10/12/2016

FUTUROS AMANTES ( Chico Buarque de Holanda )


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você.

A MAIS BONITA ( Chico Buarque de Holanda )


Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar

Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei.

DE TODAS AS MANEIRAS ( Chico Buarque de Holanda )

De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras
Feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
'Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão
De todas as maneiras
Que há de amar
Já nos machucamos
Com todas as palavras
Feitas pra humilhar
Nos afagamos
Agora já passa da hora
'Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

09/12/2016

SE TU VIESSES VER-ME (Florbela Espanca)


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços. 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca, o eco dos teus passos.
O teu riso de fonte, os teus abraços. 
Os teus beijos, a tua mão na minha. 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca.
Quando os olhos se me cerram de desejo. 
E os meus braços se estendem para ti.






BASTAVA-NOS AMAR (Joaquim Pessoa)

Bastava-nos amar.
E não bastava o mar.
E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.

Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

A TUA BOCA (Joaquim Pessoa)

A tua boca. A tua boca. 
Oh, também a tua boca. 

Um túnel para a minha noite. 

Um poço para a minha sede. 
Os fios dormentes de água 
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa 
e a minha língua sorve e canta 
e os meus dentes mordem derramando a seiva 
da tua primavera sem palavras 
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece 
à minha boca. 

As loucas bebedeiras de ternura 
por essa viagem até ao sangue. 

Os beijos como fogueiras. 

As línguas como rosas. 
Oh, a tua boca para a minha boca.

 

A LEITORA ( António Ramos Rosa )

A leitora abre o espaço num sopro subtil. 
Lê na violência e no espanto da brancura. 
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. 
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. 

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento. 

Desce pelos bosques como uma menina descalça. 

Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva 

em chama de água. Na imaculada superfície 

ou na espessura latejante, despe-se das formas, 


branca no ar. É um torvelinho harmonioso, 

um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira 

na sede obscura de palavras verticais. 

A água move-se até ao seu princípio puro. 

O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

A MULHER (António Ramos Rosa)

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

08/12/2016

A TARDE CAI ENQUANTO TE DESPES (JG de Araújo Jorge)


   A tarde morna, sensual, lânguida, no poente
vai descendo de manso, lentamente,
em dobras roxas pelos espaços.
- como a tua camisa quando te despes
displicente
para a ansiedade eterna dos meus braços.

A tarde
presa naquele cume de montanha,
fugindo suavemente, silenciosa,
com a cautela de alguém que espreitasse o horizonte
cheia de receios,
- parece, no teu corpo assetinado e quente,
a camisa cor de rosa
e indolente
que encontrou ao cair a arrogância dos bicos
dos teus seios.

A tarde vai caindo, e vacila, e demora
naquele cimo de montanha
que esbatido no azul das distâncias, agora,
num forte tom vermelho
se ruboriza,
- tal como a tua camisa
toda vez
que indiferente à minha sofreguidão,
roçando em teus quadris, parando em teu joelho,
vai descendo, descendo, em dobras, molemente,
em dobras suaves de seda a desmaiar plisses
sobre o chão

A tarde morna, com seus tons dúbios de luz
fugídia,
tem esse calor distante
esse vago perfume
e esse gesto indolente e cheio de torpor,
- da camisa ao soltar-se dos teus ombros nus
em carícias estranhas,
no instante em que teu corpo, branco como o dia,
encontra nos meus braços o abraço das montanhas
para a noite de amor.







SORVETE ( Asta Vonzodas )


Derrete,
me escorre na língua.
Mas antes,
te quero duro,
te chupar primeiro,
apoiar na base a língua
te envolvendo
em círculos
de baixo ao começo,
inteiro,
provar teu sabor,
envolver-te quente,
derrete. Escorre.
me lambuza os lábios
e chupo, enxugo
com língua gulosa
enquanto se desfaz
tua rija forma
no calor da minha.





XXX (JUNTAS)
( Hilda  Hilst )
Juntas. Tu e eu.
Duas adagas
Cortando o mesmo céu.
Dois cascos
Sofrendo as águas.

E as mesmas perguntas.

Juntas. Duas naves
Números
Dois rumos
À procura de um deus.

E as mesmas perguntas
No sempre pasmoso instante.

Ah, duas gargantas
Dois gritos
O mesmo urro
De vida, morte.

Dois cortes.
Duas façanhas.
E uma só pessoa.






07/12/2016

PARA O SEXO A EXPIRAR (Carlos Drummond de Andrade)

 Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.

Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

DESEJO ( MARIA TERESA HORTA )


Descontrolo devagar
sobre o teu corpo
os lábios de súbito desmanchados

e as mãos não cedem
nos teus ombros
à sede de ter-te nos meus braços

Mas se desfeito
descubro nos lençóis
um suor curvado amachucado

Vou-te mordendo — voraz
numa doença
bebendo em delírio o que me fazes.
 


MORRER DE AMOR ( Maria Teresa Horta )


Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso. 

MULHER NOITE ( Maria Teresa Horta )


Mulher perdida na noite
morena de braços morenos
perdidos

abelhas raras de nuvens
lama lacrada de lacre
mulher cansada de paz
com lágrimas de sangue
acre

de mar perdidos os braços
no bosque
doida doida doida.

de olhos retalhados de guerra
em campos violeta
lavrados de dor
saliva dolente de sol
quente quente quente

mulher ansiosa prolongada nos dias
de seios como luas dolentes
de febre

vagina de chuva atada por tranças
de sombra soerguida nos muros
ventre de morte — morte
palavras roucas roucas de amor
outonos moribundos de ombros
moribundos
garça garça garça

mulher de espamos febris de seda
rasgada
dilacerada dilacerada dilacerada

de sangue lacrado
lembrança ferida de crepúsculos gastos
de afagos fáceis
de sentimentos fáceis

angustiadas flores angustiadas
louras abelhas saqueadas de sexo
beijos fendidos rutilantes de saxe
deusa deusa deusa

mulher perdida na noite
moribunda de mulher
 ferida ferida ferida.

06/12/2016

TUAS  MARCAS
 ( Ângela  Lara )
Tuas marcas
em cada ação dos meus dias
como se tivéssemos convivido anos
sem nunca termos nos visto
tuas marcas
onde nunca tocaste
onde nunca chegaram teus olhos
que dirá tuas mãos
estão aqui
em minha alma
em minha boca
no meu corpo todo
brincando com minha solidão.




DELÍRIO (MARIA TERESA HORTA)


O desejo revolvido
A chama arrebatada
O prazer entreaberto
O delírio da palavra

Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
Dou a ver o infinito.

RUFINO, poeta grego ( Tradução de José Paulo Paes )

RUFINO, poeta grego contemporâneo de Marcial, como hoje é geralmente aceite, viu-se a certa altura colocado em embaraço semelhante ao de Páris no julgamento da beleza feminina, e da situação deixou-nos a história que segue:( Tradução de José Paulo Paes )
Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,
a mim mostradas no esplendor da nudez.
As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam
marcadas ambas por covinhas graciosas;
a nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha
rubor mais forte que a púrpura da rosa;
as da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas,
palpitavam suaves ao seu próprio impulso.
Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas,
Não quereria saber de mais nenhuma.

04/12/2016

MASTURBAÇÃO ( Maria Teresa Horta )



Eis o centro do corpo
o nosso centro

onde os dedos escorregam devagar

e logo tornam onde nesse

centro

os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar
e então são os meus
já os teus dedos
e são meus dedos
já a tua boca
que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca
Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde
E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde
E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios
que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma.

POROROCAS ( Eliane Stoducto )



Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite.

DESEJO ( Asta Vonzodas )

Vem.
Que te espero. Nua.

Não mais ha lugar para o pudor.

Vem. Que te quero, nu.

Fecha-me os olhos com teus beijos,

faz-me sonhar com teus desejos.
Faça-me mulher com teu ardor.
Vem.
Que quero agora
acariciar teu corpo levemente,
beijar-te os lábios, sofregamente.
Sugar tua seiva com minha
boca quente.

Deixar-me penetrar por teu furor.
Vem.
que sou mulher,
te quero homem,
vem.
deixa-me viver esta fantasia
de amor.

SEIOS ( Patrícia Clemente )



Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,

Enquanto tocas com teus pés meus seios.

E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios.


             
COITO (Ferreira Gullar)
Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia.

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e deslisa
em direção a teu sorriso.

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus aneis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode
e se fundem
no gozo
depois
desenfia-se de ti
a teu lado
na cama
recupero minha forma usual.