"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
20/12/2023
07/12/2023
POEMA ( Mário Cesariny )
06/12/2023
OS QUATRO ELEMENTOS ( Vinícius de Moraes )
I — O FOGO
O sol, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da Amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.
E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.
E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proibo-a formalmente que prossiga
Com aquele dúbio e perigoso jogo…
E para protegê-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.
II — A TERRA
Um dia, estando nós em verdes prados
Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa
Ei-la que me detém nos meus agrados
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa
Com face cauta e olhos dissimulados
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
Como se os beijos meus fossem mal dados
E a minha mão não fosse mais precisa.
Irritado, me afasto; mas a Amada
À minha zanga, meiga, me entretém
Com essa astúcia que o sexo lhe deu.
Mas eu que não sou bobo, digo nada…
Ah, é assim… (só penso) Muito bem:
Antes que a terra a coma, como eu.
III — O AR
Com mão contente a Amada abre a janela
Sequiosa de vento no seu rosto
E o vento, folgazão, entra disposto
A comprazer-se com a vontade dela.
Mas ao tocá-la e constatar que bela
E que macia, e o corpo que bem posto
O vento, de repente, toma gosto
E por ali põe-se a brincar com ela.
Eu a princípio, não percebo nada…
Mas ao notar depois que a Amada tem
Um ar confuso e uma expressão corada
A cada vez que o velho vento vem
Eu o expulso dali, e levo a Amada:
— Também brinco de vento muito bem!
IV — A ÁGUA
A água banha a Amada com tão claros
Ruídos, morna de banhar a Amada
Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar
Os sons como se foram luz vibrada.
Mas são tais os cochichos e descaros
Que, por seu doce peso deslocada
Diz-lhe a água, que eu friamente encaro
Os fatos, e disponho-me à emboscada.
E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a
A contar-me o que houve entre ela e a água:
— Ela que me confesse! Ela que diga!
E assim arrasto-a à câmara contígua
Confusa de pensar, na sua mágoa
Que não sei como a água é minha amiga.
A MENINA DO MAR ( Sophia de Mello Breyner Andresen )
Sentaram-se os dois em frente do outro e a menina contou:
– Eu sou a menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Uma dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz caldo verde com limos, sorvetes de espuma, salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureiro dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos como eu, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas só servem para nadar. Mas é o meu melhor amigo. Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco.
05/12/2023
ODE ( José Anastácio da Cunha )
Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ansia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gôsto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
LEITURA ( E. M. de Melo e Castro )
é lendo que eu aprendo o que já sei
é vendo que eu entendo o que me rói
é tendo que eu vendo o que me dei
é na merda do nada que o cu dói
como não quer a coisa quero a coisa
o coiso quer a coisa quer a casa
em que penetre o coiso como poisa
no peixe a água e a ave bate a asa
e como como o cono como a cona
e quando como a cona como a cama
de pé de costas ou no bico da mama
mas é vindo que eu vou até ficar
ouvindo e vendo e lendo o mar:
como é belo o que me dás de cu pró ar!
POEMAS ERÓTICOS (E. M. de Melo e Castro)
Dizeres de uma velha senhora
erros certos mau perfume ardor ardente
em minha cona todos se juntaram
os erros e os perfumes tresandaram
que um caralho pra mim não dá somente
foram precisos mil milhões de machos
para dessedentar minha tesura
que se derrete em águas e em lagos
como os não há na bíblica escritura
fodi é certo mas comi do bom
do mau e do pior que dá mais gozo
e do assim assim em qualquer tom
e agora que chega a hora do repouso
não me resigno e quero mais fanfarra
que o osso no osso ainda me dá gozo!
REDONDO CU ( E. M. de Melo e Castro )
De redondo cu
eu cúbica te quero
como cólera química
ou paz comum
que nada tão navega
a tua nádega núbica
de redondo nenúfar
nu furioso
no volume do cu
velo o teu lume
ocioso cio de culher
nos colhões que te encosto
pelas costas
no cu que te descubro
pelo olho
no volume que rasgo
pela vela
do duro coração
na cumoção
de ter-te pelas tetas
culocada na posição
decúbita
culada
da cumunicação
POEMAS ERÓTICOS (E. M. de Melo e Castro)
E de repente a língua se liberta
do peso que teve.
água corre na água.
o corpo livre
e abrem-se os sentidos
no orgasmo da luz
ver e não ver
ouvir e não ouvir
tocar e não tocar
cheirar e não cheirar
sabor e não sabor
tudo é saber
da mesma forma o peso
do não peso
o dar do receber
a posse do poder
como se de repente
as mãos o peito
os pés as pernas
fossem sexos unidos
ou os sextos sentidos
somados divididos






