A primeira vez que vi o pênis do meu namorado
pensei que o pau estaria coberto de pelos,
levou para a praia.
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
A primeira vez que vi o pênis do meu namorado
pensei que o pau estaria coberto de pelos,
levou para a praia.
Todos os homens têm o seu rio.
A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
Eu te procuro.
Do dia nada sei
Com uma faca limpaMe libertareiDo teu sangue que põeNa minha alma nódoas
Do dia nada seiCom uma faca limpa
Rosto nu na luz directa.
Que o Teu gládio me fira mortalmente.
Eu dizia:
Procura a maravilha.
De quanto eu te olho.
Que teus lábios busquem sem cessar
O medo de me que vissem nua
-A mulher herda fantasmas sob os ossos.
Bailarina fui
Vieram negras as sementes do abandono
e nos teus ossos iniciaram-se os ofícios.
Tu, discípula da sombra.
Tu que acendes os teus lábios pelos
fósforos escuros
e incendeias a floração da tua língua.
Tu que levas nos cabelos um registo de orfandade
e sobre a pele um cheiro podre de
lençóis hospitalares
como um hálito de flor
ou um lentíssimo perfume.
Tu, discípula da rosa dos outonos,
que amanheces e desovas como um saco de embriões
e vertes litros de mirtilos sobre os pés,
o sumo fresco dos estábulos da morte
e que às escuras, como um lírico cordeiro,
ofereces em autópsia o teu ventre expiatório
e iluminas com o brilho dos teus dentes
os sorrisos das caveiras incubadas nos espelhos.
Tu que clamas e ressoas livremente nas cidades
como um fúnebre tambor
mas amordaças os espinhos do teu
sexo de cinzas,
o teu cálice apagado pela lívida aliança
e adoeces como um nódulo
ou uma caixa de silêncio
pelo homem que exauriu no sono angélico das pombas,
pelo homem-esqueleto a revestir-se nos pomares,
pelo homem de pulmões nupciais,
cheios de algas tenebrosas,
pelo homem enxertado de moscardos e abundâncias,
o rapaz da deserção e do livor,
dos favos roxos nas narinas,
da dulcíssima agonia
do mel.
Falo da mulher que foi cegada pela vinda de um clarão,
da rapariga que desperta para a lâmpada solar,
os olhos brancos e feridos como pétalas à luz.
Falo da fêmea que se despe sobre o centro do poema,
os cascos frescos e molhados sobre as águas do poema,
a rapariga que mergulha loucamente nos corais.
Uma figueira exuberante prefigura-lhe a nudez
e o seu espírito revela-se nos figos luminosos,
nas fruteiras onde ferve a pele áspera dos figos,
nas canastras perfumadas onde os frutos apodrecem.
Sei que um figo, se trincado pelas lâminas
da sede, prefigura o sangramento da mulher,
porque ela sangra docemente como um fruto proibido,
ela goteja sob a árvore maldita:
a sua carne é um verão atravessado de coágulos.
Nos lençóis, nos linhos parcos consagrados à pureza,
posso ler como um oráculo o seu
registo de menstruo,
posso ver delinear-se as asas bíblicas da ave,
posso ver passar as pombas nas linhaças menstruadas,
posso ler nas plumas limpas, arejadas dos lençóis
a sua líquida
escritura de sangue.
Que ela sangre e apodreça na doçura de um perfume
e seja pródiga, isto é:
que a sua boca seja
exótica e floral,
que amadureça como a nota mais profunda
de uma fúnebre fragância de jasmins
e que os seus gestos repercutam o desespero de um pássaro.
E o espírito, cercado pela luz,
amachucado pela luz de uma palavra,
quebre agora o doloroso coração do silêncio.