26/09/2026

CICATRIZES ( Célia Moura )

Despe-me sem que um só dedo me toque
deixa-me permanecer assim
tal qual sou,
nua perante todos os meus estilhaços
lambendo cicatrizes.
Entendê-las uma a uma,
acarinhá-las como um filho
a quem bateram na escola,
adoptá-las em mim como mãe e concebê-las
vitória.
Não vás já embora,
fica aqui comigo no epicentro do ciclo,
roendo maçãs
olhando-me como se jamais me tivesses visto,
enquanto mergulho no meu ancestral mar de núpcias
para firmar na Luz um novo ritual
trazendo fogueiras ao peito,
gaivotas nos pés e cúmplices sorrisos
tão nossos.
Beija-me sem que eu sinta
teu olhar em minha nudez exposta.
Leva-me contigo no esvoaçar das pombas!