01/02/2026

LÍQUIDO ( Flora Figueiredo ) in "Calçada de Verão". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

 Teu beijo é tanto 

é tamanho 
que nele me dispo, 
me banho, 
me adoço. 
Deixo no pescoço 
uma gota ativa 
pra te manter molhado 
enquanto posso. 
Essa umidade me conserva viva.

JÁ ( Flora Figueiredo ) in "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987

 Segure o beijo antes que acabe, 

que o amor desabe, 
que a aurora canse. 
A vida tem nuances não entendidas. 
Adere esse momento no teu peito e goza. 
Aspira fundo o âmago da rosa 
antes que ele se desloque, 
desapareça, 
desencante. 
Antes que a flor desaconteça, 
bebe o cerne quente desse instante.

INDOMÁVEL ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Sem água morna, 

sem pedra mole, 
nem fogo brando. 
Amor quando chega, 
tem que vir arrebatando, 
virando a mesa, 
rompendo a porta. 
Amor que se preza 
agarra a vida na marra 
e desentorta; 
abraça a hora com força 
e desamassa. 
Vem certo de ficar, vai indo embora; 
vem pensando em partir, mas vai ficando. 
Sempre confundindo, é certo - errando 
que deixa tudo fora do lugar. 
 e quanto mais o peito resistir, 

o tanto mais vai explodir de muito amar.

DUPLICIDADE ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Eu te pressinto 

correndo a meu lado 
e te admito. 
Gosto do teu sorriso sem conflito, 
tua trança 
que balança frouxa contra o vento. 
Acostumei-me a te levar comigo 
pelos meus sucessos 
e nos contratempos. 
Eu me desculpo pelos meus excessos. 
Há espaço pra nós duas, 
suficiente 
para poder te manter irreverente, 
apoiada 
na minha metade equilibrada. 
Assim me encosto 
na textura sem rugas de teu rosto. 
Se houver um quase nada 
de divergência, 
é melhor prevalecer a tua inconsequência, 
que é nosso lado mais sadio. 
Se por acaso houver um desafio, 
há de vencer-me a ingenuidade 
que evaporou no tempo, 
que decorou nos tons da meia-idade 
Mas, quando um dia confrotarmos 
nossas diferenças, 
quero que se sobreponha 
por sobre minha face mais tristonha 
a tua liberdade mais traquina. 
Eu te dou a mão num gesto de ternura, 
porque te quero sábia, 
porque me quero pura. 
Meio mulher madura, 

meio menina.

CONSELHO ( Flora Figueiredo) in "O Trem Que Traz a Noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

 Nunca chore um insucesso. 

O que pode parecer um abscesso, 
também pode servir de recomeço. 
Agarre o desaponto pelo avesso, 
apare as pontas, corte o excesso. 
Mude a covardia de endereço, 
ponha a escavadeira em retrocesso 
até que o mundo, esse réu confesso, 
lhe devolva seu mel e seu apreço. 
Uma vez retomado esse processo, 
devolva-me o sorriso que mereço.

Por Jorge de Sena

 Que coisas se fariam - tão de seios

redonda e esbelta aqui sentada e loira
e lendo um livro idiota à minha frente!
As pernas que se juntam quanto abri-las
a duras mãos com dedos titilantes
para depois se unirem apertando
em húmidas paredes o que se entesa vendo-a ...
E ah como a boca se arredonda rósea!
E os dedos que são esguios, serão sábios?
Tão sábios como os meus e minha boca?
Que loura juventude nem me vê - quem pode
envelhecer sem raiva aos olhos dela,
se de alma e de entre pernas se é tão jovem sempre?

Por Jorge de Sena

 -Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi.

-Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos.
Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.

Por Jorge de Sena

 A desenhada imagem como forma que

Se forma no tecido distendido por
Recurvas fímbrias que de forma criam
O arredondado abrupto do pequeno seio.

Um seio que se alonga e se projecta
Em desejado enigma de se erguer em pêndulo
Que horizontal balouça contra as leis do peso
Ao resto suspendendo sobre o espaço vago.

Do róseo olhar que cego e mais obscuro
Só por promessas fita escorrem gotas
De alva humidade opaca a boca lambe-as
Antes de os lábios se fecharem nela
Ao gosto abrindo-se (por dentro) à vida
Alimentada em sonhos de a crescer bebida.

QUANTOS NA VIDA ( Jorge de Sena )

 Quantos na vida corpos conheci?

Uns de passagem, outros repetidos, outros demorados
a ponto de não querer já conhece-los ou
conhece-los fazer que mais agudamente
a outros desejasse. É incrível se pensa.
E às vezes descendência de primeiros poderá ter sido.
Que me deixaram? Uma ciência inútil,
tão doce e tão amarga, de saber de mais
como corpos se entregam ou se negam.
Que deixei neles? Uma ciência? Culpa?
Uma memória cínica? Saudade?
ou quando se recordam do amor feito
algum estranho vazio a persegui-los
mais vazio se torna e de vazio estranho?
É isto o conhecer sem nome e sem conversa
em que se estendem corpos antes que o pensar
transforme o amor que é feito
no amor que se apaixona.

VARIAÇÃO PRIMEIRA (Jorge de Sena ) in Variações Sobre Um Corpo, editora Inova,1973.

 Ao sol ardente, ao mar azul, ao vento que

lhes faz vibrar a pele, os deuses dão-se
numa nudez total de agreste juventude
que impudica se exibe e se deseja,
se acaso olhos humanos os espiam.
Promíscuos tombam num tropel de corpos,
de pernas, braços, bocas e cabelos,
ancas e mãos, de línguas e gemidos,
uivos de espasmo, seios e tremuras,
e sexo é tudo o que se entrega e tudo
o que num ritmo seguro arranca
sacões em que se ajusta mais ao fundo
e túrgido se escoa e recomeça.
Torcem-se os corpos, arfam e agitam-se,
soerguem-se e arqueiam-se e descaem,
e pouco a pouco vão ficando plácidos
e como que dormindo na difusa,
anónima e divina confusão final.
De súbito, levantam-se altíssimos
ao pé dos corpos que ainda jazem trémulos.
Mais outros se levantam, se recortam
na luz que irisa a negridão dos sexos.
As gargalhadas tinem pela praia clara
num cascalhar sereno da ressaca
lambendo a areia que, trazida, fica
como suspensa no limiar do vento.
Ao mar acorrem que espadanam breves,
enquanto um só dos deuses se demora
à beira de água e se espreguiça erguendo
ao alto os braços num curvar das ancas
sobre as retesas pernas que espraiada
a espuma molha pelos tornozelos.
Num grito atira-se e mergulha e segue
os outros que são pontos na distância,
ou sombras só de pequeninas vagas
quebrando-se, e ao longe, contra a luz.
Silvos ligeiros, lépidos, irónicos
alisam pela praia o que ficou dos corpos
— areia remexida, vagos moldes
de ancas e torsos, calcanhares e nucas,
e até gotas dispersas de vertido amor.
Promíscuo o amor dos deuses, se os espiam
olhares humanos, sequiosos, turvos,
e dissipado, violento, abrupto.
Apenas o tinir das gargalhadas
subsiste ainda, e na memória o vulto
do deus que se espreguiça à beira de água.

31/01/2026

OS SEIOS DA MULHER ( Lucas Munhoz )

 Morde-lhe os bicos à donzela sem dor.

Bebê-los o leite caindo em minha alvura;
Deixa-me ondear os teus seios que és pura.
Ó fome ardorosa! Que a mim do calor!

O amor, que és tão bela como o sentimento!
A nós da bondade a beijá-la a vertigem;
Decerto a ti, só queres a mulher virgem,
Lamber as duas jovens nos seios do alento.

Que é da volúpia a amá-las a castidade;
Deixo-te a amante a beijá-las a pureza,
Lambe-lhe os bicos d'água como a beleza
Que amas a donzela, que és uma vaidade.

Alça-se os teus calores do amor a amá-lo;
Sabes, a mim hás de sentir-me o perfume
Ó bela mulher! Que me adoças o lume?
Sem veste quente, que és um doce regalo.

Que és da luxúria a beijá-las os desejos;
Mordê-las os seios úmidos do alarde.
Depois a beijá-las a alcova da tarde!
Bebê-las os bicos d'água aos meus arpejos.

O CIRCO MÍSTICO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Não, não sei se é um truque banal

Se um invisível cordão
Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final
Chove tanta flor
Que sem refletir, um ardoroso espectador
Vira colibri
Qual, não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação
Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas num imenso vagão
Negro refletor, flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si
Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

MUDEZ ( Amanda Ionara Farias de Oliveira - Amanda Simpatia )

 Desnude seus pensamentos

O corpo que me pertence

Ou eu pertenço a um corpo

Baby?

 

Qual pecado fatal te mostra meus seios?

Qual banalidade teus olhos reparam?

Caso eu tenha cometido algum mal

Baby, ouça um jazz.

Ligue o blues

E vamos viajar

No imenso azul do céu.

 

As estrelas reparam em nós

Mas nós tampouco damos valor a ela.

Que valor as estrelas têm, baby?

O universo é tão fatídico assim…

Não pode isso,

Faça aquilo.

Qual é o fim, baby?

MARCO TEMPORAL NÃO! ( Mariana Cambirimba )

 (de)marcadas estão as marcas do tempo

nas rugas dos meus pais.

do solo quente e seco

também ficaram sinais.

 

pés rachados,

como a terra violada da ka’atinga:

por bois,

por balas,

por botas.

 

hoje a gente anda no asfalto

concreto acima de nossas cabeças,

mas quando voltamos para casa

meus pais abraçam árvores,

olham para o céu

e são amigos das palmeiras.

 

toda vez que leio um livro de história

ou vejo a beleza das gravuras rupestres no Poty

eu sinto:

dói tudo, nos tiraram tanto…

 

então, vamos gritar

andar em marcha

acolher sementes

e escutar raízes.

 

queremos demarcação,

MARCO TEMPORAL NÃO!

crianças brincando no rio e no oceano,

MARCO TEMPORAL NÃO!

passarinhos voando livres

MARCO TEMPORAL NÃO!

chuvas todo ano

MARCO TEMPORAL NÃO!

tocar nossos pés no chão

MARCO TEMPORAL NÃO!

 

vocês realmente não sabem o que fazem.

perderam completamente a compostura,

esqueceram o que é ancestral:

a Terra.

TRABALHO ANCESTRAL ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 A misericórdia que me alcançou

Não foi a mesma que me espoliou

Menos ainda, a que a igreja me ensinou.

Essa, me amedrontou

Me desterritorializou

Me violentou!

Mesmo assim eu Vinguei!

Porque sou semente.

A Wayra me polinizou,

Em terra arada pela força da tempestade,

aquecida pelos raios do grande Kûaracy,

E do útero da majestosa Tupãna Kunhã, brotei.

Entre raízes, cresci

Delas, muito alimento recebi e me fortaleci.

Essa confluência de forças me fizeram Território.

O mesmo que clama desde os confins da Terra, por justiça!

Se você deseja curiosamente sentir o sabor que tem

O fruto do Trabalho Coletivo Ancestral,

Plante

Regue

Colha

e tenha coragem para comer!

E tu verás,

O quão trabalhoso é deixá-lo assim…

Naturalmente suculento e desejável

Ao ponto de dar vida e morte,  até a quem não mereça!

CUIEIRA ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Nossa mãe

Poder gerador da vida

Útero divino

Minha mãe

Majestosa Mãe Terra

Que nos ensina sobre aparências…

Muitas vezes enganosas

De fel ,vira mel

Curandeira sagrada….

O que não tem serventia, faz ter

Do enfeite traz a cura

Do miolo traz o sumo

E o sumo que é fel

Sem água

vira mel

Mel que cura.

Miolo misterioso

O fogo transforma

De branco amargoso

Em preto saboroso.

Manchas não pode ter

A cura não tem máculas

Três Luas é o tempo

Que precisa

O útero da filha

Para a mãe curar…

Louvado seja, Metindjwynh!

Mejkumrex minha  Mãe Terra!

A VISÃO ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Para onde iremos depois da nuvem cinza

Nós sabemos bem…

Para onde iremos depois de todo sangue derramado

Nós sabemos bem…

Para onde iremos com nossos corpos violados

Nossos pés, patas, peles, penas, couros e cascos em chamas

Nós sabemos bem

Para onde iremos sem as árvores rios e animais

Nós sabemos bem…

E tu?

Para onde irás quando te faltares o essencial que tu mesmo destruístes?

Tu não sabes?

Nós sabemos bem, e isso nos apavora!

ÁRVORE NUA ( Anne Morrow Lindbergh ) in O Unicórnio e Outros Poemas

 Despiram-me das folhas de minha juventude,

levadas pelo vento do tempo, deixando-me
como aos galhos no inverno. Permaneço,
ereta e solitária, a testemunhar outras vidas,
emoldurando outro brilho,
harpa a tocar uma paixão que não é minha.

Minha ramagem, um leque aberto
ao céu, novamente trará
os mistérios desfolhados que tanto amei,
com raízes e ramos igualmente nus,
os galhos que sorvem a chuva ou balançam ao sol
são os mesmos; a sombra e a essência são uma.
Agora que já perdi as folhas tão frágeis,
não há nada mais a cobrir, nada mais a ocultar.

Vida, sopra por mim agora, finalmente despida,
pois me tornei tão frágil e tão destemida!

OLHANDO O MAR, SONHO SEM TER DE QUÊ ( Fernando Pessoa )

 Olhando o mar, sonho sem ter de quê.

Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.

Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

De que me servem a verdade e a fé?

 

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,

Em ruas ou em estradas ou sob ramos,

Temos esta certeza e sempre e em tudo

Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

 

As árvores longínquas da floresta

Parecem, por longínquas, estar em festa.

Quanto acontece porque se não vê!

Mas do que há ou não há o mesmo resta.

 

Se tive amores? Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.

Bebe, que tudo é líquido e embriaga,

E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser

Motivos coloridos de morrer?

Mas colhe rosas. Porque não colhê-las

Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

MULHER CORRENTEZA ( Lidiane Adjú Kariú )

 Tu és água da fonte

É Segredo contido

É água de rios fundos.

 

Tu és água corrente

É a pedra do caminho

É a cantoria de teu encanto

É o encontro de tudo.

 

Tu és a correnteza da água

É o ventre fecundo

É a sacies do mundo.

 

Tu és a corredeira do rio

É o movimento da vida

É o desejo profundo.

 

Tu és água de remanso

É braço de descanso,

É o canto.