05/10/2025

TEDIO ( Gilka Machado ) (A José Oiticica)

 Principia o verão. Toda a matta tresua.

Quedam-se as aves, a água, as frondes. Calmaria...
Não tem raios, parece uma febrenta lua
o Sol. Brumoso véo o infinito ennuvia.

Creio que grande mal na Natureza actua:
um pleno desalento, um sopôr de agonia.
Muda e immovel, assim, tem a Terra, na sua
attitude, a expressão de quem a Morte espia.

Nem risos de prazer nem ais de angustia: nada.
Dia para o sabôr do Tédio, tão somente.
A atmosphera recorda agua morna e estagnada.

A minha alma, vencida, em meio a tantas maguas,
paira na vastidão tristíssima do ambiente,
como uma enorme náo encalhada nas fraguas.