26/09/2024

DESFOLHADA PORTUGUESA ( José Carlos Ary dos Santos )

Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha mágoa e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida

por mim achada. 


25/09/2024

( Ivo Machado ) in A Cidade Desgovernada, Porto, 2016

Como as raparigas têm segredos,
contas maternas,
náuseas, momentos de crescer
de amor e rosas.
Que sei das palavras?
Num eléctrico a caminho de Massarelos cruzaram as janelas
— jocosas, incontidas, reforçadas —
trazendo a frescura da hortelã
com vernáculos
conduzindo-me de mansarda
em mansarda
como rio ao âmago da condição humana.
As palavras não se querem incensadas
nem ingénuas,
mas cruas,
iluminadas
como o azul da insónia nas janelas.
O que sei, porém, das palavras?


23/09/2024

A CASA ( Adélia Prado )

 É um chalé com alpendre,

forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.

SENSORIAL ( Adélia Prado )

 Obturação, é da amarela que eu ponho.

Pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só.
Espírito, se for de Deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdoo.
Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.

OS LUGARES - COMUNS ( Adélia Prado )

 Quando o homem que ia casar comigo

chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionei o facto.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que ele vem,
eu fecho a porta para a grata surpresa.
Vou abri-la como o fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo.

SAUDADES ( Florbela Espanca )

 Saudades! Sim, talvez e por que não?

Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê? Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

ALMA A SANGRAR ( Florbela Espanca )

 Quem fez ao sapo o leito carmesim

De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!

FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas

 Falo de ti às pedras das estradas,

E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS ( Florbela Espanca )

 Perdi meus fantásticos castelos

Como névoa distante que se esfuma.
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma.
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias.
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas.
Sobre o meu coração pesam montanhas.
Olho assombrada as minhas mãos vazias.

SERENATA À CHUVA ( Rosa Alice Branco )

 Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.

Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto de poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema

HORA DE PONTA ( Rosa Alice Branco )

 Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar

pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto a hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

A ÁRVORE DA SOMBRA ( Rosa Alice Branco )

 A árvore da sombra

tem as folhas nuas
como a própria árvore ao meio-dia
quando se finca à terra
e espera
como um cão espera o regresso do dono.
Nós abrigamo-nos mais tarde ou mesmo agora num lugar
muito distante
onde o tempo recorta
um tapete que esvoaça no papel.
A casa da sombra
é branca e habitada.
Somos nós ainda
sentados ao fogo que o teu sorriso
acende e aconchega
no silêncio que ilumina
a árvore da sombra
para que a noite desenhe
o seu nome visível
e a sombra possa contemplar
Os ramos mais belos e o tronco mais esguio
do seu objecto.
Nesta sombra há um imenso amor
ao meio-dia.
A hora dos prodígios
é feita de segundos do tempo que há de vir
e o horizonte
é a proximidade total da tua boca.

DESDE SEMPRE EM MIM ( Hilda Hilst )

 Contente. Contente do instante

Da ressurreição, das insônias heróicas

Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

ATRAVESSAREMOS JUNTOS AS GRANDES ESPIRAIS ( Hilda Hilst )

 Que boca há de roer o tempo? Que rosto

Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?
Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

TE BAPTIZAR DE NOVO ( Hilda Hilst )

 Te baptizar de novo.

Te nomear num trançado de teias
E ao invés de Morte
Te chamar Insana
Fulva
Feixe de flautas
Calha
Candeia
Palma, porque não?
Te recriar nuns arco-íris
Da alma, nuns possíveis
Construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis:
Palha
Corça
Nula
Praia
Porque não?

VINDA DO FUNDO ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003.

 Vinda do fundo, luzindo

Ou atadura, escondendo,
Vindo escura
Ou pegajosa lambendo
Vinda do alto

Ou das ferraduras
Memoriosa se dizendo
Calada ou nova
Vinda da coitadez
Ou régia numas escadas
Subindo

Amada
Torpe
Esquiva

Benvinda.

EXISTE A NOITE ( Hilda Hilst ) in 'Do Desejo'

 Existe a noite, e existe o breu.

Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

TATEIO ( Hilda Hilst ) in Prelúdios - Intensos para os Desmemoriados do Amor

 Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

AO AMOR ( Lupe Cotrim Garaude )

 O que desejas de mim

nunca o dará o lampejo de um momento,
a conquista de um dia da montanha.
Meu corpo — para ti somente —
deve emergir a cada gesto límpido
e profundo deve ser meu futuro
para reter-te e recriar-te permanente.
Sei que em mim te estenderás, não mais disperso,
em desejo e em procura de teu filho
e que todo movimento de meu ser
será o rumo de teu universo.
E por isso temo. No meu sentimento
sofro por ti. Receio
ser larga a hesitação de meu caminho,
ser um mito a conquista da montanha,
ser pobre e fugaz o meu espaço
na extensão que reduz teu infinito.

OUTONO ( Eugénio Andrade )

 O outono vem vindo, chegam melancolias,

cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas; as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.

22/09/2024

VIDA ( Patrícia Ariza )

 O colete à prova de balas é inútil


a pistola nove milímetros é inútil

o colt wheelie 48 não funciona

o miniuzi é um lixo velho

a única coisa que importa é a vida, irmão

HARPA III - AO SOL ( Joaquim de Souza Andrade )

 Tímida e bela e taciturna virgem

Pelos campos, na zona solitária,
Do mar no isolamento, lá do azul
Banhando a terra de uma luta argêntea,
À matinada sobressalta e foge:
Chama aos seios o manto, os pés retira
Da terra e voa, descobrindo os bosques
Que estremecem, do monte a sombra arranca
Toma à pressa os vestidos que vão soltos
E as grinaldas d’estrelas, fugitiva.
Roda o plaustro de um príncipe, os cavalos
Vêm nevados nos vales do oriente;
Cobre os ares a poeira do caminho
Alva como o pó d’água; se arrepiam
No ninho as aves desatando o bico;
Brisa fresca e geral passa acordando
Os vegetais, o oceano; belas nuvens
De marinho coral, nuvens de pérola
Como a face de um lago os céus abriram;
Estende o colo o pássaro cantando
Por detrás da palmeira, qual pergunta
Aos pastores, ao gado apascentando
“Quem fez este rumor?” desliza o orvalho
Na flor, derrama o vento, o vento leva
Ondulações d’incenso; a natureza
Nas barras da manhã respira amores:
A noiva docemente bocejando
N’alva da noite da esperança longa
Embalada nos berços conjugais.


 

QUANDO A TERNURA FOR A ÚNICA REGRA DA MANHÃ (José Luís Peixoto)

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o principio de uma palavra, para não estragar

a perfeição da felicidade.


 


by Rupy Kaur - versão de Andrea Rivas - Para pais com filhas

toda vez

você conta para sua filha

com o que você grita

porque você a ama

você a ensina a confundir

raiva com bondade

o que parece uma boa ideia

até que ela cresça e

ela confia em homens que a machucam

porque eles são tão parecidos

para você


DISCURSO ( María Montero )

 Uma mulher não tem endereço:

todos os seus lados são profundos

não anseia por formas de retorno
mas sim
um horizonte indefinido
de pássaros centrífugos.

Uma mulher precisa de espanto
da escuridão mantida diante de seus olhos
e não os limites precisos de um espelho.

Uma mulher se espalha no ar.

Uma mulher nunca está sozinha

INTERLÚDIO (Josefina Barrón )

 de novo eu desamarro sua gravata e penduro seu nome

de novo você desabotoa meus seios meus sapatos
e seus desejos ficam loucos emaranhados nas longas tiras de mim
cabelo
novamente atacamos meus pericarpos
firmemente
e sua sombra oblonga se projeta nas paredes da minha barriga
novamente eu desdobro o nenúfar
sobre a água espessa que flui de seus poros
e eu amo a imperfeição da sua anatomia
novamente tivemos um almoço voraz
todo
Eu ando na corda bamba dos seus dentes novamente
Sinto-me triste porque seus olhos irritam a pele sensível do meu pescoço
novamente eu sucumbo aos seus caminhos densos
às suas carícias de um gato alienado
para o seu cachorro lamber
de novo, como tantas vezes,
subimos aquela longa escada para o céu
e por um momento tudo é perfeito
mesmo sabendo que somos perecíveis
e em posição supina fingimos ser nós
mas novamente o tempo nos vence
e rapidamente descemos as escadas
É hora de acabar
com este breve interlúdio
tão breve
o que é perfeito