Uma, duas, cem, milhares
assim vamos as mulheres por aqui
aqui onde nos coube pernoitar para sempre.
Não importa lugar ou nome
definimos nossa situação
há muito tempo.
Aceitamos o papel que nos corresponde
não importa o status.
Estamos as privilegiadas
e as não privilegiadas.
Estamos:
a funcionária porque funciona
a operária porque operária
a mãe porque mãe
a estéril porque estéril
a dama por dama
a prostituta por prostituta.
Fazemos manobras com o tempo
ligadas a esta inercia
que chamamos vida
porque sendo mulheres
temos que aceitá-lo
porque são leis para mulheres
feitas por homens
o que mais nos resta?
Nos temos como magras e gordas
umas por beber muita água
outras por tomar leite e cereal.
No dia das mães
umas temos frio
outras temos calor,
no dia da mulher
umas temos risos
outras satisfação.
Estamos as poetas acadêmicas
e as poetisas da rua.
Estamos as que vendemos rosas
em uma floricultura elegante
e as que oferecemos cravos
em uma esquina de banco.
Nós, que somos anônimas
do amanhecer
e nós outras borbulhas de fome
nós somos essas – à que nos vende
e às que nos protegem
até os 80 anos.
Somos a esposa ignorada
em um centro noturno
e a empregada seduzida.
Todas somos nós
a cada um o seu
assim foi repartido
sem que pudéssemos escolher.
Estamos as amarguradas
e as indiferentes
as antissociais
e as socialíssimas
as que damos de comer a nossos filhos
em colherinha de prata
e as tragicamente miseráveis
que damos nossa prole
às amas-de-leite e traficantes de crianças.
Nós as que sempre calamos
e esperamos
as que temos motivos
para gritar
e não esperamos por nada.
Estamos as saudáveis
porque temos um gato em casa
e as enfermas
por uma existência solitária.
Somos muitas as que bebemos champanhe
e muitas as que bebemos cachaça
as primeiras ancoramos na cama
com lençóis de seda
e as segundas
em uma escondida e úmida calçada.
Estamos as feministas associadas
e as lésbicas reprimidas
muitas assistimos ao Catecismo
e outras erguemos os olhos
para ver Deus.
Assim vamos nós todas
nós, essas tipas
todas somos mulheres indestrutíveis
nada nos detém
não importa se somos advogadas
se somos verdureiras
médicas, doceiras
professoras, camponesas
atrizes, pintoras
esposas, amantes
primeira dama
ou última dama.
Um ventre nos une a todas por igual.
Somos as que motivamos
todos os sentimentos
ternura, delicadeza… amor
mesmo que haja em cada uma de nós
uma gata furiosa
ou uma gata submissa.
Somos as que estamos paradas no tempo
e pulsamos… pulsamos… pulsamos!
somos rio, mar
selva, sol
lua e pulmão
somos pátria!
– Eu sempre pensei
que Honduras tem nome de mulher –.
