25/07/2025

A CONCHA E A VIRGEM ( Antônio Gonçalves Dias )

 Linda concha que passava,

Boiando por sobre o mar,
Junto a uma rocha, onde estava
Triste donzela a pensar,

Perguntou-lhe: — "Virgem bela,
Que fazes no teu cismar?"
— "E tu", pergunta a donzela,
"Que fazes no teu vagar?"

Responde a concha: — "Formada
Por estas águas do mar,
Sou pelas águas levada,
Nem sei onde vou parar!"

Responde a virgem sentida,
Que estava triste a pensar:
— "Eu também vago na vida,
Como tu vagas no mar!

"Vais duma a outra das vagas,
Eu dum a outro cismar;
Tu indolente divagas,
Eu sofro triste a cantar.

"Vais onde te leva a sorte,
Eu, onde me leva Deus:
Buscas a vida, — eu a morte;
Buscas a terra, — eu os céus!

24/07/2025

FICA COMIGO ( Eduarda Chiote )

 Mãe,

arqueia os joelhos
para que o crepúsculo do medo
possa ceder ao berço
onde repouse.
E não me toques. Não me toques,
não me beijes.
Deixa-me permanecer aninhado no vazio
qual bicho de
sono.
Não me despertes.
Mãe, sou um menino de leite.
Apaga o seio.
Fica comigo: a noite
começa.

23/07/2025

Alexandra Santos, in Palavras Sussurradas, Chiado Editora, 2014

 Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te

Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado
Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado
Sinto que queres ser minha como eu ser teu
Sinto que és a rainha deste plebeu
Mas sinto essencialmente a tua pele
Toda ela é a tua essência
Toda ela é a mulher que foste,
A mulher que és, a mulher que amo:
Pele madura, vivida,
Repleta de marcas do tempo,
Perfeita para mim;
Pele suave, sensível,
Propensa a arrepios,
Beijada até ao fim
Pele é tua é minha é nossa
Onde a tua termina, a minha começa
Quando a tua sente frio, a minha te aquece
Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece
Não preciso de mapa para me orientar
Mas na tua pele ainda me posso perder
Em cada cicatriz, em cada recanto,
Em cada sinal, em cada encanto
Pele com pele, eu sinto o teu aroma
Pele com pele, o nosso único idioma

ENTRE A SALIVA E OS SONHOS ( Alice Vieira )

 entre a saliva e os sonhos há sempre

uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

PROFUNDO AZUL DA NOITE ( Ana Oliveira )

 O azul que me veste as mãos por dentro

é ainda o profundo azul da noite

em que bebi no sal da tua pele

o branco aceso do meu corpo

e o silêncio da aragem miúda

que antes da chegada do vento

te havia de romper os olhos

em lágrimas de espanto e sede

pela sombra dos meus dedos.


ANJOS CAÍDOS ( Ana Luísa Amaral )

 Neste palco de sol,

de repente:
os teus lábios:
anjos caídos mas abençoando

Cada curva e tremura
dentro do nervo exacto
da memória

Por esses lábios
eu faria tudo:

rasgava-me de sangue
e inocência,
partia com as mãos vitrais
e estrelas,
desintegrava o sol

Já não anjos caídos
os teus lábios,
mas deuses transportados
pelos meus

HÁ TARDES ( Carla Pais )

 Há tardes assim. Uma ou outra tarde em que

a brisa se solta das teias do tempo e flui serena
nas margens de um rio como quem caminha
devagar. Muito devagar, ao encontro do aconchego

de uns braços – os teus. Um calor que nasce na tua
pele e se propaga nessa brisa como uma folha
que dança nas costas de um vento brando e pousa
depois no leito doce de um açude, que a beija

e acolhe como uma ninfa. Quero ser folha e dançar
no teu peito, ser a brisa solta que te enlaça e sentir
os teus lábios desenharem as linhas do meu corpo – tal
e qual os flancos beijados por um sal doce além-mar.

ANSEIO - TE ( Lília Tavares )

 Anseio-te pelas palavras roucas e cortadas, pois deixei

por ti as moradas sem vida e sem sonho. Abro-me
como o linho dos lençóis. Amarrotas-me como as
pétalas de uma flor rebelde.

LIVRO ABERTO ( Carlos Campos )

 Quero que tenhas muitas páginas

E versos difíceis de entender
Quero que me digas onde vais
E que nada fique por dizer.

Sei que não há lugares eternos.
Esta cadeira tem horas,
Há ficar e partir.
Há um entardecer
Para os vagares e demoras.
Até pode chover.

Abre e diz-me a teu jeito
Essa página, e outra, e outra,
Mas não, não me toques ainda.

Assim aberto
Fica
Perto
Mas não me toques ainda.

Deixa-me ler até ao fim.
Com os olhos, com o peito
Antes que o vento
Vire a página da decisão.

Quero ser eu
A tocar essas páginas
Que vou ler e anotar.
Mas por agora, quero ler-te
Só ler-te.
Quero amar-te devagar.


21/07/2025

A FELINA E O SEU PÊLO ( András Petőcz )

 O poeta sofre. Diz-se

que é o quinhão do poeta.

 

A causa do seu sofrimento é naturalmente a felina.

A felina negra é com efeito hostil contra o poeta.

Hostil e glacial.

 

A felina está estendida sobre um divã

pára, em frente ao poeta,

lambendo o seu pêlo com voluptuosidade.

 

O poeta sofre. Ele gostaria de tocar

o pêlo brilhante, doce e atraente da felina.

 

A lambidela do pêlo prossegue com indecência.

A felina mostra-se de maneira provocante, depois

salta subitamente sobre a coxa do poeta.

 

O poeta não sabe como prendê-la.

Ele não ousa tocar o pêlo provocante

da felina, tomado pelo medo de uma recusa.

 

O poeta não faz senão sofrer. Diz-se

que é o quinhão dos poetas.

 

A felina negra olha para o poeta com um ar malicioso, depois

ela salta da coxa do poeta, e corre

para longe: mesmo para o fim da sala.

 

Assim vivem eles, os nossos amigos, o poeta e a felina,

numa parte do mundo afastada, num planeta afastado,

num castigo eterno, na tristeza eterna.

 

Porque o poeta sofre. Diz-se

que é o quinhão dos poetas.

(Tradução para português: Maria João Cantinho)

18/07/2025

INSÔNIA ( Iara Maria Carvalho ) in Milagreira, Casarão de Poesia, Currais Novos - RN, 2011

 Tem um poema de tez escura

que não me deixa dormir.

Não,
não tenho medo.

Só as estrelas me espocam dos sonhos.

E se são palavras de negrume
abro a janela e deixo a lua entrar.

MACIEIRA ( Ana Santos )

 Amanheci arbórea,

raízes longas,
um ninho
novo
em cada braço.

(Janela aberta.
Um farfalhar de ramos.)

Eu agito
meu cabelo:
o quarto se enche de maçãs.

COMUNHÃO ( Ilka Brunhilde Laurito )

 Já que me sinto muito digna

de me assentar à tua mesa,
não quero migalhas, não,
eu quero o pão inteiro.

Tu e eu, massa e fermento
em ávido silêncio:
casca e miolo,
o bolo
e o seu recheio

Vem.
Estende os lençóis sobre esta
mesa
com cheiro de suor e de
alfazema.
E vamos trabalhar a noite
e o seu levedo
com as mãos,
a boca,
o corpo aceso,
para que a aurora nos en-
tregue,
ainda quentes,
as últimas fatias de amor
amanhecente
com gosto de café, de leite
e de manteiga.

FUSÃO ( Astrid Cabral )

 Não te quero

assim a meu lado
e sim em mim.
De tal forma
interpenetrados
que eu deixe de ser eu
e tu de seres tu.
Sejamos pois um nós
singular e não plural
trançados sem dó
num só nó.

ESFINGE ( Florbela Espanca )

 Sou filha da charneca erma e selvagem.

Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
E ansiosa desejo – ó vã miragem
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!
E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade
E, à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar
Esfinge olhando a planície enorme.

17/07/2025

NEREIDAS ( Viviane Ka )

 Lá embaixo,

na cidade que pisca,

nereidas de cabelos dourados

não têm o livro,

mas têm o canto

para fundar uma igreja,

seja no mar,

seja no bar.



 

PUTA SAGRADA ( Mariana Guimarães )

 Meu grito é verso,

Na poesia é onde floresço,

Minha voz pode ser doce,

Mas é fina, precisa, às vezes corta, e até sangra…

Meu sangue é o líquido que escorre e faz nascer, faz brotar.

Sou louca, destemida e cabulosa

Minha liberdade é uma reza!


16/07/2025

by Célia Moura

 Porque de vez em quando

a dor,
dói como se fôssemos a pele um do outro,
estremece no silêncio
rasgando todas as madrugadas onde nos salvei.
Que nunca se olvide de ti
o quanto te amei,
o quanto te amarei
esta espécie de condenação feliz
tão à parte de mim,
porém tão minha.
Porque de vez em quando
é preciso sentir o rasgar do sangue,
saborear de novo o odor a cravos e jasmim
ter-te dentro de mim
sem te ter.
Saber permanecer dádiva, decreto e loucura
nesses teus olhos de miúdo sem idade,
renascer Amor
sentir-te raiz.

FIM DE TARDE ( Carlos Campos )

Aí a contemplar o movimento das ondas 

ficas longamente 

à espera do voo da última gaivota 

do derradeiro raio de sol 

como se o mar te chamasse 

repetindo o teu nome no início da maré baixa 

 

De pé, o teu corpo quieto 

como um recorte, plasmado na praia 

como uma antecipação da noite 

como se a noite fosse tua 

 

Quero chamar-te para te ver 

e descubro que quem és tu quem me chama 

e descubro que a noite só tarda 

porque espera o nosso encontro 

para anoitecer 

 

É tão longa esta praia 

tão longos os passos no areal até à água 

nunca mais é tempo 

nunca mais é tarde 

e a tarde não anoitece… 

 

Caminho para ti, passo a passo mais perto 

do horizonte na linha dos teus ombros 

onde o sol se põe 

iluminando ainda a urgência do meu trilho 

É de paz esta vontade de caminhar 

para ti, à espera na linha do mar 

aí, a contemplar o movimento das ondas 

ENTARDECER ( Carlos Campos )

Sobram dias, faltam noites 

Para que a tua voz me detenha 

E a tua pele me acenda. 

 

Sobram dias, faltam noites 

Para que estes meus olhos 

Se libertem desta venda. 

A esperança dos dias 

O silêncio das noites 

São ventos, são murmúrios 

Num solitário dizer. 

 

Enquanto a nossa noite não vier 

Enquanto não acontecer 

Serão apenas mais madrugadas 

Serenos dias de mãos dadas 

À espera do entardecer.


DUAS VOGAIS ( Carlos Campos )

 Apetecia-me um abraço brando 

Uma carícia lenta 

Um beijo longo. 

 

Apetecia-me mais 

Tu e eu duas vogais 

Deitados num ditongo. 


15/07/2025

PODIA SER AÍ ( Nuno Júdice )

 Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo

ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

RECEITA DE MULHER ( Vinícius de Moraes )

As muito feias que me perdoem

Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinente é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37o centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.