21/08/2026

TU ME QUERES CASTA ( Alfonsina Storni ) tradução: Osvaldo Orico

Tu me queres alva,

me queres de espuma,

me queres de nácar,

que seja açucena

mais casta que todas.

De perfume suave;

corola fechada.

Nem raio de lua

filtrado me toque.

Nem a margarida,

seja minha irmã.

Tu me queres nívea,

tu me queres branca,

tu me queres casta.

 

Tu, que as taças todas

já tiveste à mão.

Os lábios corados

de frutos e mel.

Tu, que no banquete

coberto de pâmpanos,

as carnes gastaste

festejando a Baco.

Tu, que nos jardins

escuras do engano,

lascivo e vermelho

correste ao abismo.

 

O’ tu, que o esqueleto,

não sei por que graça

ou por que milagre

conservas, intacto,

só me queres branca,

(que Deus te perdoe!)

só me queres casta,

(que Deus te perdoe!)

só me queres alva.

 

Foge para o bosque,

vai para a montanha,

purifica a boca,

vive na humildade.

Segura com as mãos

a terra orvalhada.

Alimenta o corpo

de raiz amarga.

Bebe a água das rochas

dorme sobre a geada,

renova os tecidos

com salitre e água.

Conversa com os pássaros,

lava-te na aurora.

E já quando as carnes

ao corpo te voltem.

E quando hajas posto

nos carnes a alma

que, pelas alcovas,

ficou enredada.

Então,—homem puro,—

pretende-me nívea,

pretende-me branca,

pretende-me casta.