03/02/2026

NO SUMIDOURO ( Maiara Gouveia )

 Ao redor do quarto

migra um cortejo de aves. Não vemos
pois estamos fechados.

Ao redor do quarto
      um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
pois estamos partindo.

Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
pois estamos sangrando.

Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos

a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:

      pois estamos no escuro.

Por Hilda Hilst - in De Ode Fragmentária, 1961.

 O cavalo no vale.

E mais além
O meu olhar mais verde do que o vale
E claro de esperança
E querer bem.

O vento no capim.
O vermelho cansado deste outono.
Os roseirais em mim.
E tudo me parece
Tão tranquilo e leve.

E com muito cuidado
Como quem tem na mão a flor e o quadro

Espero que a paisagem desta tarde

Adormeça
O cavalo no vale
O vento no capim
Os roseirais em mim.

02/02/2026

LEUSEMYA ( Myriam Fraga )

 Aos poucos, devagar,

Como sombras na tarde,
Um arrepio breve, um espasmo.
Sutil e lânguido sob a pele

Escorre em minhas veias
Onde os dentes do tempo desenharam
A rota das ausências e os perigos da noite

E onde chorando, cumpro a solidão
Dos condenados, inexplorado território
Do prazer que não se esgota

Nem mesmo quando a morte, esta canalha,
Vai apagando o sol desse segredo
E lentamente escreve com sua marca
O que vivido ainda não foi e se repete,

Sofreguidão da carne que no tempo,
Entre artérias e músculos e segredos,
Tenta escrever em vão novos roteiros
Neste corpo febril que aos poucos se destroça
Explodindo em violetas sob a pele.

Será a vida apenas este ardor implacável,
Esta salsugem escorrendo das artérias?
Aquele que no escuro se avizinha
Envolto em sombras, o maldito, amor bandido,
Com seus dedos de pianista
Acendendo no teclado a sinfonia do desejo?

Escuros anjos do espaço, sujos anjos do insondável,
Estendam sobre mim as suas negras asas
Para que se faça a luz no oscilante coração
Antes que apague, antes mesmo que apague...

AH, MAR(Aline Rochedo Pachamama) no livro "Pachamama: a poesia é a alma de quem escreve". Pachamama Editora, 2015.

 Eu quero viver deste mar

Vasto, amplo, divino
Mar das minhas canções
O mar que me cega os ouvidos

De suaves todos os tons
De ondas sereninhas
Sereias de areia
E estrelas pequeninas

Meu mar de verde-azul
Invado-te hoje sem medo
Em ti posso navegar
Conto-te os meus segredos

Mar de sal tão doce lembrança
Que amplia anseios da alma
Quero ser tão parte sua
Numa fúria contraditória calma

Sonho meu mar mais perto
Nas areias desenhando versos
E vê-lo da janela do quarto
Quando o sol dele nascer completo

Eu quero Viver deste mar
Embriagar-me deste convívio
Necessidade minha de estar
Inebriada pelo infinito.

O ENCONTRO COM MAKUNAIMA (Julie Dorrico) no livro "Eu Sou Macuxi e Outras Histórias". Caos e Letras, 2019.

 Quando Makunaima me encontrou

eu estava no estéril asfalto da vida.
Em sonho, ele me chamou!

Quando Makunaima me encontrou, soltou um:
– Já era tempo!
Eu concordei.

Quando Makunaima me enlaçou em seu amor,
eu soube que era macuxês.
Makunaima enviou o Ely para me dizer:
– Você é pemon-macuxi!
Eu aceitei.
E agora eu sei:

Eu sou pimenta
panela de barro
cobra
damorida
onça
olho puxado
cabelo preto
cor amarela
Eu finalmente posso dizer, com ternura, que sou macuxi.

Por Beatriz Rocha, da obra A Mulher Grande, Editora Urutau, 2021).

 Peço para apagarem a luz

mas não entendem que são as luzes todas:
do quarto, da rua, das cidades
das estrelas, do universo
pois sou incapaz de sustentar um olhar

E talvez nem toda a escuridão
de um universo sem luzes
seja capaz de
vedar a timidez dos meus olhos
e a aflição das minhas mãos tímidas

De me fazer ser capaz de sustentar um olhar:

das mulheres
deitadas de baixo de mim
na minha cama

das mulheres
deitadas em cima de mim
na minha cama

das mulheres
deitadas de lado comigo
na minha cama

MEADOS DE MAIO ( Irene Lisboa ) in 'Antologia Poética'

Chuvoso maio! 

Deste lado oiço gotejar 
sobre as pedras. 
Som da cidade.
Do outro via a chuva no ar. 
Perpendicular, fina, 
Tomava cor, 
distinguia-se 
contra o fundo das trepadeiras 
do jardim. 
No chão, quando caía, 
abria círculos 
nas pocinhas brilhantes, 
já formadas.

Há lá coisa mais linda 
que este bater de água 
na outra água? 
Um pingo cai 
E forma uma rosa
um movimento circular, 
que se espraia. 
Vem outro pingo 
E nasce outra rosa
e sempre assim! 

Os nossos olhos desconsolados, 
sem alegria nem tristeza, 
tranquilamente 
vão vendo formar-se as rosas, 
brilhar 
e mover-se a água.

CATARINA EUFÉMIA (Sophia de Mello Breyner Andresen) in Dual, 1972. Poema sobre a ceifeira Catarina Eufémia (1928-1954)

 O primeiro tema da reflexão grega é a justiça

E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
 no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

ACALANTO ( Ada Ciocci Curado ) In Acalanto, 1991

 Vai amado. 

Busca por onde quiseres, 
com quem quiseres, 
como quiseres, 
o prazer. 
Até mesmo, 
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor. 
E, 
se por acaso te cansares 
e, 
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares, 
se desejares, 
volta. 
Serei a que conforta. 
Não saberás da dor, 
da saudade, 
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.

SENSAÇÕES ( Isabel Ferreira ) no livro "Todos Os Sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". UEA, 2005.

 Procuro teu corpo lânguido

No encontro teu olhar ao meu
Tão rente meu ser ao teu.

A vista teu olhar me despe
Neste enleio deixo-me vogar em ti
Logo-logo de mim não sinto.

Pinto meus lábios nos teus:
Sinto que não é sonho!
São sensações. Se há ilusão. Que se dista de mim!

NO CAIS DOS AFECTOS II ( Isabel Ferreira ) no livro "O Leito do Silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

 Encadeio a tua escuridão.

Perdido no teu convés, o tempo silente cochila.
Há um estado de silêncios!
A brisa afaga o nosso momento.
Incendeias em pequenos instantes. Acendo o
meu umbral.
No celeiro do amor, o rio é eterno e lento o desaguar.
Sedento, quedo-me à tua espera num leito de rosas!
E assim atraco no cais do nosso ponto do mar.
A canoa ondula e tu fumegas enquanto perdura
a espera!

NO CAIS DOS AFECTOS ( Isabel Ferreira ) no livro "O Leito do Silêncio". Kujiza Kuami, 2014

 Sou um nicho de querências quando tu vens contente!

Chegas! Atracas no meu cais.
Sinto que o teu porto é o meu país...

Imigras em mim. Eu abrigo-me em ti.
Rasgas o meu colo. Flutuas no meu solo...

Há um estranho fulgor nos olhos dos teus olhos.
Levito.
Leio a voz do teu silêncio de querença, inauguro-
-te em suaves brumas.

Eis-me vitrina da vontade!
Atraca no meu rio, rema até à foz.
Não remanches! Não baixes os braços! Nem desperdices
o leme!
Emigremos ao cosmo que nosso!

DE LÍRIOS ( Isabel Ferreira ) no livro "Todos Os Sonhos. Antologia da Poesia Moderna Angolana". UEA, 2005.

 Sacudi a madrugada

Qual amante despeitada
Suportei o sonho promíscuo
 
Palavras na lavra
Oculta da tua boca

Perdem-se nas paredes do teu corpo ...

O despertar
Um prometido

Gilka Machado, em "Sublimação" no livro "Poesias Completas". Léo Christiano Editorial; Funarj, 1992.

O mundo necessita de poesia,
cantemos, poetas, para a humanidade;
que nossa voz suba aos arranha-céus,
e desça aos subterrâneos,
acompanhando ricos e pobres
nos atropelos
das carreiras
de ambição
e na luta pelo pão!

Lavemo-nos das máscaras histriônicas,
tenhamos a coragem
de propalar a existência eterna
do sentimento;
ponhamos termo
a esses malabarismos
de palhaços
falsos
da modernidade,
permanecendo diferentes,
diante da multidão
insensibilizada,
enferma.

A humanidade quer rir de tudo,
porém é alvar sua gargalhada;
foge das tristezas,
mas paira ausente
em meio aos prazeres,
desligada em toda parte,
perdida em si mesma.

O homem anda esquecido
do caminho da fé
que a poesia sempre lhe ensinou.
O homem está inquieto
porque lhe falta a posse das distâncias
que só a poesia proporciona.
O homem se sente miserável
porque a poesia já não lhe enche a alma
daquele ouro inesgotável
do sonho.

O mundo necessita de poesia,
(não importem assuadas)
cantemos alto, poetas, cantemos!
Que seja nossa voz
um sino de cristal,
um sino-guia de perdidos rumos,
vibrando do nevoeiro da inconsciência
do momento angustioso!

Nosso destino, poetas, é o destino
das cigarras e dos pássaros:
- cantar diante da vida,
cantar
para animar o labor do Universo,
cantar para acordar
ideias e emoções;
porque no nosso canto
há um trigo louro,
um pão estranho que impulsiona
o braço humano,
e os cérebros orienta,
uma hóstia
em que os espíritos encontram,
na comunhão da beleza,
a sublimação da existência.
O mundo necessita de poesia,
cantemos alto, poetas, cantemos!

AOS HERÓIS DO FUTEBOL BRASILEIRO (Gilka Machado) (1938). In: PEDROSA, Milton. Gol de letra: o futebol na literatura brasileira.

Há quarenta milhões de pensamentos

impulsionando os vossos movimentos...
na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza

Que os Leônidas e os Domingos
fixem na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil!

Eia,
atletas franzinos,
gigantes débeis
que com astúcia e audácia
tenacidade e energia
transfigurai-vos
traçando com astúcia e audácia
aos olhos surpresos da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido País!

Avante
astros obscuros
sóis morenos...
continuai deslumbrando
as louras multidões
com vossos malabarismos e fulgores
de relâmpagos
humanos!

Em vossos pés magnéticos e alados
paira, neste momento,
o destino da Pátria!

Aos vossos pés geniais
curvam-se, reverentes,
os cérebros do Universo.

Em vossos pés heróicos
depõe um beijo
a alma do Brasil!

ESBOÇO ( Gilka Machado ) in "Sublimação". Typ. Baptista de Souza, 1938.

 Teus lábios inquietos

pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...

NUA ( Maria Eduarda Lima ) in “Carreto” Editora Primata, 2025.

 lembro com saudade

saudades imensas
daquele que me fez tanto mal


tenho acordado
cantarolando músicas
que não sei a letra

sempre às cinco da manhã


antes de dormir
me cubro com lençol
para que fantasmas
não transem comigo
enquanto durmo


a música que ele colocava para mim
aquela que ninguém conhece dos beatles
a única que ninguém conhece dos beatles


ou será que era tudo mentira

FELINO ( Yara Fernandes Souza ) in Sádica Sílaba, Editora Patuá, 2021).

 Ficaram expostas as substâncias.

Lambemos tudo
que permanece sobre os pelos,
quando o poema ultrapassa poros.

Lambemos
lascas de chuva borrando a janela
e o matrimônico anel de saturno.
Em ambas as línguas
nossos noturnos gomos.

Sob a asa do lençol,
a textura amniótica
do teu colo felino,
masculino útero.

Quando tua língua
secou lágrima acre
de minha pupila vertical,
devolvi
a concavidade serena
de guardar.

Em tua papila
me guardas, doce.
Em minha língua permaneces,
verso.

O BATISMO ( Andressa Monteiro ) in “Velho Mundo e Outros Poemas” ; Patuá, 2023.

 enfio o meu seio de frutas doces entre

camadas de areia branca e enterro o desejo
boio em águas redondas de resina
traumatizadas e sem ondas
que me religam as águas de meu batismo

batizar é o mesmo que renascer para o amor estrangeiro?
em repetições estáticas, mando uma mensagem aos peixes:
“devorem-no como ele devorou o meu coração”
que o mar doa até o amor se eximir

LASCÍVIA ( Andressa Monteiro ) in “Velho Mundo e Outros Poemas” ; Patuá, 2023.

 danço molhada

na floresta úmida e tropical
antes da tarde anoitecer

sou pantera
sou boto
e sou formiga

sou mais uma dia

a sua boca é macia como seda e cetim
sou gazela-gazar
e não é preciso ter medo de mim

deite na rede e renda-se
te cavalgo na brisa quente
no suspiro de uma hipnose

ORAÇÃO ( Raquel Naveira )

 Senhor,

Envia um anjo teu,
Que ele entre em minha casa
E tome lugar de honra
Como quem vem para um banquete.

Pode ser Miguel,
Valente,
Arcanjo poderoso
Com toda milícia celeste
Que percorre os ares.

Pode ser Rafael,
Pajem,
Estrela-guia
Que nos acompanha
Nesta difícil viagem.

Pode ser Ariel,
Jeriel,
Nanael,
Qualquer um que desça do céu
E diga que teu reino está próximo
Dentro do meu ouvido.

VALVA ( Lígia Dabul )

 nasciam os pêlos

da perna e as partes
seletas daí nicotina
e a lanugem grudarem
nos beijos

cravaram o solo
na tarde cataram
uns frutos queriam
apenas sementes
calafetar junturas
- os dois inteiros

ESPELHO ( Raquel Naveira )

 Quando olho no espelho

Brilho
E molho os lábios.
Quando olho no espelho
Colho a lembrança de um onda
E seu marulho.
Quando olho no espelho,
Sou pomba capaz de vôo
e arrulhos.
Cansada,
Olho no espelho
e me ajoelho.