23/05/2017

CARACAJUS ( Chico  César ) 
A fruta em seus lábios
A alma saindo pela boca
Os lábios de sua fruta calma
Derramando em calda
A polpa.
Apalpo muito pouco a pouco
Palpos dos sonhos mais loucos
Doce o caldo derramado deste engenho
Nunca dentes escorrido
Em gozo.
Fogo na caldeira
Da usina
Fogo na caldeira
Sucos e melaços
Caracajus
Caracajus
Caracajus.
Maracatus de baques vidrados
Dois becos que se cruzam
Ardis de amor e suas fogueiras
Quem afaga o fogo
O frio afoga em chama
Onda de calor surfa
Nos ondes de quem ama.

Vela chama xamã velame
E a barca singra em mares de mim
Essa é a minha praia
Saia ao vento espero
Pastoro.
D'uma duna avisto a canoa boa
Sinto o cheiro que vem de você
E de você que vem
Lança agora tua âncora
Bárbara
Como um piercing no meu peito
Feito lança de arpão.
Estou de um jeito tão porto
E tu tão perto, navio
Lança a âncora e acampa
Semeia em meus campos
As tuas sementes
Rega com suor e gozo
O roçado novo em meus lábios
Sábios de seus beijos
Sequiosos
Secos de sua chuva
Obsequiosos.

Estou em período fértil de ti
Vem comigo maruja
Marulhos marejam meus olhos
E o que vejo avulta
Preenche minha aldeia
Onde sou já terra alheia
A intuir e entoar
Cantos de receber
E dar.





20/05/2017

SONETO DA MULHER AO SOL (Vinícius de Moraes)


Uma mulher ao sol — eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol — eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pelo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente — e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir.

SONETO À LUA ( Vinícius de Moraes )
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

HIMENEU (Vinícius de Moraes)
Na cama, onde a aurora deixa
Seu mais suave palor
Dorme ninando uma gueixa
A dona do meu amor.

De pijama aberto, flui
Um seio redondo e escuro
Que como, lasso, possui
O segredo de ser puro.

E de uma colcha, uma coxa
Morena, na sombra frouxa
Irrompe, em repouso morno.

Enquanto eu, desperto, a vê-la
Mesmo sendo o homem dela
Me morro de dor-de-corno.

MAR (Vinícius de Moraes)


Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

A ELVIRA ( Alphonse de Lamartine ) (Tradução: Machado de Assis)

Quando, contigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda, e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando às solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
— Tão só eu, — teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, — e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?”
Dizes tu. “Vem, confia os teus pesares.
Fala! eu abrandarei as penas tuas!
Fala! eu consolarei tua alma aflita!"
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura coo tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então: "Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas."

O LAGO (Alphonse de Lamartine)


Assim, sempre impelidos a outro litoral,
Arrastados na noite eterna e sem voltar,
Não podemos jamais no oceano ancestral
Um só um dia ancorar?
Lago! Mal findou o ano seu curso diário
Junto às ondas amadas a que ia rever,
Mira! Sento-me aqui na pedra solitário
Onde viste-a deter-se!
Tu bramias assim sob essas rochas fundas;
Ferias-te em ilhargas delas laceradas;
Lançava o vento assim a escuma dessas ondas
Em seus pés adorados.
Uma tarde, recordas? vogando em silêncio;
Longe, sobre onda ouvia-se e sob esses céus,
Só um som dos remadores em sua cadência
Os belos fluxos teus.
De repente sinais a nós desconhecidos
Enlevo ao litoral, ecos a percutir;
Fluxo atento; deixou a voz que me é querida
Tais palavras cair:
“Ó tempo, suste o voo! e vós, horas propícias,
Suspendei vossa via!
Permite-nos gozar as rápidas delícias
Do mais belo dos dias!
“Muitos desventurados aqui vos imploram:
que deslize, deslize
Por eles e que dome os medos que os devoram;
Esquecei os felizes.
“Mas peço em vão alguns momentos para agora,
Foge o tempo a escapar;
E digo à noite: “Seja lenta”; e vai a aurora
A noite dissipar.
“Amar então, amar! nesta hora que desliza,
Depressa ao prazer, vamos!
O homem nunca tem porto, o tempo nem baliza;
Desliza e nós passamos!”
Tempo de inveja, instantes desta embriaguez,
Onde em alta onda o amor verte-nos a ventura,
Voam longe de nós na mesma rapidez
Como dias de agrura?
Pois quê! não fixaremos nem mesmo o sinal?
Quê! idos para sempre? quê! todos perdidos?
Esse tempo que os deu, tal tempo dá final,
Não os terá trazido?
Passado, Eterno, Nada, abismos bem sombrios,
Que fizestes dos dias que vós devorastes?
Falai: nos dareis vós sublimes desvarios
Com que nos encantastes?
Ó lago! rochas mudas! grutas! mata escura!
A vós que o tempo acolhe e pode remoçar,
Desta noite, guardai, guardai bela natura
Ao menos o lembrar!
Que seja em teu repouso, ou em tuas voragens,
Lindo lago, e no ver as risonhas vertentes,
E nos negros abetos e em rochas selvagens
Sobre as águas, pendentes!
Que ele seja no zéfiro que freme e passa,
Nos ruídos das bordas, em bordas repetidos
No astro de fronte prata a aclarar tua face
Com seus brandos luzidos!
Com o vento a gemer, a cana que suspira,
Como em ti, leve aroma em teu ar perfumado,
Como tudo que se ouve, ou vê-se ou se respira,

Dizem: tinham amado!
(Tradução: José Lino Grünewald)




ORGÁSTICO  POEMA (Paulo  Leminski )
A vagina vazia

imagina
que a página (sem vaselina)
a si mesma se preenche
e se plagia.

Essa língua que sempre falo
(e falo sempre)
e distraído escrevo
embora não tão frequentemente
massa falida
desmorona no papel
                               quando babo

e acabada em texto
eu acabo.

HORA (Sophia de Mello Breyner Andresen)
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta — por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

IDADE MÉDIA (Vinícius de Moraes)


Faze com que tua boca seja para mim água e não vinho
E faze com que para mim teus seios peras e não cidras.
Algum dia no teu ventre que eu vejo se estender como uma branca terra fecunda em lírios.
Deixarei a semente de gigantes arianos que atravessarão silenciosamente o Volga
E que as cabeceiras de seda voando, as lanças de ouro voando, cavalgarão doidamente contra a lua.


19/05/2017

ODE A LÍDIA ( Jayro José Xavier, in "Enquanto Vivemos")

Esta súbita chuva que desaba
pela pele morena
de teu rosto
por teu riso por teus ombros
pelos teus longos
cabelos
cai na terra
                — ouve bem —

com o peso, o
doce peso de milénios

Pois verdade é que outra
é a água
               mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro húmido
da terra, mesmo
nas árvores
o áspero, esperado canto
de verão

Tudo, nada mudou

Pois verdade é que outra
é a água
                mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro húmido
da terra, mesmo
nas árvores
o áspero, esperado canto
de verão

Tudo, nada mudou

Bebe pois desta água
                         bebe
bebe com todo o teu corpo
até que toda te farte
bebe
               até que te embriague
a milenar
experiência
do planeta

Bebe e
       (sábia)
colhe nas mãos o momento
que esvoaça
— este breve momento em que
como duas crianças
somos
                   e amamos

O AMOR É O AMOR 
(Alexandre   O'Neill)

O amor é o amor — e depois? 
Vamos ficar os dois 
a imaginar, a imaginar?

O meu peito contra o teu peito, 
cortando o mar, cortando o ar. 
Num leito 
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos 
sem destino, sem medo, sem pudor 
e trocamos — somos um? somos dois? 
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?




HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM
(Alexandre O'Neill)
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes.


16/05/2017

MADREPÉROLA (Judas  Isgorogota)
(para Jayme d′Altavilla)
Guardas no seio teu, em teu ventre fecundo,
Todo o aljôfar sutil dessas manhãs de estio
Que se soltou dos céus e em teu bojo alvadio
Foi bênção exaurir do desprezo do mundo.

E na grata missão, nalma do azul profundo,
Foste a busca da paz, da vanglória, do brio.
E ora volvendo à flor e ora descendo ao fundo,
Dominaste o tritão, venceste o mar bravio.

E eu, pescador audaz, para a labuta infinda
Fui buscar-te, infeliz, em teu supremo exílio.
Mas, à dor que me vem, lá voltarás ainda.

Pois, quisera eu viver nas profundezas cérulas
Do mar, nalma guardando esta quimera linda,
E a saudade de alguém na lucidez das pérolas!

 

DÁDIVA (Angélica Villar)


Ah! Amor impossível
Ter-te por completo meu ser não pretende
Posto que já pertences a outro ser confinante
Isso, meu eu enamorado, sabe e entende
Queria, apenas,  descobrir-te os segredos
Não que a todos minha mente os desvende
Apenas aqueles que nos fossem úteis
Outros, deixá-los-ei  escondidos
Quero-te meu, somente em nossa alcova
Voraz, feroz, faminto.
Degustando a preza como felino
Babando, salivando, provando
Bailar no teu corpo como dançarina
Deter nos lábios o viscoso mel
Banhar-te  todo com duchas de prazeres
Ensaboar-te lento com espumas de delícias
Rendida entregar-me por inteiro
Demonstrando que o que sinto é verdadeiro
E em êxtase prazeroso delirar.
Coração pulsante quase a explodir
Em sorrisos de alegria satisfeito
Maravilhosa dádiva, presente especial!
Porém, dada a hora da partida
Numa tarde gris de tímida despedida
Dura liça, cedo entende.
Na difícil caminhada
Cabelos soltos acariciados pelo vento
Nó na garganta, lágrimas a rolar
E no peito um aperto dolorido
Sufocado de imensas saudades.
 

TEU MENU ( Angélica Villar )


Teus olhos lindos de se afeiçoar
Meu delírio na inquietude do dia
Impossível é se desvencilhar
Desse querer que o corpo arrepia.

Recorro a um lugar distante
Onde há liberdade para a paixão voar
Bebo o  néctar a gotejar  cada instante
Na boca sedenta a te desejar.

Mergulho fundo nesse delírio
Embriagada de tanta paixão
Ah! Lindos olhos são meu colírio
Que arrebata o controle e razão.

Almejo muito ter tuas carícias
E nos teus braços me enroscar
Embaraçada em tuas delícias
Pra no teu corpo me entregar.

Enquanto isso sozinha espero
Minhas mãos percorrem meu corpo nu
Pensar recorre a quem tanto quero
Suspiro e tremo: sou teu menu.
ESCRAVA (Lílian  Maial)
Teu amor me fez escrava de teus desejos
Acorrentada à doce paixão de te querer
Serviçal mais prendada por teus beijos
Submisso brinquedo do teu prazer.

Teu amor marcou meu corpo a ferro e fogo
Açoitou-me em carícias torturantes
Amarrou-me e vendou-me no teu jogo
Extraiu de mim centelhas faiscantes.

Teu amor lanhou-me o peito em carne viva
Deixando o seio teso, o ventre em brasa
Extenuada, por mucamas recolhida
Fui morar na senzala de tua casa.

Teu amor, cruel feitor, prendeu-me ao tronco
Castigando-me, impiedoso, a ousadia
De tentar sobreviver sem teus encantos
De sonhar fugir dessa prisão um dia.

Teu amor, enfim, me libertou a alma
Alforriou meus sofrimentos nesse encontro
Tornou-me livre, santa, bela, calma
Fez de mim senhora, rainha de teu quilombo.
 

OUÇO  TEU  CHAMADO
( Lílian  Maial )
E vou.
Vou inteira, entregue,
Como se fosses a solução.
Permito que me toques,
Que me consumas,
Que me excites.
Vou.
De braços abertos,
De bicos eretos,
De pernas tão soltas,
Envoltas, elásticas,
Fantásticos apêndices de perdição.
Vou.
Aliviar tua dor,
Saciar tua fome,
Alimentar teu calor.
Em desespero, em prece, em coro,
Sem nenhum decoro.
Santa, infante, demente.
Linda, doce, atraente.
Puta, aviltante, indecente.
Mas tua,
Completamente nua,
Com a alma exposta,
Feito chaga cultivada pra durar.
Vou pra te curar,
Vou pra te amar,
Como amam os deuses, os crentes,
Os médicos, os doentes,
Os inconstantes, os carentes.
Vou com paixão, com tesão,
Com a imensidão dos sonhos de posse,
Com soluços, com beijos, com fome,
Dividir com esse homem
A vida e a morte.
 



FRAGMENTOS (Lílian Maial)
Minha melhor parte é doce,
Namorada, carinhosa,
Gosta de dengo, gosta de sol,
Faz beicinho e sorri.

Minha melhor parte é cruel,
Usa e abusa, sem piedade,
Gosta de superar, gosta de brilho,
Faz sofrer e chorar.

Minha melhor parte é feliz,
Dedicada, amiga,
Gosta de cinema e sorvete,
Faz charminho e aconchego.

Minha melhor parte é livre,
Passarinho, peixinho do mar,
Gosta de chuva e de mato molhado,
Faz amor e faz amar.

Minha melhor parte é felina,
Sensual e arisca,
Gosta de cheiros e sabores,
Faz sexo e goza.

Minha melhor parte é criança,
Carente de colo e afago,
Gosta de chocolate e cocada,
Faz bolinha de sabão e estoura no ar.

Minha melhor parte é escondida,
Arredia, acuada,
Gosta de música e paz,
Faz gênero e máscara.

Minha melhor parte já foi,
Estudante, menina,
De ler e de rir,
Bagunça, arte, chope.

Minha melhor parte é agora,
Mulher, segura,
Gosta de cantar e dançar,
Exibe sua forma e sua luz,

E traz consigo toda a verdade
De ser todas.
 



PASSEIO  NO  TEU  CORPO
(Lílian  Maial)
Teu corpo é assim
como uma escultura
entalhada no meu desejo.
Eu te protejo
da minha insensatez
entre beijos e desfaçatez.
E passeio por ti
com a calma dos répteis
serpenteando a presa.
Me finjo indefesa
enquanto vislumbro
o prazer de te lamber.
Me roço na carne
feito coisa paralisada
me arrastando em atritos.
Esquece teus mitos
que minha boca
te abafará os gritos.
Arranho tuas costas
(no fundo gostas)
e te cravo os dentes
(no fundo sentes)
e te confundo
(se toco no fundo).
Aliso teus fios
te dou de provar meu cio.
Afago teus pelos
me emaranho em teus cabelos.
E te faço macho
amando de cima abaixo
louco, livre, réu.
Tua meta é meu papel,
tua atriz,
tua atroz,
tua atrás.




VITÓRIA (Lílian  Maial)
Quero-o para mim
meu bibelô, minha joia
peça rara do meu prazer
quero você!

Ouvi-lo, tocá-lo, imaginá-lo
falar-lhe, abrir-lhe meu peito
possuí-lo em meu leito
quero você!

Viajaria léguas
apagaria mágoas
fingiria hímens
encenaria dramas
só pra tê-lo comigo.

E essa Vitória
distante
não me abateria
não me deixaria
porque eu já seria
então
sua.
 


MEU HOMEM (Lílian Maial)


Meu homem são muitos
São brancos, são negros,
São louros, morenos,
Bem altos, baixinhos,
São atletas, franzinos,
Diplomatas, bandidos,
Arrogantes, tímidos.
São reis, czares, imperadores,
Ou vivem numa câmara de horrores.
Meus homens a mim pertencem
E obedecem cegamente
Cegos que estão de paixão!
São rudes, exalam o cheiro do campo,
Da rocha mais dura,
Da flor mais pura,
Da mão calejada da vida segura.
Também são gentis,
De versos banais,
De cores pastéis,
De óculos intelectuais.
Mas podem ser assassinos
Dos sonhos de vida a dois
Comendo feijão com arroz
Nos pratos feitos do amor.
Talvez preferisse os magos,
Os esotéricos, os ciganos,
Fugindo ao amanhecer dos planos,
Sem rumo, nem barco, nem futuro,
Vivendo um momento obscuro,
Buscando nos astros seu guia.
Não é todo dia que se encontra comigo
Mas sente em mim um perfeito abrigo
Onde recostar a cabeça e dormir.
Não, meu homem é fera primitiva
Que monta e cavalga a mordidas
Que esfrega a barba na barriga
E provoca espasmos na garganta.
Me puxa os cabelos, me levanta
Me senta em seu colo suado
Me prova, me acende, me bate
Me arranca urros em combate
Me vence e me deixa vencer.
Grande engano! Meu homem é cavaleiro
De espora e armadura de prata
Cavalo branco, despontando na mata
Me apanha no galope e some
Me consome, com pão e vinho
Me alisa, me faz carinho
Faz de meu corpo um caminho
E de meu gozo a chegada.
Meus homens são todos e um só
De quem vim da costela e pra onde vou pó
Dividindo meu leito,
Multiplicando meu canto
Aos quatro cantos do mundo
Pra depois, num segundo
Explodir em lágrimas de adeus
Ou em jatos de amor
E seja lá como for
É só meu.
 

SIMPLESMENTE   SER
(Valéria  Braz)
O meu segredo é não ter segredo
Sou como fez a vida
Vivo conforme meu estilo
Luto por tudo que acredito
Amo em silêncio se preciso.

Não quero da vida
Nada além da emoção.
Quero sorrir aberto
Deixar o cabelo ao vento
Meu corpo saudável
A mente tranquila.

Não sou amante do supérfluo
Sou aberta a vida.
Quero aprender
Me entregar de coração
Amar com toda a força.

Mas se não der
Seguirei sorrindo
Abrirei caminhos
Farei corações sorrirem
E por certo serei mulher
Solitária nos dias
Perene nas memórias
Livre no desfecho do destino!

SUFOCO DE UM CONSENTIR (Valéria Braz)

Voar mais alto
Que o espaço da imaginação
Guiar meu coração
Nas asas da realização
No contínuo viver da emoção.

Cair de braços dados
Com a paz de saber
Que tudo ou nada
Só é encontrado
No sufoco de um consentir.

Não querer mais saber
Resistir.
Resistindo na alma
Para o corpo decidir.

O silêncio de bocas cansadas
Ressoam ecos passados
De um entardecer descontinuado.

Os olhos falam a linguagem
Que vai pela janela do coração
Onde se esconde a tímida
Alma covarde.

E no amanhecer da compreensão
Não se pede palavras de atenção
Somente gestos da verdade
Que se esconde em atitudes fugídias.
 
A ALMA DO AMOR
(Valéria  Braz)
Teus olhos banhados de prazer
No murmúrio suave da sua voz
Embalada no delírio de estar aqui.

Teu corpo macio de formas suaves
Combina com a agitação do teu orgasmo.

E no êxtase do prazer dois corpos se unem
Numa sintonia de insondável satisfação.

E depois o cansaço do corpo excitado
Te faz escorregar ao lado
Tua voz ofegante se faz muda
Teus braços tremidos enlaçam o motivo do prazer
Teus olhos calados se fecham
E sua alma se traduz no sonho conjugado.

Quando despertas teus lábios sorriem
Com os raios do sol dourado
Batendo nos cabelos ainda úmidos
Teu corpo se aconchega
Buscando o conforto de traduzir-se
Na presença do prazer realizado.

Seu suor ainda escorrendo
Convida por telepatia ao banho
E a água que molha dois corpos num só
Transformando-os em fantasia pede mais
E o carinho que nos une ainda nus
Despidos de pudor
Nos guia como Adão e Eva.

E juntos caminhamos no paraíso da fantasia
De dois corpos unidos em um só
De um momento que viverá por anos
De descobrir o ofegante e maravilhoso êxtase
De se encontrar
Mesmo que apenas por uma pequena eternidade.