

NAÇÃO ( Aldir Blanc / João Bosco / Paulo Emílio)

 Dorival Caymmi falou pra Oxum

Com Silas tô em boa companhia
O Céu abraça a Terra
Deságua o rio na Bahia

Jêje
Minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta
Planta flor, irmã da bandeira
A minha sina é verde-amarela
Feito a bananeira

Ouro cobre o espelho esmeralda
No berço-esplêndido
A floresta em calda
Manjedoura d'alma
Labarágua, sete quedas em chama
Cobra de ferro, Oxumaré
Homem e mulher na cama

Jêje
Tuas asas de pomba
Presas nas costas
Com mel e dendê
Aguentam por um fio

Sofrem
O bafio da fera
O bombardeiro de Caramuru
A sanha d'Anhanguera

Jêje
Tua boca do lixo
Escarra o sangue
De outra hemoptise
No canal do mangue

O uirapuru das cinzas chama
Rebenta a louça, Oxumaré
Dança em teu mar de lama

12/01/2026

A NOSSA CASA ( Florbela Espanca ) in Charneca em Flor

 A nossa casa, Amor, a nossa casa!

Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi.
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim.

O TEU OLHAR ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas

 Passam no teu olhar nobres cortejos,

Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

DOCE CERTEZA ( Florbela Espanca ) , in A Mensageira das Violetas

 Por essa vida fora hás-de adorar

Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer.

Hás de tecer uns sonhos delicados.
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!

AMAR! ( Florbela Espanca ) in Charneca Em Flor.

 Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui. Além.
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente.
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder pra me encontrar.

IX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003

 Os cascos enfaixados

Para que eu não ouça
Teu duro trote.
É assim, cavalinha,
Que me virás buscar?
Ou porque te pensei
Severa e silenciosa
Virás criança
Num estilhaço de louças?
Amante
Porque te desprezei?
Ou com ares de rei
Porque te fiz rainha?

XXIX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003

 Te sei. Em vida

Provei teu gosto.
Perda, partidas
Memória, pó

Com a boca viva provei
Teu gosto, teu sumo grosso.
Em vida, morte, te sei.

BAILANDO NO VENTO E NO COSMO ( Zoraida H. Guimarães ), in “Na Passarela do Tempo”: Riomar, 1997.

 Eu sou essa música

que ouves em surdina
nas máquinas do tempo.
Eu sou esse perfume
finado, mas vivo
que o vento trouxe
para reavivar a tua memória
Sou a beleza sonhada
da nossa história
que não foi vivenciada
pelos nossos sentidos.
Eu sou essa alma sozinha
que baila no vento
à espera de abraços
Sou música em surdina
sou perfume e beleza no espaço,
sou o teu sonho mais lindo de outrora
que agora te chama
em forma de rima
Vem comigo, o sonho recordar
e se a música te anima
o vento te ensina:
– aprende a amar!

IDOS SIDOS ( Darcy Ribeiro ) , in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 Que é que fiz, não fiz, de mim?

Que é que fiz na vida, da vida?
Quem sou eu? Esse eu que me sou.

Minhas mãos me pendem soltas.
Inúteis para fazimentos.
Só servem para escrever, acarinhar.

Não sei dançar, nunca soube.
Olho, idiota, o céu estrelado.
Não conheço estrela nenhuma.

As árvores, tantíssimas, que vi.,
Recordo inumeráveis, enormíssimas,
Não sei quem são.

Diante das flores me extasio.
Tolo, só reconheço rosas, orquídeas, cravos.
A música clássica me atordoa, cansa.

Quem sou eu, septuagenário,
Que esgoto meu tempo de me ser aqui?
Insciente, perplexo, inexplicado.

Só cheio de saudades de mim.
De tantos eus que fui. Sidos. Idos.
Somos descartáveis, sei, mas dói.

MIM ( Darcy Ribeiro ), in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 O tempo transcorre em mim

Celeremente. Tão afoito que finda.
Acho que sei, afinal, a que vim.
E já me vou. Uma pena.
Não há tempo mais pra mim.
Volto à silente matéria cósmica
Que em mim, um dia, se organizou
Para me ser. Uma vez, uma vez somente.

FAGULHAS DE MEMÓRIA (Darcy Ribeiro), in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 O cacho de bananas amarelíssimas, que meu avô tirou do armário preto de papéis cartoriais.

A velha naturalista estrangeira, meio surda, se fazendo carregar pelos índios, de aldeia em aldeia.
Uma légua de piranhas mortas, dourando a baía ao amanhecer
de não mais ser, nem estar, jamais aí.
Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não.

À VIDA (Marina Tzvietáieva) “Poesia da Recusa”. org. e trad. Augusto de Campos. Editora Perspectiva, 2006

 Não colherás no meu rosto sem ruga

A cor, violenta correnteza.
És caçadora – eu não sou presa.
És a perseguição – eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes, o corcel

Árabe.

MENINA PASSARINHO ( Cátia de França )

 Passarinho atrepado nas cajazeiras

Cantavam pra ela lindas sinfonias
E ela não queria, não chegava e não mudava
Sorrindo se escondia, cantava
Cantava também
Cantava também

Chovendo canivete, fazendo temporal
O nosso amor, eu sei
É um eterno carnaval
A conta évinte dias
Pra se amar e se tocar
Demora vem o enjoo
Ave danada em pleno voo

Assovia na cumieira
O vento da separação
Amor bom é nosso
Que sabe aceitar
A hora da apartação

Estrada que se cala
Moça, passarinho
Segue seu rumo
Que sigo meu caminho
Gente como nós
Não tem nada a temer
Se a vida é isso mesmo
A gente tem é que viver

A vida é quem ensina
E me fez tomar sentido
O sabiá na moda
Escurecer seu gorgeio
A brisa reservada
De baixo dessas asas
A emoção preservada calada
Debaixo de meu seio

O TOQUE ( Paulo Coelho & Rita Lee )

 Abri a janela

Um som diferente entrou
Meus olhos mudaram, eu sei
Ou foi o sol que mudou, babe

O som das nuvens
A conversa do vento
A voz dos astros
A história do tempo

O som das estrelas
A música do luar
Contando em segredo, eu sei
Contando todo o meu medo, babe,

O som das flores
O murmúrio do céu
Me deram um toque
Quem tem ouvidos que ouça

Você é uma criança do universo
E tem tanto o direito de estar aqui
Quanto as árvores e as estrelas
Mesmo que isto não esteja claro para você
Não há dúvidas
Que o universo segue o rumo
Que todos nós escolhemos

11/01/2026

POR QUE DEIXEI O JARDIM ( Ama Codjoe )Tradução: Nelson Santander

 Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulher

suturada por um tipo de sabedoria.

Ao longo do dia eu me movia como se caminhar não fosse diferente
de cair. Eu possuía os buracos
e o céu crivado. Eu não tinha absolutamente nada.

Mesmo à distância,
eu conseguia ouvir o disco pulando.
O tempo escorria
das mãos. Dos rostos.

Na primeira vez em que um amante traçou
minha cicatriz, acariciou seu rio
e beijou seu sulco, acordei cedo
na manhã seguinte e, silenciosamente, parti.

AMOR À NATUREZA ( Paulinho da Viola )

 Relíquia do folclore nacional

Joia rara que apresento
Nesta paisagem em que me vejo
No centro da paixão e do tormento
Sem nenhuma ilusão
Neste cenário de tristeza
Relembro momentos de real bravura
Dos que lutaram com ardor
Em nome do amor à natureza

Cinzentas nuvens de fumaça
Umedecendo meus olhos
De aflição e de cansaço
Imensos blocos de concreto
Ocupando todos os espaços
Daquela que já foi a mais bela cidade
Que o mundo inteiro consagrou
Com suas praias tão lindas
Tão cheias de graça, de sonho e de amor

Flutua no ar o desprezo
Desconsiderando a razão
Que o homem não sabe se vai encontrar
Um jeito de dar um jeito na situação
Uma semente atirada
Num solo tão fértil não deve morrer
É sempre uma nova esperança
Que a gente alimenta de sobreviver
Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

PECADO CAPITAL ( Paulinho da Viola )

Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval!
Na vida de um sonhador
De um sonhador!
Quanta gente aí se engana
E cai da cama
Com toda a ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou.

Mas é preciso viver
E viver
Não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí!
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão!
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão!

10/01/2026

CAMBAIO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Eu quero moça que me deixe perdido

Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha idéia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia

Desejo a moça prestes
A transformar-se em flor
A se tornar um luxo
Pro seu novo amor
Moça que vira bicho
Que é de fechar bordel
Que ateia fogo às vestes
Na lua-de-mel

Eu quero moça que me deixe maluco
Moça disposta a me deixar no bagaço
Essa moça zanzando na minha raia
Eu quero moça que me chame na chincha
Com sua flecha que me crave um buraco
Na cabeça e não saia

Que não abaixe a fronte
Que vai por onde quer
Que segue pelo cheiro
Quero essa mulher
Que é de rasgar dinheiro
Marido detonar
Se arremessar da ponte
E me carregar

Vejo fulana a festejar na revista
Vejo beltrana a bordejar no pedaço
Divinais garotas
Belas donzelas no salão de beleza
Altas gazelas nos jardins do palácio
Eu sou mais as putas

09/01/2026

ZAMBI (Vinícius de Moraes & Edu Lobo)

É Zambi no açoite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer, ei!
Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
É a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi.

Chega de viver, ê
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-zumba, ei, ei, ei, vai fugir
Vai lutar, tui, tui, tui, tui, com Zambi
E Zambi, gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui
Mesmo chão

Vem filho meu
Meu capitão
Ganga-zumba
Liberdade
Liberdade
Liberdade
Vem meu filho

É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí

Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi 


AVE CORAÇÃO ( Clodomir Souza Ferreira & Zeca Bahia ) do disco "Beleza"

 Eu sei que existe por ai uma andorinha solta

Procurando um verão que se perdeu no tempo
Cansou de ser herói do espaço
E quer a companhia de outros pássaros
É que seu coração de ave, não agüenta tanta solidão

Eu sei que eu ando por ai, sou andorinha solta
E nem sei a estação em que estou vivendo
Não quero ser herói de nada
Só quero a companhia de outros braços
É que meu coração de homem, voa alto como um pássaro

08/01/2026

TU TENS UM MEDO (Cecília Meireles) in Poesia Completa

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos
Enganados
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor
 E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

AMÉM ( Cecília Meireles )

 Hoje acabou-se-me a palavra,

e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!

A profusão do mundo, imensa,
tem tudo, tudo - e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens, com os santos,
consigo, com Deus. E ninguém
entende o que se está contando
e a quem. 

Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.

RETRATO ( Cecília Meireles ) in Viagem; 1939.

 Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

MURMÚRIO ( Cecília Meireles )

 Traze-me um pouco das sombras serenas

que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

REINVENÇÃO ( Cecília Meireles ) in Vaga Música; 1942.

 A vida só é possível

reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas.
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo— mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço.
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

ÍSIS ( Cecília Meireles )

 E diz-me a desconhecida:

"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! 

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! "
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados. 

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera.

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura. 

Tudo em volta sente medo.
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo.

Lá me vou, sem despedida.
Às vezes, quem vai, regressa.
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa".