27/04/2026

MULHERES ( Angélica Torres) In O Poema Quer Ser Útil; LGE Editora, Brasília, 2006

 Neste início de tarde

fim de manhã do verão

o sol me divide
nas várias mulheres

que me antecederam
e nas que virão

grávidas de luas
na fase obscura

com um abismo
no peito

LÍRICA ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Chegasse antes da hora

Eu te veria
No ato que sempre só imaginei -
Tua forma estólida, absorta,
Possuída
De um saber que livro algum
Jamais te deu.

Sem tocar teu corpo cântaro
Provaria
O sangue da tua meditação,
E aquele rancor sequer perdoado
A um morto
Num amor rebentaria.
Alheio ao teu juízo,
Como quem canta à noite
À boca de um poço
E pela voz de um outro
É correspondido.

Assim eu revelaria
O teu amor aos assassinos
Precipitando-se
Num rosto compassivo
Que me recebe na hora certa

E permite
Que o meu pensamento
Penetre o teu sem relutância
E faça contigo
Irremediavelmente
O que só um poeta faz
Com as palavras.

O AMOR E DEPOIS ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Era esperado que aos poucos

Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse —

E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda —

Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.

DESCOBRIMENTO ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Será como chegar extenuado,

Mas chegar.
Depois de uma viagem
Que foi quase sempre angústia
De se debater num mar adversário

E então o inexprimível
De pisar em terra firme
E ainda ser capaz do passo distraído.
Essa glória de juventude
De se deixar levar

E será algo tão novo
Como se nunca tivesse existido
Nunca tivesse nem mesmo
Sido desejado —

Um caminhar estrangeiro
Por entre o orvalho e a névoa,
Um frescor de primeiro dia,
Um momento sem passado,
A chance de tocar um mundo novo
Como dois azuis se podem tocar
Sem pecado.

PELE QUE HABITO ( Lubi Prates ) in Um Corpo Negro; 3a. edição - Nossa Editora, São Paulo, 2021

 minha pele é meu quarto.

minha pele é todos os cômodos
onde me alimento onde deito finjo
  o mínimo conforto.

minha pele é minha casa
com as paredes descobertas
  uma falta de cuidado
: necessita sempre mais
para ser casa.

minha pele não é um estado
desgovernado.

minha pele é um país
embora distante demais   para os meus braços
embora eu sequer caminhe sobre seu território
embora eu não domine sua linguagem.

minha pele não é casca
é um mapa: onde África ocupa
todos   os   espaços:
cabeça útero pés

onde os mares são feitos de
minhas lágrimas.

minha pele é um mundo
que não é só meu.

O ESPÍRITO ( Natália Correia ) in Poesia Completa

 Nada a fazer amor, eu sou do bando

Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

POR ESTAS NOITES ( Olavo Bilac ) in Poesias

 Por estas noites frias e brumosas

É que melhor se pode amar, querida!
Nem uma estrela pálida, perdida
Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas
Mas um perfume cálido de rosas
Corre a face da terra adormecida .
E a névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:
Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas  um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes .
E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
De um turbilhão de braços e de seios.

O TESTAMENTO DOS NAMORADOS ( Natália Correia ) in O Vinho e a Lira

 Escolhamos as coisas mais inúteis

o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.

DESEJOS VÃOS ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas

 Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza .
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas pisa-as toda a gente! 

CISNE ( Pedro Homem de Mello ) in Adeus

 Amei-te? Sim. Doidamente!

Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente.

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente.

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde... e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas.

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
                           - Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia...

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello ) in Segredo

 Para te amar ensaiei os meus lábios.

Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando.
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando.
E nunca mais vieste!

NO OBSCURO DESEJO ( Vasco Graça Moura ) in Antologia dos Sessenta Anos

 no obscuro desejo,

no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

PRINCÍPIO DO PRAZER ( Vasco Graça Moura ) in Antologia dos Sessenta Anos

 à sua volta os pombos cor de lava

nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol - poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo - fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

26/04/2026

Por Célia Moura, 2026

 Vou embalando

meus pássaros feridos,
sussurrando-lhes Vida
enamorando-me de
suas cicatrizes,
contorcendo-me em
suas agonias,
réstias de outrora
onde vou “perdendo o norte”
de mim.

Vou-me procrastinando,
nesta inquietação embriagada
dos dias,
como quem ousa
mordiscar o tempo.

Como se de mim pudessem
nascer as águas, os rios,
a paz,
e os sorrisos límpidos, lindos
imensos, inocentes…
de todas as crianças mortas,
expostas à insanidade da besta
perante a esquizofrenia global
de um mundo,
assassinadas!

Rasgo-me até ao âmago
enquanto bebo o êxtase
ao quebrantamento
das flores
que já não sei, nem contemplo.

Primícias entre os seios,
ventre mutilado de caxemira
na berma do pensamento
enquanto vais tecendo
murmúrios e grinaldas
em meus cabelos revolvidos
de vento norte.

Que direi, meu amor,
que poderei eu dizer?!

Venho da inquietação dos frutos
e na forja de Deus
continuo embalando feridos,
os pássaros
enquanto das mãos
se derrama incessantemente,
o silêncio
como se me doessem até à loucura,
todas as ausências
e esta procrastinação constante de mim
onde me permito morrer um pouco mais
a cada instante
e me embalam felizes,
os pássaros.

22/04/2026

DIVÃ ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021 ( Para Heidi Tabacof )

 contou o que nem pensava

inventou próprias parábolas
sonhava que era pagã
enquanto a bíblia espreitava
afogada no mar vermelho

comeu o pão que o diabo amassou
(o pão era bom
o cara sabia o que estava fazendo)

queria projetar
uns filmes bacanas do godard
e saiu aquele novelão

Um dia chamou o xamã
o senhor austríaco há de compreender
que ela nasceu mexicana
é claro que entende as mulheres
— este mar aberto de sintomas
o céu, o inferno, o sexo, a terra prometida —
não sabe o que ele não entendeu

com furo por todo lado
seu plano inicial era morrer menos
queria tornar-se inabalável
mas o negócio não era bem assim
e resultou cheia de poros
sismógrafa cismando
a precisão dos cataclismas

sem modéstia
sente-se hoje preparada
até para o que não tem nome
— aos borbulhantes, as borbulhas —
o caminho das eras é eros
o caminho do errante é errar
(palavras dá como beijos
mas como se mede um contar?)

escuta
o amor é o amor é o amor
a dor passa enquanto passa
a maravilha não tem cura

RECONCILIAÇÃO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 depois de tudo

veludo

PRANTO EM MODO CLÁSSICO PELA TERRA PALESTINA ( Fatima Ahmad ) Tradução de Maria Carolina Gonçalves

 Eu vou porque o cheiro da terra ainda me chama,

com toda minha determinação eu vou.
Não vou parar, não vou olhar para trás,
as sombras das vinhas me esperam, não vou olhar para trás,
o cheiro do café fervido ainda está lá, para onde eu vou,
ouço os ecos do arghul me chamando
e, dentro de mim, os poemas dos camponeses no tempo das colheitas.
Como é frágil a vida quando vivemos os poemas no estranhamento,
quando só o que nos separa deles é o cercado que rodeia nossas nuvens,
nossa terra, nosso céu, nossa chuva.


Eu vou para minha aldeia na Palestina.
Ela sente minha falta e eu sinto falta dela.
É um amor nato e latente,
é um fogo que não apaga.
Bissan, Alkármil, Yafa e Safad,
Alquds, Aljalil e Annássira,
deixem-me sofrer, ó cidades,
não chorem por mim, ó cidades,
talvez um dia as lágrimas ganhem asas!

JOGUINHO ( Muna Amassdar ) Tradução de Alexandre Facuri Chareti

 Quem apaga a guerra dentro de mim

e me empresta um pouco de esquecimento?
Quem redefine minha noite
e a dos rebeldes mais eminentes embaixo dos destroços?
Quem devolve nossos passos às calçadas
e devolve a elas seus nomes?
Há alguém que se atreva a beliscar minha bochecha
diante da falta de sono e da fúria do bombardeio?
Alguém aqui corajoso o bastante
para amaldiçoar a guerra escondida em nosso pão?
Alguma janela onde eu reúna as nuvens do fim do dia
e impeça a noite de dar os primeiros passos?
É possível comprar uma língua
e um coração tranquilo?
Quem sabe assim eu possa falar da carnificina
ou apagar, talvez,
o fogo da guerra dentro de mim.

TULCEA ( Maria João Cantinho )

 Tulcea, que agora se afunda

nos braços da noite, deixa atrás de si
o rumor quieto das águas
e a oscilação calma dos barcos,
numa despedida do verão. Deixo
que a noite invada os rostos
e que a escuridão engula as vozes,
que cantam a nostalgia, sem nome.

Adormecerei neste lugar,
em que uma voz
antiga me desperta,
adormecerei, e pouco a pouco,
o mistério do tempo desvelará
as ocultas formas da noite,
num breve murmúrio do infinito.

Em breve cantarão as aves no porto
esperando-te, enquanto
deslizam velozes, madrugada adentro.
Luminescendo o dia.

TEIA ( Laís Araruna de Aquino )

 não há seguro contra o estar no mundo

nem tua casa te previne contra o assalto da existência
as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos
de te trazerem signos do nada
o silêncio acusa que estás no centro de coisas
que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio
o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta
da geladeira mede o intervalo de tempo gasto
e não sabes de que te serviria mais
teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina
em vão um inseto debate-se contra o vidro
não há senão esta só e única realidade

à beira do Capiberibe ou do Nevá

PREFIRO OS DIAS DE CHUVA ( Laís Araruna de Aquino )

 prefiro os dias de chuva

não obstante o eu esbarre na resistência
das coisas que estão aí fora e não dão passagem
os pragmáticos comprariam cigarros
eu imagino a sensação de um trago cálido
e a imagem é mais real que o ato em si
como a lembrança deste dia fundará outro dia maior
sim, prefiro os dias de chuva
posso ficar fundamentalmente só
estendendo a pouca roupa no varal ou aguando
as plantas da casa
os arranhões do mundo não escalavram
a ficha da existência dispensa carimbo
deito no chão frio
isto confere qualquer sentido à falta de sentido
como ter um guarda-chuva no exato momento
em que não tempestua e aranhas
monstruosas assomam no jardim
não pensei sobre o resto do dia
não, pensei e nada resolvi
sobre a longa tarde de sábado
ou um modo novo de evitar o aniquilamento
provocado pela passagem do tempo
porque as possibilidades se desgastam facilmente
no uso da existência
o recurso do sonho
o recurso do prazer
o recurso da indiferença
todos subterfúgios barrados na intrincadíssima peneira do real
mais real que qualquer realidade suposta
no entanto permanecer não é um recurso
é um imperativo de recusa à dissolução
na noite anônima e animal
porque o homem é a negação daquilo
que ele não é
cogito levantar do chão
se eu me agarrasse à aposta de Pascal
escolheria a existência de Deus
e momentaneamente teria um ganho infinito
mas o não - saber cai-me tão pesadamente
como uma fissura impede represar uma certeza
cuja única certeza é pôr-se eternamente em questão
como um homem é uma transitoriedade
no devir de todas as coisas
ah mas este momento e esta chuva
sim, esta chuva e este momento
nada os rouba mais de mim

AS MEMÓRIAS INVISÍVEIS ( Laís Araruna de Aquino )

 caminhas pelas estradas polvorentas da tua memória

recebes o vento pelas costas
algum sopro veio do mediterrâneo e tem a secura do deserto
pessoas cruzam e desaparecem para nunca mais
estás sob o sol asfixiante de junho à esquina da Calle Evangelista
ou passeias no Luxemburgo sob um guarda-chuva chinês
foi este ano ou o passado ou uma década atrás
(agora já contas as décadas)
mas os nomes traem as coisas
falta-lhes o excesso a mancha a impureza
os nomes têm a textura derruída da ausência
e a sua lâmina, uma ponta cega encardida pelo tempo
a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
não é a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
é também o teu ser precário sobre o Capiberibe veloz
e os quadros e arcos das pontes na extensão do azul
sem os nomes as coisas dormem no lago universal
do esquecimento e misturando-se às águas e às algas
destituem-se pouco a pouco como as margens de um rio
tragadas pela correnteza
chamá-las porém não lhes devolveria a face
(vulto que se perdeu ao virar a esquina)
cada coisa porém guarda o seu secreto nome
sob a arquitetura inviolável de um momento extinto

a poesia é – talvez – a tentativa de construir
para esse nome – uma esfinge à luz do dia

NOTURNO N. 3 ( Laís Araruna de Aquino )

 as nuvens estão baixas e cinzentas

como carvão queimado
a lua –
um pingente barato
ou, talvez, a coisa em si, satélite
não apareceu no firmamento
o céu está despovoado –
há no vento um presságio insignificante
quiçá, um barulho nos cômodos do apartamento
mas certamente não um chamado ou um embuste
tudo é excessivo para aquele que busca
colmatar as lacunas –
meu corpo está aberto como uma vala seca de rio,
exposta e indefesa aos vazios que a noite carrega
na transparência opaca das coisas
não chegaremos muito longe
todos os espelhos foram quebrados
desde o expurgo do último metafísico
nossos olhos piscam, confinados em arquiteturas
não virá a nave com que atravessaríamos
as veias escondidas deste breu
mas nunca se sabe a cadência dos meteoros
que podem riscar o céu
não esperes o fulgor de uma eternidade
de que não saberias o uso
a noite é este brilho interrompido –
para nós, que esperávamos a razão total
sob a glacialidade de uma estrela
mas é nesta noite – e não em outra maior
que nos cabe perceber a sua chama pura e inútil,
o seu afago tão largo como o vento,
ó morada transitória do sentido,
onde, por um momento apenas, nossos corações se acalentam
e depois se extraviam

ODE À MANHÃ ( Laís Araruna de Aquino )

a manhã levanta do horizonte

tenho vontade de escrever e a cabeça não dói

está nublado e chove um pouco como se

deus molhasse as pontas secas

do coração entrincheirado da véspera

 

ontem quando olhei o céu estrelado

só pude ver o vazio na cavidade do meu peito

mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade

 

agora a água cessou, um hino se inicia

os pássaros dão glória e se lançam no azul

 

deus abre e fecha a sua obra

ou são os homens que esquecem a criação?

ao poeta cabe apanhar a luz do ser

e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura

e deixa-se permanecer como um estremecimento –

compete atentar para a anunciação,

os raios do sol quebrando numa geometria

concreta sobre a folhagem,

e deixar que a nossa alma se encha

de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas

ou à chegada do sono após a exaustão

às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos

e sentimos exalar a tristeza da finitude

mas damos graças – ou deveríamos dar –

 

por ter acontecido de estarmos aqui

como um lampejo entre os dias e a noite,

entre um afeto e uma cicatriz,

entre Sêneca e Walser,

as flores do campo e o estio,

sendo por tudo tocados nesta alternância

e a tudo tocando

 

aconteceu de estarmos aqui,

neste instante fecundo,

salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –

ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo

como a poeira eterna do universo

21/04/2026

A ESCRITA E A ETERNIDADE ( Eduarda Chiote ) in Órgãos Epistolares, Edições Afrontamento, Porto, 2010

 Contra o poder desagregador do corpo

da escrita,
não há realidade, por mais extrema,
capaz de superar
a certeza moral da sua
eternidade. As mãos da mulher permanecem, hoje,
apoiadas na
profunda névoa da
almofada.
No leito, soerguido, ela tenta ainda,
ainda,
uma vez mais, uma vez mais,
deixar-nos uma
mensagem.
Mas a caneta pende, frouxa, dos lírios
dos dedos
como se fora um leve descuido de vento aflorando
das mangas cumpridas
da camisa de noite.
Não sei se, de tão nus, estes
não conseguem mais pensar em fazer ouvir ideias
simples,
tais como as de um poema
poder ser (ou não)
o que o anula no silêncio do pó: ou se todos os seus
não terão contido «mais ciência
que virtude»: e não porque a profanação (e imperfeição)
da arte
lhes não tenha atravessado a discrição e gentileza,
mas porque os traumas,
as proibições,
as doenças,
a loucura,
a loucura, a loucura,
Sylvia,
foi, decerto, o que neles superou
o instante
em que o animal
se afastou – entendendo sermos
sob a terra penosamente
móveis
e mortais.