08/04/2023

AUREOLADA ( Flávia Perez )

Eu tão anjo tenho andado
que em mim nasceram asas.

O que me perde pro céu
é esse meu grande
rabo
endemoniado
e minhas coxas grossas...



POSSE ( Bernadette Lyra )

 Ainda noite

chega-me à cama
a poesia.
Tange-me a veia
prende meus dedos
sobe-me ao ventre.
Destranço as pálpebras
no rosto espanto
ponho, de pó.
Todos os dias, ainda noite, destranço as pálpebras.
Cola-se ao corpo
tonto de sono
a poesia.
Desnuda o ombro
adere à pele
busca-me a anca
cose seu dente
na carne. E o dia
no espelho côncavo
se delineia.

- Deixa-me os ossos
rogo e suplico.

Rói-me o esqueleto
morde meus dedos
arranca a pele
suga-me a veia
fere-me a anca
rasga meu ventre
devora a carne
atinge o cerne
a poesia
enquanto o dia
no espelho côncavo
se delineia.

ESCULTURA ( Adalgisa Nery)

 Eu já te amava pelas fotografias.

Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!

.

A AMADA É COMO A TERRA ( Adalgisa Nery )

Agachado, com a boca bem collada ao sólo
 Fala para que a tua voz penetre na terra
 E abasteça de harmonia e de vigor o grão que vae nascer.
 Mergulha a tua voz no sólo para que os ramos dos arbustos
 Tocados pelo ventos das manhãs
 Sejam um mixto de amargor e de alegria
 Acompanhando os desolados com essa melodia.
 Falla bem dentro da terra e dize palavras de consolo
 Que assim as flores terão quando brotarem
 A belleza eterna em seus perfumes e em suas cores.
 Colla a tua boca ao sólo
 E envia com os sons da tua garganta
 Os teus insuperaveis pensamentos de Unidade
 Para que elles cainhem subterraneamente
 E rebentem nomeio de outros povos
 Cantando a glória da Verdade e da Fraternidade.
 Abre com tuas mãos uma fenda na terra
 Encosta a tua boca aflicta e diz bem no fundo a razão dos teus tormentos
 Para que a agua e o fogo central dissolvam os teus lamentos.
 Colla a boca no ventre da Amada
 E fala a seu corpo
 Para que os seus filhos transportem a tua harmonia pelos tempos infindáveis
 E possas ouvil-a em cada homem, em cada flor,
 Na intensidade de todos os perfumes
 E nos millesimos reflexos de cada côr!

AMANHECIMENTO ( Elisa Lucinda )

 De tanta noite que dormi contigo

 no sono acordado dos amores
 de tudo que desembocamos em amanhecimento
 a aurora acabou por virar processo.
 Mesmo agora
 quando nossos poentes se acumulam
 quando nossos destinos se torturam
 no acaso ocaso das escolhas
 as ternas folhas roçam
 a dura parede.
 nossa sede se esconde
 atrás do tronco da árvore
 e geme muda de modo a
 só nós ouvirmos.
 Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
 o pio de todas as asneiras
 todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
 para um dia partirem em revoada.
 Ainda que nos anoiteça
 tem manhã nessa invernada
 Violões, canções, invenções de alvorada.
 Ninguém repara,
 nossa noite está acostumada.

JANDIRA ( Murilo Mendes)

O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis
                                                do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira.

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham
                                               importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de
                                               Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de
                                              Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda
                                             de Jandira.

E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
                                             das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de
                                            Jandira.

E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os
                                           seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
                                           que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o
                                   princípio do tempo.

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a
                                         cidade
E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,   
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.

HÚMIDO DE BEIJOS E DE LÁGRIMAS ( Eugénio de Andrade )

 Húmido de beijos e de lágrimas,

 ardor da terra com sabor a mar,
 o teu corpo perdia-se no meu.
  (Vontade de ser barco ou de cantar.)

A BOCA ( Eugénio de Andrade )

 A boca,

 onde o fogo
 de um verão
 muito antigo cintila,
 a boca espera
 (que pode uma boca esperar senão outra boca?)
 espera o ardor do vento
 para ser ave e cantar.
  Levar-te à boca,
 beber a água mais funda do teu ser
 se a luz é tanta,
 como se pode morrer?

AQUELA ( Hilda Hilst )

 Aflição de ser eu e não ser outra.

 Aflição de não ser, amor, aquela
 Que muitas filhas te deu, casou donzela
 E à noite se prepara e se adivinha
 Objeto de amor, atenta e bela.
  Aflição de não ser a grande ilha
 Que te retém e não te desespera.
 (A noite como fera se avizinha)
  Aflição de ser água em meio à terra
 E ter a face conturbada e móvel.
 E a um só tempo múltipla e imóvel
  Não saber se se ausenta ou se te espera.
 Aflição de te amar, se te comove.
 E sendo água, amor, querer ser terra.

07/04/2023

TRÊS ( Antonio Cícero )

 Um

Foi grande o meu amor
Não sei o que me deu
Quem inventou fui eu
Fiz de você meu sol
Da noite primordial
E o mundo fora nós
Se resumia a tédio e pó
Quando em você
Tudo se complicou

Dois
Se você quer amar
Não basta um só amor
Não sei como explicar
Um só sempre é demais
Pra seres como nós
Sujeitos a jogar
As fichas todas de uma vez
Sem temer naufragar

Não há lugar pra lamúrias
Essas não caem bem
Não há lugar pra calúnias
Mas por que não nos reinventar?

Três
Eu quero tudo que há
O mundo e seu amor
Não quero ter que optar
Quero poder partir
Quero poder ficar
Poder fantasiar
Sem nexo e em qualquer lugar
Com seu sexo junto ao mar.

DIANTE DAS FOTOS DE EVANDRO TEIXEIRA ( Carlos Drummond De Andrade )

A pessoa, o lugar, o objeto
 estão espostos e escondidos
 ao mesmo tempo so a luz,
 e dois olhos não ão bastantes
 para captar o que se oculta
 no rápido florir de um gesto.
  É preciso que a lente mágica
 enriqueça a visão humana
 e do real de cada coisa
 um mais seco real extraia
 para que penetremos fundo
 no puro enigma das figuras.
  Fotografia - é o codinome
 da mais aguda percepção
 que a nós mesmos nos vai mostrando
 e da evanescência de tudo,
 edifica uma penanência,
 cristal do tempo no papel.
  Das luas de rua no Rio
 em 68, que nos resta
 mais positivo, mais queimante
 do que as fotos acusadoras,
 tão vivas hoje como então,
 a lembrar como a exorcizar?
  Marcas de enchente e do despejo,
 o cadáver inseputável,
 o colchão atirado ao vento,
 a lodosa, podre favela,
 o mendigo de Nova York
 a moça em flor no Jóquei Clube,
  Garrincha e Nureyev, dança
 de dois destinos, mães-de-santo
 na praia-templo de Ipanema,
 a dama estranha de Ouro Preto,
 a dor da América Latina,
 mitos não são, pois são fotos.
  Fotografia: arma de amor,
 de justiça e conhecimento,
 pelas sete partes do mundo
 a viajar, a surpreender
 a tormentosa vida do homem
 e a esperança a brotar das cinzas.


AMOR E SEU TEMPO ( Carlos Drummond De Andrade )

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


A PUTA ( Carlos Drummond De Andrade )

Quero conhecer a puta.

 A puta da cidade. A única.
 A fornecedora.
 Na rua de Baixo
 Onde é proibido passar.
 Onde o ar é vidro ardendo
 E labaredas torram a língua
 De quem disser: Eu quero
 A puta
 Quero a puta quero a puta.
  Ela arreganha dentes largos
 De longe. Na mata do cabelo
 Se abre toda, chupante
 Boca de mina amanteigada
 Quente. A puta quente.
  É preciso crescer esta noite inteira sem parar
 De crescer e querer
 A puta que não sabe
 O gosto do desejo do menino
 O gosto menino
 Que nem o menino
 Sabe, e quer saber, querendo a puta.

O ENTERRADO VIVO ( Carlos Drummond De Andrade )

 É sempre no passado aquele orgasmo,

é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

26/03/2023

QUERO SENTAR-ME NO TEU COLO ( Carla Pais )

Quero sentar-me no teu colo
e prender-te em meus braços,
beber dos teus lábios a doçura
de um mel que nasce na cor dos

teus olhos e perder-me por lá,
como quem se afunda em desejos
para sempre. Ouvir o teu sangue
gemer e gritar o meu nome – aflito.

Pousas em mim uma ânsia e rendo-me
ao teu corpo, à sede da minha pele – quero
falar-te baixinho e beijar-te segredos.

Não digas nada, a minha alma vestiu-se de ti.

EM SILÊNCIO ( Célia Moura, in No Hálito De Afrodite)

 Amei-te

Abrindo-me mais que o linho entre as pernas
Mais que a alma rasgada
Entre todos os poemas.

Sentia-te carne de mim
Essência de jasmim
Na erecção da tua ânsia
Brindando êxtase de chocolate
Na íris de Afrodite
Percorrendo enseadas de nós.

Amei-te tanto
Que julguei esquecer-me!

Reinvento-me
Na força com que me despes
Silêncio
Devora de vez esse teu desejo!
Abro para ti minhas pernas!



 

SETE LUAS ( Natália Correia )

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.




 

SETE MOTIVOS DO CORPO ( Natália Correia )

 Quando em halo de fêmea húmida e quente

São íntimas ao fogo as ancas sábias,
Está o corpo maduro no seu tempo
Aromático de rosas esmagadas.

São as Circes: fogueiras reclinadas
Como panteras em nuvens de magnólias;
Coxas versadas em abrir às lavas
Do desejo confins de lassas glórias.

Do amor, lúcida e plena anatomia;
Magníficas mulheres com flor e fruto;
Corpos de vagarosa fantasia
Que a febre afunda em estrelas de veludo.

Num esplendor de poentes envolvidas,
Sentadas têm pálpebras de violetas;
Mas erguem-se abrasadas; e despidas
São um verão a sair de meias pretas.

Capelines que lendas insinuam,
De segredos os olhos lhes sombreiam.
Dos ombros pendem-lhes mantos de volúpias
São fábulas que os moços estonteiam.

E aos seus leitos de prata e tílias altas
Ébrios de lua sobem os mancebos.
Elas enterram-se nuas como espadas
Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros.
Ó sazonada carne que circunda
De asas, abismos e suados cumes
O mistério do ovo, dando sombra
Ao pénis que procura o fim do mundo.


Albano Martins, in Escrito A Vermelho

 Quando a amada oferece

o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.
É então
que os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.


Alexandra Santos, in Palavras Sussurradas

Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te
Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado
Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado
Sinto que queres ser minha como eu ser teu
Sinto que és a rainha deste plebeu
Mas sinto essencialmente a tua pele
Toda ela é a tua essência
Toda ela é a mulher que foste,
A mulher que és, a mulher que amo:
Pele madura, vivida,
Repleta de marcas do tempo,
Perfeita para mim;
Pele suave, sensível,
Propensa a arrepios,
Beijada até ao fim
Pele é tua é minha é nossa
Onde a tua termina, a minha começa
Quando a tua sente frio, a minha te aquece
Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece
Não preciso de mapa para me orientar
Mas na tua pele ainda me posso perder
Em cada cicatriz, em cada recanto,
Em cada sinal, em cada encanto
Pele com pele, eu sinto o teu aroma
Pele com pele, o nosso único idioma.


 


PARTO COM OS VENTOS ( Lília Tavares )

 Esta noite é líquida

nos meus olhos esvaziados
de rumores e saudade.
Fixo o farol e a luz
da vida cúmplice.

Como as gaivotas parto
e regresso
porque este areal é meu.

Nem os búzios perdidos
nas águas profundas me podem
chamar com cânticos e brilhos.

Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.

Parto com os ventos.

Sei de uma ilha de ventos
onde os pássaros azuis
da solidão fazem festins
no oceano das águas velozes.
Fiquei na orla branca das ondas,
noveladas como búzios deslumbrados.
Estendida entre brumas
preciso desse silêncio,
das asas abertas do afastamento
de luas desveladas.

o meu olhar de tanto mar
fixou-se numa nuvem de vento.
Dispo-me de gaivotas
quando é o teu olhar com asas
que me solta e agarra,
pois dois sentidos moram
para além de nós,
nos habitam e esperam
sentados aos tropeções
dentro dos nossos corpos.
São aves de muitas ondas,
as que nos beijam.
A hora chegou com o seu gume.
Amor,
volto a partir com os ventos.

Estas horas
sulcam rios
nos dedos das minhas mãos.
Horas, horas sem fim,
esperarei por ti
até que o mar me traga a tua voz
ou os gritos roucos das gaivotas
me tragam o silêncio desta ilha
tornada espera.
Procuro-te no fim negro do asfalto
onde te vi desaparecer,
após a calma dos objectos partilhados
no balbuciar dos nossos dedos
Horas, horas sem fim,
serei banco de madeira
ou cais de espera.



 


CHOVO ( Lília Tavares )

Chovo
sentada dentro de mim.
Foste e contigo a tua pele
que me secava as lágrimas de silêncio.
Contigo foram as mãos, o abraço,
o beijo lavado e inteiro.
Da minha gruta já é doloroso sair.
Os meus olhos, outrora largos,
apertam-se para fugir à chama agressiva.
Estou fria e desabitada.
Vem.
Aqui o tempo partiu do tempo.
Só tu podes consertar os ponteiros despedaçados da
memória.
Contigo os ventos virão
e as aves que tinham desistido,
vão nidificar de novo no meu colo.


 


22/03/2023

TEMPO DE POESIA ( António Gedeão )

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã

à névoa do outo dia.

Desde a quentura do ventre

à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.

Corolas que se desdobram.

Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qua amar se consagram.

Sob a cúpula sombria

das mãos que pedem vingança.

Sob o arco da aliança

da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos

à confusão da harmonia.


19/03/2023

EU VIM DO FUTURO E LÁ SÓ TEM SAPATÃO ( Banda Horrorosas Desprezíveis )

Eu vim do futuro e lá só tem sapatão

Nada é tão nocivo quanto os bons costumes
Cansei de ver portas arrombadas
O meu corpo não será mais programado
Os meus peitos ficarão à mostra
Meus pêlos ficaram à mostra
Sintam, isso é o meu cheiro!
Avante, avante avante
somos heroínas
Avante, avante, avante América Latina
Não seremos estupradas, queimadas e nem navalhadas pelo bisturi
Fecundou-se
Dividiu-se
Desdobrou-se
Entre as pernas a maçã partida
Gomo suculento
O líquido que se faz cálice
O membro invertido
O melado vermelho que escorre
A buceta é cuceta
a cuceta é dentada
Ela é terrorista!
Eu vim do futuro e lá só tem sapatão
Não há mais deus
Somos deusas somos muitas e somos fortes
O fogo que arde em meu centro me impulsiona e me leva ao céu
Torno-me astronauta do cosmo
Eu refaço o big bang
Recrio o meu universo
Mexo os pauzinhos do tempo
Levantamos das catacumbas, mas não como Lázaro aquele sarnento
e sim com Cleópatra
Mulheres livres
Futuristas
Embaixadoras da grande estrela pulsante 
Eu vim do futuro e lá só tem sapatão

12/03/2023

ESTRELA DA TARDE ( José Carlos Ary Dos Santos )

 Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

09/03/2023

De Alice Ruiz

 Era uma vez

uma mulher que
via um futuro grandioso
para cada homem
que a tocava.
Um dia
ela se tocou.