25/03/2025

VERTENTE ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 Há vozes que vêm para o poema

mas não foram convidadas, surgem
como luz soprada por lábios de um sol improvável,
música inusitada a nascer num jorro que rasga
e fecunda o solo solitário das palavras.
Há verbos que invadem, perfuram o osso
do poema e do poeta — feito o zurrar de um asno,
como em Balthazar, de Bresson — e permanecem
tamanha a correnteza de seu gozo.

HERANÇA PATERNA ( Sônia Barros ) in Mezzo Vôo; Nankin, São Paulo, 2007

 Não nasci sem pai:

ele esperou até que eu nascesse.

Depois,
ao constatar o sexo frágil
de sua quarta frágil-filha-mulher,
ele, o homem forte,
se foi.

Como herança,
deixou-me esta aptidão
para voos interrompidos:

                                eterno fugir
de onde nunca estivemos.

HOMENAGEM AO TEU SEXO ( Zé do Neca )

 Quando nossos corpos se tocam

Mesmo por cima da roupa
Sinto o calor que vem do teu corpo
Misturando ao calor do meu
São gotas do suor
Gotas de quem esperou por esse momento
Agora, as roupas vão caindo
Revelando o sexo nervoso
Sexo endurecido
Sexo umedecido
Mãos que seguram sexo
Mãos que penetram sexo
Línguas que lambem
Sexo que arrepia
Sexos que se encontram
Enfim
Sexo que agasalha
Sexo que desbrava
Acabamos
Me deito sobre teus pelos
Sinto o cheiro do meu sexo,
No teu
Sinto o teu cheiro misturado
Ao meu
Cheiro do gozo supremo
Cheiro do sexo
Que eu adoro

( DES ) PETALAR ( Hamilton Ramos Afonso )

Lembro-me do primeiro dia em que estivemos juntos
sem o constrangimento natural de quem não se conhecia,
não entendia bem o tipo de afecto que tomou conta de nós
já conscientes de ser o amor que nos uniu pelas almas.
Tomei em mãos tratar-te como uma delicada flor
que se quer perpetuar,
juncada de pétalas de flores a cobrir-te a nudez
Pétalas que tratei de retirar lentamente ,
guardando-as entre as estrofes dos meus poemas
Retirei primeiro as que te cobriam o rosto,
o pescoço e os teus belos seios,
até que atingi vislumbrar a tua nudez total
Hoje quando apenas vislumbro a tua ausência ,
regresso às pétalas secas
que um dia perfumaram as estrofes dos meus poemas.


CONCEPÇÃO (Hamilton Ramos Afonso)

Dois corpos desnudados
num abraço abarcados...
um erecto cravo vermelho
penetra
na pura rosa
desflorando-a...


24/03/2025

BEIJOS ( Gabriela Mistral ) ( tradução de Carlos Campos )

 Há beijos que por si sós pronunciam

a sentença de amor condenatória,
há beijos que se dão com o olhar
há beijos que se dão com a memória.
Há beijos silenciosos, beijos nobres
há beijos enigmáticos, sentidos
há beijos que só são dados pelas almas
há beijos verdadeiros, porque proibidos.
Há beijos que calcinam e que ferem,
há beijos que arrebatam os sentidos,
há beijos misteriosos que sugerem
mil sonhos errantes e perdidos.
Há beijos problemáticos que escondem
um segredo que nunca decifraram,
há beijos que engendram a tragédia
de quantos botões de rosa desfolharam.
Há beijos perfumados, beijos tíbios
que palpitam nos íntimos desvelos,
há beijos que nos lábios deixam pegadas
como um campo de sol entre dois gelos.
Há beijos que parecem açucenas
de tão sublimes, ingénuos, de tão puros,
há beijos de traição e cobardia,
há beijos malditos e perjuros.
Judas beija Jesus e deixa impressa
em seu rosto divino a felonia,
enquanto Madalena com seus beijos
deixa força e piedade na agonia.
Desde então nos beijos centelham
o amor, a traição e as dores,
e nas bodas humanas se assemelham
à brisa que passa pelas flores.
Há beijos que provocam desvario
de amorosa paixão ardente e louca,
bem os conheces, são os beijos a fio
que eu inventei para a tua boca.
Beijos de chama que em rasto impresso
sulcos de um amor vedado levaram,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só os nossos lábios provaram.
Recordas o primeiro? Indefinível;
cobriu o teu rosto até corar
e nos espasmos de emoção terrível,
encheu-se de lágrimas o teu olhar.
Recordas-te de uma tarde, do louco instante
em que te vi com zelo e pensamentos sábios,
te abracei o beijo vibrante,
e que viste depois? Sangue nos meus lábios.
Ensinei-te a beijar: os frios beijos
são de impassível coração de roca,
eu ensinei-te a beijar com os beijos
que eu inventei para a tua boca

23/03/2025

CAVALO À SOLTA ( José Carlos Ary dos Santos )

 Minha laranja amarga e doce

meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.
Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

22/03/2025

CADERNO DE APONTAMENTOS - XXVI ( Manoel de Barros )de CONCERTO A CÉU ABERTO PARA SOLOS DE AVE, 1991]

 Depois que atravessarem o muro e a tarde os caracóis cessarão.

Às vezes cessam ao meio.
Cessam de repente, porque lhes acaba por dentro a gosma com que sagram os seus caminhos.
Vêm os meninos e os arrancam da parede ocos.
E com formigas por dentro passeando em seus restos de carne.
Essas formigas são indóceis de ocos.
Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar!

P.S.: Caracol é uma solidão que anda na parede.

21/03/2025

O TEJO É MAIS BELO QUE O RIO QUE CORRE ... (Alberto Caeiro)

 O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

NUM DIA EXCESSIVAMENTE NÍTIDO ( Alberto Caeiro )

 Num dia excessivamente nítido,

Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito

Para nele não trabalhar nada,

Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,

O que talvez seja o Grande Segredo,

Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

 

Vi que não há Natureza,

Que Natureza não existe,

Que há montes, vales, planícies,

Que há árvores, flores, ervas,

Que há rios e pedras,

Mas que não há um todo a que isso pertença,

Que um conjunto real e verdadeiro

É uma doença das nossas ideias.

 

A Natureza é partes sem um todo.

Isto e talvez o tal mistério de que falam.

 

Foi isto o que sem pensar nem parar,

Acertei que devia ser a verdade

Que todos andam a achar e que não acham,

E que só eu, porque a não fui achar, achei.


ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE ( Alberto Caeiro )

 Acordo de noite subitamente,

E o meu relógio ocupa a noite toda.

Não sinto a Natureza lá fora.

O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.

Só o relógio prossegue o seu ruído.

E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu

Quase que me perco a pensar o que isto significa,

Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,

Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa

Enchendo com a sua pequenez a noite enorme

É a curiosa sensação de encher a noite enorme

Com a sua pequenez

E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite

Com a sua pequenez

HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR ... ( Alberto Caeiro )

 Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

 

«Constituição íntima das coisas»...

«Sentido íntimo do Universo»...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em coisas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das coisas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

 

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL( Alberto Caeiro )

 O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar


SE EU FOSSE O TEU POEMA ( Cláudia Moura )

 Ah se eu fosse poema

Haveria de te degustar amada minha
Inteira tal como um trago de aguardente bem velhinha,
Sugar teus poros como aquele que se excita
Na prostituta mais imunda torneando a estrada
Como se torneasse teus mamilos
E ainda que viessem ninfas e
Orquídeas pelo meu sexo acima
Que me importaria!
Que teu corpo fervilhasse sevilhanas
Pelo dorso das colinas
Enquanto em ti esfinge amada
Saboreasse a doçura do mel.
Ah meu amor, se eu fosse poema
Não haveria fome,
Tua camisa de algodão seria puro cetim
Jamais chorarias pelas crianças que não consegues enlaçar
Enquanto me renderia ao campo de papoilas
Que trazes no olhar.
Sabes mulher,
Se eu fosse poema, o teu poema
Inaugurava-te para sempre êxtase
Meu leito de rio.

20/03/2025

SOU ( Carol Ortiz )

Sou!
Enquanto a noite não dorme, o papel devora minhas angústias
Gosto de mergulhar
Profundamente 
nas pessoas
Sou intensa
Sou febril
Sou leal 
Sou o que sou
Não gosto de jogos
Não faço rodeios
Não sigo regras
Não minto
Não tenho amarras
O tédio
o mesmo
o raso
o fraco 
não cabem na minha vida
Sou um pouquinho de doçura 
Mas não sou pra qualquer um
Minhas asas já quebraram
E, meu amor, 
Você tem minha marca
Cravada na alma
Minha intensidade feminina
Transbordou em você
Não adianta correr
Existo na sua essência