12/06/2017

LOBA ROMANA (Gilberto Gil)
Oh! Romana loba
Romana mulher.

Tu sabes que és
Mãe dessa cidade que tens aos teus pés
A te adorar
E eu serei talvez
Um daqueles teus amantes mais fieis
Que sabe amar.

Mais que aos teus encantos
Amar o que é teu destino
Mais que amar-te (a arte)
Amar o amor, o verso de Roma.

Mais que às tetas
Amar-te a eterna ideia
Mais que ao teu sabor
Amar ao teu aroma.

Tu sabes que eu tenho a alma apaixonada
E o meu amor por ti não vale nada
Tu sabes que eu serei, serei
Um dos teus tantos amantes mais fiéis
A te adorar.



09/06/2017

BUSTO RENASCENTISTA (Antonio Carlos de Brito)

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FATALIDADE (Antonio Carlos de Brito)


A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
 farão assembleias de emergência.
Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.

SEMPRE ( Chico Buarque de Holanda )


Sempre
Eu te contemplava sempre
Feito um gato aos pés da dona
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
Vejo estrelas que já foram
Noite afora para sempre.

O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre.

Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre.

CARNE ( Anderson Christofoletti )


I
A rosa que se revela
À contemplação lírica do poeta
Confessa toda sua
Incandescente ânsia
Antes resguardada.

Sua casta pele-pétala
Ganha a lascívia do instante:
Hiato que não mais
Sabe ao intemerato lírio.

És, agora, musa escarlate,
Desejo lúbrico dos seres platônicos.

Tua seiva é a gota de desejo
Que se dilui na boca sedenta do beijo.

Tua leitura pueril se concretiza
No êxtase natural do pecado.

Tua pele branca é banhada pela nuança
Do arrebol que rebenta todo pejo
Deste sobejo de amor.

São olhos que se traduzem;
São mãos que se perdem;
Sulcos, côncavos, curvas,
Ancas, coxas, seios, pelos.

Dentro da lânguida busca dos lábios,
Um grito de prazer se esboça
E não há força que possa
Com este orgasmo etéreo que se exprime.
II
Corpos
Na procura incessante dos opostos
 Formas que se completam.

Momento em que tudo se consome
À flor em fogo
Da ébria inconsciência do gozo;
A inconsequência necessária
Que se acoita na magia do coito.

Estamos cegos,
Porém seguros,
Pois sabemos que a noite
Aos amantes pertence,
Que não cabe ao prazer o açoite
E que todo ato de amor é puro
(Visto que a entrega o é inerente).
III
Tem-se, então, a explosão
Que nos torna, por um breve espaço de tempo,
Imortais.

Rompe-se o harmônico pulsar
De toda atmosfera.

A fusão dos corpos se desfaz
Na efusão das almas.

Somos o que o universo comporta
E o que o verso só completa.

Somos partes refletidas num único cerne;
Somos rosa, amor, carne e poeta.








08/06/2017

DENGUINHO DE MANHÃ (Luli Heloisa Orosco & Lucina )


ah, é tão bom te sentir quente no frio
brasa interior, 
coração de lã denguinho de manhã, 
sentimento de hortelã brasa interior,
coração de lã

casa bonita, corpo maior 
cristais da mente luminosos e transparentes 
grande água nos lavou
e nem sentimos tanto assim
a perda dos pedaços que no passado 
pareciam tão parte de nós

ah, é tão bom me sentir quente no frio
brasa interior, coração de lã
denguinho de manhã, sentimento de hortelã 
brasa interior, coração de lã

te amo te quero cheirar e fuçar 
e tocar e sentir o macio e total abandono
dos encontros com tempero da manhã 
deixa estar que hora desperto 
vendo a mim te revendo 
me querendo em ti, te querendo mais 
cada vez com menos ais.

SEMENTE (Luhli  &  Lucina)
Riacho na rota rasteira 
penacho penhasco ribanceira 
pedregulho da cachoeira
E uma energia alegria reza e vento
entra penetra no momento
Dois seres fundidos num jeito 
de ser semente
demente espelho eu só, dianfante
lapida a lágrima de Deus 
Semente de mim vida há e há 
no colo da mãe natureza 
Nos frutos de uma videira
despertar a colheita de nós 
na dor a beleza ao amor de dar luz ao amor
no ventre esse grão sonho e pão
que encerra o espaço da primavera.
QUEM SABE DE MIM (Luhli, Lucina, Marta Manhães & Sonia Prazeres)
Quem sabe de mim é meu coração
espelho miragem sumo selvagem do amor 
tudo que acabou virou ventania
segredo e magia sim que solta a voz. 

Nossos corpos nus desatando nós
louco desejo, flor de fogo num beijo 
no grito da fera chamar o futuro 
num prazer doído, doido, gostoso e perdido.

Quem sabe de mim é o amor delícia 
dengo carinho e carícia
um cheiro bom embriagando o não, o senão
prazer proibido até por ser tão permitido 
fruto tentação servido em cada refeição.

Quem sabe de mim é meu coração
anjo demônio joia lira e delírio
na santa sangria do dia a dia
um choro risonho pra lavar meus ais.

Quem sabe é o amor que canta a cantiga 
deitar no colo dessa energia amiga.


SEMELHANÇAS DESIGUAIS ( Luli Heloisa Orosco & João Gomes )


A gente junto nos achamos pouco 
Que sempre muito procuramos ser
Que juntos nunca descobrimos tudo
Que nada vemos por dentro da gente
A gente mente, sente, deita ao vento 
Como se o vento fosse a nossa cama
A gente chama, cisma, sofre, inflama
E não se toca do que a gente sente
Ah, em mim a imensidão ah, nunca mais
Se encheu completamente 
Pedi a sua voz de gente
Que diga a toda voz quem somos nós 
Que a sós no chão da estrada 
Nos perdemos nus 
E nus pelas calçadas nos achamos sós 
E seja como for
É a dor da própria cruz
As nossas semelhanças desiguais.

A gente junto sempre tantas vezes 
Se amamos ontem já passaram meses 
Se amamos hoje fazem dez segundos
Se amor, a gente sente siameses 
Se a fundo vamos raso é o nosso tempo 
Se é raso o tempo a fundo somos leigos 
Se arde em chama bruta o nosso beijo 
Os lábios meigos cessam nossos planos
Ah, em mim a imensidão ah, nunca mais.

EU E VOCÊ ( Luhli & Lucina )


era a hora do amor chegar
e eu me atrasei
nas tramas intrigas
nas queixas e brigas
palavras amargas vinganças antigas
e agora me diga como encontrar
o pleno sentimento
estar lá como aprendiz
calar como quem diz, querer largar
de querer ser, ser só feliz ser só feliz
por estar aqui eu e você
bem junto do quase, bem perto do agora
bem dentro do eterno, no denso da hora
no imenso reencontrar sabor de maçã
um frisson, um élan, ah!
o que nos fez querer
resiste sem porque
nos salva de perder
eu e você.

CHEIRO DE ROSA (Luhli & Lucina)


abri a porta, varri a soleira e parei no tempo
vi o calor afastar toda a sombra 
da noite que passou 
joguei no sol almofada colchão travesseiro 
lavei as janelas com pano macio
pus água nas jarras à espera das flores

ah, esse cheiro de rosa no ar, 
esse cheiro de rosa no ar 
sempre o mesmo

lavei o rosto me olhei pelo espelho 
e pintei na boca 
rubro carmim derramado 
um sorriso espantado a me espiar 
gota de sangue na ponta do dedo 
que brilha e que espalha o vermelho 
num risco traçado bordado apagado 
nas marcas do tempo

vendo morrer cada hora 
arrastando quebrada a asa do agora
no instante partido o momento que espera 
a chegada da aurora

ah, esse cheiro de rosa no ar, 
esse cheiro de rosa no ar 
agora.
(Pintura: Vicente Romero)

AMOR MADURO ( Luli Heloisa Orosco & Lucina )


Pra saber de nós, nem mais preciso de você
Nem você de mim, você de mim
Nem você
Fios, laços, nós, entregas mútuas 
Sons, silêncios 
Filhos frutos de um mesmo viver
Quisemos ser 
Quisemos ser um grito e fomos
Quisemos ser um mito e somos 
Quisemos entregar a vida à vida
E aqui estamos 
Eu sem você e sei seu riso 
Você aí e eu não me livro
Dessa presença plena 
Lúcida medida de inferno e paraíso
Agora a minha fantasia já é sólida
Minha mágoa já é líquida
Minha escolha já é múltipla, múltipla
Múltiplos carinhos pelos muitos eus
Ternura pelos erros resgatando mágica 
Amor maduro transmutado em música.

BUGRE ( Luhli & Lucina )


Bugre perdido na luz de neon
herói de vídeo game, fera mineral 
armo a garganta e acendo o tambor 
guerreando no som também se faz amor 
espalha o medo que afia a coragem 
que a carne tem um fraco pela dor 
a hora vai chegar os gelos descerão 
e as trombetas tocarão 
um tema vulgar, banal 
couraça de pedra, peito de metal.

quebro a maloca, queimo essa palha
brilho de letras que não dizem nada
pedra lascada, ser de Plutão 
sou projeção futurista cro-magnon
pena de arara, olho de gavião
boto o batoque na boca de baton 
me escondo na lama, armo a tocaia
sou jacaré de sapato e de saia
estou inteiro, estou exato
com a teimosia do porco do mato 
e o que se vê não é de sapé 
e o que me vale é a alma de macaco
seios de índia, tez de cunhã
gero o alento e a luz do amanhã.


07/06/2017

UM BEIJO (Ana Cristina Cesar) in “Poética“. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.

ANÔNIMO (Ana Cristina Cesar)


Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste
sabe onde me encontro até de olhos fechados;
falo pouco; encontre; esquina de concentração com difusão,
lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

CHOVE (Ana Cristina Cesar) in Inéditos e Dispersos; org.: Armando Freitas Filho.São Paulo: Brasiliense,1985.


A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

CONTAGEM REGRESSIVA (Ana Cristina Cesar)


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três a quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.


06/06/2017

AVENTURA NA CASA ATARRACADA (Ana Cristina Cesar)


Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

AMOR DESCONTROLADO OUSADO (Anna Carolina M. Martins)

Minhas ideias não tem como controlar.
Desequilibrei de vez nessa paixão, revolução,
Que me tira a razão, só penso com o coração.
Minha ideia agora é te roubar,
Para um lugar longe te levar,
E lá eternamente te amar.

Vamos fugir! Vamos para longe,
Onde o sol se esconde, assim como
Queremos nos esconder, para um ao outro ter.
Vamos nos lançar, nos amar.
Sentir nossos corpos a ardência louca da paixão.
E a volúpia de uma canção.

Teu corpo!? Como quero ter, possuí-lo de forma
Desvairada, ousada atrevida sem medo de querer,
De ter! E sentir prazer! Eu e você.
Do anoitecer virar amanhecer. Só desejo ter.

Teu corpo bronzeado, sabor do pecado,
Meus lábios melados, querendo do teu pecado.
Se lambuzar! Deixe-me ousar?

Vamos! Quero te sentir, meu corpo te pede,
Minha alma te clama, cresce a chama dos
Meus desejos vão começar pelos beijos,
Depois os abraços e juntos no mesmo compasso,
Sem embaraços vamos deslizando nossos pensamentos,
Assim como nossas mãos, em nossos corpos sedentos.
Quero realizar fantasias, desejos, vontades.
E você me mostrará que é meu homem de verdade.
Sou toda tua, toda nua, faz de mim o que quiser,
Mate a fome desta mulher.
Meu amor descontrolado, ousado! Cheio de pecado.
Gosto lambuzado do teu corpo suado.
Cheiro de nós dois.

É o absinto do meu prazer sou toda pra você.







05/06/2017

A CHUVA (Luiz  Sommerville  Junior)
Quero tanto
o teu corpo
que todo o meu sangue
é uma chaga
em ansiedade pelo milagre
da tua carne
regenerando os meus tecidos
a matéria da tua vida
injectando nas minhas veias
o bálsamo do teu sexo
em difusão por todo o meu ser
movimento teu
entranhando-me no vértice rosado
que tomando-me
me alastrará na tua mente
nesse teu pensamento
que é o caminho da alma infinita
onde o êxtase
abrindo
a origem da vida
sela o nosso amor
no livro imortal
das nossas vozes
em fogo - gemendo murmúrios
de lá para cá, de cá para lá
em coro uníssono gritando
os nomes que se noivaram
no momento em que descobriram
que antes
dos mares beijarem a terra
já os nossos corpos
molhavam os céus.




NOITE (Abgar  Renault)
Há duas pombas brancas no telhado. 
 Junto delas pousa o silêncio do dia já parado, 
 e entre asas caladas o primeiro gesto da noite vai crescendo. 
 É tarde nos telhados e nas árvores, 
 é tarde (triste e mais tarde) nessa rua 
 que se reabriu no fundo de um olhar, 
 onde se movem ressurrectos mármores 
 e começam a discorrer ventos e velas 
 por sobre a limpidez das mesmas águas velhas, 
 e pássaros azuis bicam frutos de astro soltos no ar. 
 Sobem (de onde?) vultos escuros de coisas e de entes, 
 alongam a última distância, somem a luz que se destece 
 e a linha dos caminhos, apagam o verde prado. 
 Não há duas pombas brancas no telhado: 
 sobre elas, seu voo e seu arrulho ausentes 
 a lápide sem cor das horas desce.