17/10/2026

XXXII ( Alphonsus de Guimaraens Filho ) In Só a Noite É Que Amanhece; Poemas Escolhidos e Versos Esparsos, Record, RJ, 2003

Era um fogo somente. Um fogo frio,
muito lúcido e frio. Entre lembranças,
vi meu corpo perder-se num macio,
leve oscilar de madrugadas mansas.

Vi a casa, o portão. Dormi no rio.
Visitei o caminho. E tive danças
selvagens, cor da lua. Um fogo frio
umedecia o riso das crianças.

Era um fogo, uma brasa, uma fogueira,
uma estrela, talvez. Nele, cansado,
curvei meu corpo doído de agonia

e nada vi senão minha cegueira,
meu grito seco aos poucos deformado,
e a face calma, para sempre fria.