13/09/2022

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.


 



11/09/2022

COMO SE FOSSE A PRIMAVERA ( Pablo Milanés & Chico Buarque de Holanda )


De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril.

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal.

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo.

RONDÓ DA LIBERDADE (Carlos Marighella)

RONDÓ  DA  LIBERDADE
(Carlos  Marighella)
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre.
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer. 

SE EU FOSSE UM HOMEM (Regine Limaverde)


Se eu fosse um homem
beijaria minha mulher
cada vez que a minha lança
nela se escondesse,
para lhe contar da explosão
quando tudo acontecesse.

Se eu fosse um homem
o ventre da minha fêmea
seria um regaço,
e os seus seios
fonte que me saciaria a fome,
leite que me sufocaria anseios.

Se eu fosse um homem,
pela mulher me tornaria rei
e, a cada luta que por ela
entrasse, teria uma faca e espada
para cravar no peito dos inimigos
que não amassem a mulher amada.


PEQUENA MORTE (Daniel Tomás Quintana)


Trepe minha língua
Qual um molusco faminto,
Pelas encostas escarpadas
Das suas coxas.
Demorando minhas mãos
Aranhas trabalhosas,
Na curva cinital
Das suas ancas.
Levante minha boca naufraga.
Para a jangada tremida
Das suas mamas,
E andar sem tempo,
Sem urgência alguma,
pelo território fértil
Do seu ventre.
E assim morrer de a pouco,
Extinto exausto.
Para aquela morte.
Pequeno brinquedo.

A JOIA (Lou Ange)

Se uma mulher deixar você penetrar nela
Se ela abrir seu jardim secreto para você
Se ela te der a chave desse lugar sagrado
Então, ofereça respeito a ele.
Isso não é um ato inócuo
Ou apenas um momento maroto.
Este é um momento muito mais divino.
Você pode provar delicadeza
À ternura da Deusa
À natureza selvagem da tigresa.
Você estará o mais perto do seu coração
Você vai sentir todo o calor dela
Este é um presente valioso.
Seja só uma vez que mil vezes.
Com ou sem sentimento
Por todo o tempo ou apenas por um instante
Lembre-se de ser amoroso.
Isso fará de você um amante.
Um amante digno dos melhores diamantes.
Me divertindo desse momento.
Uma lembrança doce e maravilhosa.
O templo da mulher é precioso.
Ele tem o poder de fazer você viajar no céu.
Ele é paixão, criação, sensações
A fonte de vida e inveja.
Um verdadeiro tesouro.
Uma flor com mil sabores.

SABERÁS O QUE QUERES? (Vera Silva)

SABERÁS O QUE QUERES? (Vera Silva)
Não temas amar-me
Nem receies os calafrios que te provoco.
São meros sentimentos
E o egoísmo fica-te mal.
Sou mulher, sou inteira
E amo-te assim,
De uma forma que jamais entenderás.
Não tentes entrar no azul dos meus olhos
Porque te afogarias.
A tua alma já está possuída
Pelo meu coração.
Mesmo que não queiras!
Não me ouças a dormir
Se te sussurro num lamento
Quando estás aqui
E me viras as costas.
Provocas-me e atiças-me,
Afastas-me.
Saberás o que queres?

Eu sei.
Quero-te a ti!

Não sorrias.
Não sejas convencido!
Não fujas,
Escondida ando eu.
Mas apenas de mim.

SOU TUA (Vera Silva)


O meu corpo
Tem toque de veludo
Na entrega carnal
Dos afectos
E desejos incontidos
Que não escondo
Atrás de máscaras
De menina decente.
Sou mulher,
Inteira, completa,
E quero-te
Ávido de mim,
Sedento dos meus seios
E ansioso
Pelo roçar das minhas coxas
Que se abrem para te receber.

Completa-me e mistura-te
Com os fluidos lascivos
Que se unificam
Em matéria
Que anseio receber
Dentro de mim.

Vem.
Sou tua!

25/06/2020

AMÊNDOA AMARGA (Maria Teresa Horta)

AMÊNDOA    AMARGA (Maria Teresa Horta)
.
Este travo inteiro
a amêndoa
amarga
.
A ameixa
a doce a ferver no tacho
.
Esse travo na língua
a fermentar no corpo
.
A febre a nascer
a crescer debaixo
.
Em baixo...
a saia a subir nas coxas
e esse cheiro mais grosso se entreabro
.
Asa pernas os lábios
e o gosto
onde o sabor da amêndoa se torna
mais amargo
.
É esse o momento
o instante exacto
em que tudo se prende
ao gesto sem sentido
.
A calda no ponto
deixa a língua em brasa
.
E eu tiro pela cabeça
o meu vestido.


 

23/06/2020

TESTAMENTO (Alda Lisboa)


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro.

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda.

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus.

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada.
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor.
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora.
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua.


06/06/2020

ABANDONO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )


O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
O que será ser moça
E ter vergonha de viver

Ter corpo pra dançar
E não ter onde me esconder
Tentar cobrir meus olhos
Pra minh'alma ninguém ver
Eu toda a minha vida
Soube só lhe pertencer

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra que

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você

28/05/2020

OLHOS COR DE MEL (Joel Gallinati Heim)

 (Para os olhos de Ana Beatriz)
Teus olhos cor de mel
Brilhando de luz delicada
Senti teu desejo por mim
Provei dos teus lábios
Sabor de pecado e prazer
Devagar fui te descobrindo
Na maciez de tua pele
Passeei por seus belos seios
Senti tuas coxas e pernas
De encontro às minhas
Com carícias tensas
Aos poucos fui te descobrindo
Teu sexo úmido procurado
Por meu sexo duro de desejo
E no abismo entre tuas coxas
Quente a deslizar enfiei
Minha lança dura de prazer
Gemias sob os beijos gemias
E a me espremer ias mexendo
Quadris e sexo em ritmo lento
Minha lança agora prisioneira
O gozo pleno, veio em ondas
Senti teu grito no meu sexo
Explodi em jorros de prazer
Inundando tuas entranhas
Eu esvaído em gozo lá no fundo
Meu doce leite inundava
Tua fenda rósea, escorrendo-te
Entre as coxas, branco sêmen.

VOLÚPIA (Flora Figueiredo)

VOLÚPIA (Flora Figueiredo)
Hoje, preciso de um poema, mais do que nunca.
Que ele seja vitaminado,
tufão e ventania,
clarão e meio-dia,
açúcar e flor-de-maçã.
Que ele traga o cheiro de manhã molhada,
as virilhas úmidas,
o sangue em brasa.
Que lambuze com rimas minha casa,
as veias, a pele,
este coração inoperante.
Hoje, preciso mais do que nunca de um poema
de boca molhada e verso latejante.

ATRAÇÃO (Flora Figueiredo)

ATRAÇÃO (Flora Figueiredo)
Uma proposta que arrepia-me os pelos
e me põe à mostra.
Uma proposta que escorre quente
como serpente fluida pelas minhas costas.
Uma proposta de mel e salitre
que por mais que eu evite,
minha pele gosta.

KIT (Flora Figueiredo)

KIT (Flora Figueiredo)
Trouxe para você
um kit ternura.
Vem composto
de um beijo molhado e aquecido
no ponto ideal.
Para não causar resfriado
nem queimadura de terceiro grau.
Uma mordiscada
para ser usada por perto da nuca,
de preferência sempre perfumada;
um sussurro na orelha,
no lado de trás,
onde o arrepio se satisfaz;
um abraço tão justo, tão justo,
que o coração pode levar um susto
com medo de ser atropelado;
um carinho tão preciso
que lhe faça desvestir o juízo,
e de tal habilidade,
que, a cada recaída minha
de infidelidade,
possa servir como abono.
Um aviso
para ser colado à testa
e em toda fresta que você tiver:
“Tem dono.”

LEITE MOÇA ( Flora Figueiredo )

LEITE MOÇA (Flora Figueiredo)
Aqui que ninguém nos ouça,
ela leva na bolsa
um vidro de desejo comprimido,
rotulado de candura.
Tampado pela censura,
pela Sé,
pelo marido.
Se a rolha cair
e o frasco entornar,
o pecado vai se divertir...
Deve vazar um caldo de ponto apurado
do muito tempo que ficou guardado,
que açucarou depois de pronto.
Vai correr leite de desejo condensado.

FODA (Charles Bukowski)

FODA (Charles Bukowski)
ela tirou o vestido
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?

não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.

dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.

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Por Rupi Kaur

como você faz para deixar
meu fogo selvagem
tão suave que acabo virando
água corrente

Por Rupi Kaur

quero que suas mãos
segurem
não minhas mãos
que seus lábios
beijem
não meus lábios
mas outros lugares

Por Rupi Kaur

você deve ter notado
que estava enganado
quando seus dedos estavam
enfiados em mim
procurando o mel que
não jorraria por você

Por Rupi Kaur

você coloca minha mão
entre minhas pernas
e fala
faça esses dedinhos lindos dançarem pra mim
- performance solo

Por Rupi Kaur

ele tocou
meu pensamento
antes de chegar
à minha cintura
meu quadril
ou minha boca
ele não disse que eu era
bonita de primeira
ele disse que eu era
extraordinária
- como ele me toca

Por Rupi Kaur

só de pensar em você
minhas pernas abrem espacate
como um cavalete com uma tela
implorando por arte

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24/05/2020

EM TEU CRESPO JARDIM ( Carlos Drummond De Andrade )

em teu crespo jardim,
anêmonas castanhas
Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.
(Carlos Drummond de Andrade)