01/02/2026

DUPLICIDADE ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Eu te pressinto 

correndo a meu lado 
e te admito. 
Gosto do teu sorriso sem conflito, 
tua trança 
que balança frouxa contra o vento. 
Acostumei-me a te levar comigo 
pelos meus sucessos 
e nos contratempos. 
Eu me desculpo pelos meus excessos. 
Há espaço pra nós duas, 
suficiente 
para poder te manter irreverente, 
apoiada 
na minha metade equilibrada. 
Assim me encosto 
na textura sem rugas de teu rosto. 
Se houver um quase nada 
de divergência, 
é melhor prevalecer a tua inconsequência, 
que é nosso lado mais sadio. 
Se por acaso houver um desafio, 
há de vencer-me a ingenuidade 
que evaporou no tempo, 
que decorou nos tons da meia-idade 
Mas, quando um dia confrotarmos 
nossas diferenças, 
quero que se sobreponha 
por sobre minha face mais tristonha 
a tua liberdade mais traquina. 
Eu te dou a mão num gesto de ternura, 
porque te quero sábia, 
porque me quero pura. 
Meio mulher madura, 

meio menina.