Volta ela, a inquieta voz, visto a saia do dia, preta com girassóis plantados, aqui e ali, no tecido meio ruço. Gostavas daquela saia, me dizias, a desenhar-me o redondo da anca. Com os olhos mo dizias, com os olhos.
Ai, a seda dos teus olhos e o teu corpo que não se gasta na minha saudade!
Procuro-te, na voz da inquietação, aqui, ali, nos largos, nas esquinas, na areia, em casa, na panela da sopa, nos vasos pendurados no alpendre, nos cantos onde o pó se acumula, entre os móveis ou na curva difícil do fumo do cigarro.
O tempo que não tem retorno, a vida que não se vira, os dias certos, levanta, escova os dentes, escova a vontade de entrar em mais uma volta, mais uma viagem, oiço a vizinha, está quente e é inverno, é verão e não faz calor, pois é, pois é…
Estende-se a conversa ao sol, no varal onde se penduram também as tuas mãos que a minha cintura reclama, onde andas, onde andas?
Onde ficaste perdido, onde fiquei eu e essa menina que fazia vestidos das folhas do castanheiro e das pedrinhas, tachos? E nós, onde? Onde as utopias na tua camisa branca adejando ao vento?
O tempo tudo cura, dizem, e eu repito, em mentira piedosa. A casa e a roupa para lavar e a ferida que arde ainda e sempre e faz regos na alma, a garrafa, o copo da cerveja, um, outro, outro, a procura do abraço, um e outro e outro..
Ai a dor que não se cala!
Ai, o tempo, aos quadradinhos, o teu sorriso irónico e quente, no meio a fome desmedida, da vida, no casco do barco e no pescoço da garça, onde se prende o pensamento e o olhar voa.
Onde tu, onde?