A Rosa Monteiro
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
14/04/2023
BOÊMIAS ( Auta de Souza )
TAREFA ( Geir Campos )
Morder o fruto amargo e não cuspir
11/04/2023
EU SEI, NÃO TE CONHEÇO, MAS EXISTES (Joaquim Pessoa )
Eu sei, não te conheço, mas existes.
08/04/2023
DROGA ( Flávia Perez )
Essa paz de mãos dadas
passeando na calçada
que você espera,
também quero.
Quando for velha!
Por ora
dê-me o prometido
pirâmides, xamãs,
chamas,
viagens de hipogrifos.
Indisciplina,
dê-me agora
que seu verbo absinto em mim
arrepia
e me desnorteia.
Quero você
latejando
no meu pulso,
injetado na veia.
Dê-me logo essa droga de você!
AUREOLADA ( Flávia Perez )
Eu tão anjo tenho andado
que em mim nasceram asas.
O que me perde pro céu
é esse meu grande
rabo
endemoniado
e minhas coxas grossas...
POSSE ( Bernadette Lyra )
Ainda noite
ESCULTURA ( Adalgisa Nery)
Eu já te amava pelas fotografias.
A AMADA É COMO A TERRA ( Adalgisa Nery )
AMANHECIMENTO ( Elisa Lucinda )
De tanta noite que dormi contigo
JANDIRA ( Murilo Mendes)
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis
do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira.
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham
importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de
Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de
Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda
de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de
Jandira.
E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os
seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o
princípio do tempo.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a
cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
HÚMIDO DE BEIJOS E DE LÁGRIMAS ( Eugénio de Andrade )
Húmido de beijos e de lágrimas,
A BOCA ( Eugénio de Andrade )
A boca,
AQUELA ( Hilda Hilst )
Aflição de ser eu e não ser outra.
07/04/2023
TRÊS ( Antonio Cícero )
Um
DIANTE DAS FOTOS DE EVANDRO TEIXEIRA ( Carlos Drummond De Andrade )
AMOR E SEU TEMPO ( Carlos Drummond De Andrade )
A PUTA ( Carlos Drummond De Andrade )
Quero conhecer a puta.
O ENTERRADO VIVO ( Carlos Drummond De Andrade )
É sempre no passado aquele orgasmo,
26/03/2023
QUERO SENTAR-ME NO TEU COLO ( Carla Pais )
Quero sentar-me no teu colo
e prender-te em meus braços,
beber dos teus lábios a doçura
de um mel que nasce na cor dos
teus olhos e perder-me por lá,
como quem se afunda em desejos
para sempre. Ouvir o teu sangue
gemer e gritar o meu nome – aflito.
Pousas em mim uma ânsia e rendo-me
ao teu corpo, à sede da minha pele – quero
falar-te baixinho e beijar-te segredos.
EM SILÊNCIO ( Célia Moura, in No Hálito De Afrodite)
Amei-te
Abrindo-me mais que o linho entre as pernas
Mais que a alma rasgada
Entre todos os poemas.
Sentia-te carne de mim
Essência de jasmim
Na erecção da tua ânsia
Brindando êxtase de chocolate
Na íris de Afrodite
Percorrendo enseadas de nós.
Amei-te tanto
Que julguei esquecer-me!
Reinvento-me
Na força com que me despes
Silêncio
Devora de vez esse teu desejo!
Abro para ti minhas pernas!
SETE LUAS ( Natália Correia )
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
SETE MOTIVOS DO CORPO ( Natália Correia )
Quando em halo de fêmea húmida e quente
São íntimas ao fogo as ancas sábias,
Está o corpo maduro no seu tempo
Aromático de rosas esmagadas.
São as Circes: fogueiras reclinadas
Como panteras em nuvens de magnólias;
Coxas versadas em abrir às lavas
Do desejo confins de lassas glórias.
Do amor, lúcida e plena anatomia;
Magníficas mulheres com flor e fruto;
Corpos de vagarosa fantasia
Que a febre afunda em estrelas de veludo.
Num esplendor de poentes envolvidas,
Sentadas têm pálpebras de violetas;
Mas erguem-se abrasadas; e despidas
São um verão a sair de meias pretas.
Capelines que lendas insinuam,
De segredos os olhos lhes sombreiam.
Dos ombros pendem-lhes mantos de volúpias
São fábulas que os moços estonteiam.
E aos seus leitos de prata e tílias altas
Ébrios de lua sobem os mancebos.
Elas enterram-se nuas como espadas
Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros.
Ó sazonada carne que circunda
De asas, abismos e suados cumes
O mistério do ovo, dando sombra
Ao pénis que procura o fim do mundo.
Albano Martins, in Escrito A Vermelho
Quando a amada oferece
o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.
É então
que os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.
Alexandra Santos, in Palavras Sussurradas
PARTO COM OS VENTOS ( Lília Tavares )
Esta noite é líquida
nos meus olhos esvaziados
de rumores e saudade.
Fixo o farol e a luz
da vida cúmplice.
Como as gaivotas parto
e regresso
porque este areal é meu.
Nem os búzios perdidos
nas águas profundas me podem
chamar com cânticos e brilhos.
Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.
Parto com os ventos.
Sei de uma ilha de ventos
onde os pássaros azuis
da solidão fazem festins
no oceano das águas velozes.
Fiquei na orla branca das ondas,
noveladas como búzios deslumbrados.
Estendida entre brumas
preciso desse silêncio,
das asas abertas do afastamento
de luas desveladas.
o meu olhar de tanto mar
fixou-se numa nuvem de vento.
Dispo-me de gaivotas
quando é o teu olhar com asas
que me solta e agarra,
pois dois sentidos moram
para além de nós,
nos habitam e esperam
sentados aos tropeções
dentro dos nossos corpos.
São aves de muitas ondas,
as que nos beijam.
A hora chegou com o seu gume.
Amor,
volto a partir com os ventos.
Estas horas
sulcam rios
nos dedos das minhas mãos.
Horas, horas sem fim,
esperarei por ti
até que o mar me traga a tua voz
ou os gritos roucos das gaivotas
me tragam o silêncio desta ilha
tornada espera.
Procuro-te no fim negro do asfalto
onde te vi desaparecer,
após a calma dos objectos partilhados
no balbuciar dos nossos dedos
Horas, horas sem fim,
serei banco de madeira
ou cais de espera.
CHOVO ( Lília Tavares )
Chovo
sentada dentro de mim.
Foste e contigo a tua pele
que me secava as lágrimas de silêncio.
Contigo foram as mãos, o abraço,
o beijo lavado e inteiro.
Da minha gruta já é doloroso sair.
Os meus olhos, outrora largos,
apertam-se para fugir à chama agressiva.
Estou fria e desabitada.
Vem.
Aqui o tempo partiu do tempo.
Só tu podes consertar os ponteiros despedaçados da
memória.
Contigo os ventos virão
e as aves que tinham desistido,
vão nidificar de novo no meu colo.

















%20(1906)%20%E2%80%9COil%20on%20canvas,%20147%20x%20198%20cm%E2%80%9D%20%5BSt%C3%A4del%20Museum,%20Frankfurt,%20Germany%5D%20%E2%80%94%20Jacques-Emile%20Blanche%20(French;%201861%20-%201942).jpg)








