21/11/2025

SOBRE MULHER GIGANTE AO DESCOBRIR AS GUELRAS (Jade Luísa)

 Eu navego mas não como marinheiro


sim como sereia
possuo a força das ondas
me arrebatam as ondas
me carregam as marés e navego
em lonjuras leves de espuma
de crista de onda

Possuo males e enganos
nunca como homens ou náufragos
eles que têm medo – e organizam simpósios
e enciclopédias de medo
metrificam o medo
ceiam brindam gozam
e celebram o medo
em folhetins em manifestos
em congressos do medo

Eu não naufrago – tenho guelras e seios
minha ciência minha arte
meu alimento meu sexo
são ancestrais:
aprendi com a minha mãe
que aprendeu com a mãe dela
que aprendeu com a mãe dela
os segredos da vida e da morte

E como sereia ainda me faço feia
bela apenas pra quem me toca
lhes nego então a dor feia dos olhos
a dor das orelhas
a dor dos dentes
e chupo seus dentes, os faço azul

Pois como boa sereia, azul e feia
ser meio peixe meio guelras
meio mulher mãe irmã
meio morte meio sexo
inteiro seio, inteiro astro,
inteira cais, farol e seio
para todas as que se tocam nas redes
afogadas de cabelos limpos, pretos e limpos
Rede runa redário vivo
Toda vida rebenta [e morre]
no seio das sereias.