21/11/2023

NUDEZ ( Maria F. Roldão ) in Pequeno Sangue, Volta d'mar, 2021.

 Pelo eixo central do roupão

deixo cair o corpo
em cima do tapete.
Fica o pano grosso,
em pé - esvaziado de carne e ossos -
a olhar para mim.
Mais coragem não tenho para
ocultar-me dentro.
O azul-escuro do trapo alcança-me
com os olhos
e ri .
Preciso de pensar com absoluta nudez -
ideologias, cismas, tensão
e arbítrio
são fibras que me pesam.

18/11/2023

António Mega Ferreira in "Os Princípios do Fim"

 Esquece-te de mim, Amor,

das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez termos chegado.

12/11/2023

CARÊNCIA, TESÃO E AFETO ( Sara Costa )

quero encontrar uma dádiva

outra qualquer, um balancê
harmônico em que a falta
me complete até ser plena
mente eu

quero despir-me de todas frustrações
mundanas e febris, alavancas
do desânimo
e da solidão quente

enquanto ritmos me perturbam o sono,
carícias lambem-me o estômago
à espreita de um novo ontem,
a ansiedade me convida para dançar
e eu que aprecio deslizar,
sigo indefesa e consciente
do espiral por vir

hoje e amanhã
e talvez depois
disso eu seja completa
mente eu

mas enquanto isso, sigo
sendo humana e imperfeita
surda aos meus instintos
insisto em fazer valer
máximas que não são minhas
contorço as carências em
pequenas caixas escuras

desejo ser mais que uma
e estar a todo instante
satisfeita, e é nessa ausência
que busco o outro lado da montanha

em um processo de autocrítica
destilo amarguras e melancólica
lamento-me da vida
[que culpa ela tem?]

meu medo de colocar-me
no mundo, me afasta de mim
e o sangue desse sofrimento
rega minhas verdades dúbias

ser vulnerável à fogo e ferro,
de que vale? fantasiar seus gestos
me rende mil sorrisos
seu nome é o murmúrio
que reza meu coração
antes de dormir

em um ciclo de afetos
um rugido me rompe
o útero, e quero mais de ti
quero mais de mim
quero fundição, leve e sólida
quero carinho no braço,
dançar no azul e percorrer
as suas costas com a minha
língua

quero aceitar que essa lacuna
de ser, aqui sempre estará
e nessa ânsia de não ser
é que se constroem os sonhos.

 

EVANGELHO SEGUNDO O PECADOR ( Milena Martins Moura )

 me quero aberta em cálice e vinho e pão

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀fenda rasgada de ritos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀
hábito deitado à fogueira
onde abrasam as peles recém-expostas
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀
a carne viva pulsa porque viva
porque crua porque fera e primeira mulher
serpente e desfrute
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀
me quero imersa corpo inteiro no indevido
lambendo o caminho desviado
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀com a mesma língua
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀dos cânticos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀
o sacro e o santo
molhados da espera
com a sede dos abstêmios
e dos crédulos em desgraça
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e eu graal sacrílego
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀estou nua e disso não me envergonho

MANHÃ ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Como um fruto que mostra

Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.


 

SE ( Alice Ruiz )

 Se por acaso

a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

POEMA COMEÇADO DO FIM (Adélia Prado)

 Um corpo quer outro corpo.

Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

ROSA BRANCA AO PEITO (António Gedeão)

 Teu corpinho adolescente cheira a princípio do mundo.

Ainda está por soprar a brisa que há-de agitar a tua seara.
Ainda está por romper a seara que há-de rasgar o teu solo fecundo.
Ainda está por arrotear o solo que há-de sorver a água clara.
Ainda está por ascender a nuvem que há-de chover a tua chuva.
Ainda está por arder o sol que há-de evaporar a água da tua nuvem.

Mas tudo te espera desde o princípio do mundo:
a doce brisa, a verde seara, o solo fecundo.
Tudo te espera desde o princípio de tudo:
a água clara, a fofa nuvem, o sol agudo.

Tu sabes, tu sabes tudo.
Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo
que sabem tudo desde o princípio do mundo.
Tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo
que desde o princípio do mundo sabem tudo.

O teu cabelo sabe que há-de crescer
e que há-de ser louro.
As tuas lágrimas sabem que hão-de correr
nas horas de choro
Os teus peitos sabem que hão-de estremecer
no dia do riso.
O teu rosto sabe que há-de enrubescer
quando for preciso.

Quando te sentires perdida
fecha os olhos e sorri.
Não tenhas medo da Vida
que a Vida vive por si.

Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo
que sabem tudo desde o princípio do mundo.
tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo.
A tua inocência sabe tudo.

POEMA DO AMOR ( ANTÓNIO GEDEÃO )

 Este é o poema do amor.

.
Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas,
com begónias e avencas plantadas em tachos e em terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a descerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem e as pessoas todas muito malcriadas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor sem amar nem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tinta, dos supermercados.
.
Este é o poema do amor.
.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.

08/11/2023

ALICE VIEIRA, in OLHA-ME COMO QUEM CHOVE

 Estendo na cama o corpo que há-de ser

o porto a que esta noite vais chegar.
E entre névoas e ventos hei-de ver
o barco dos teus dedos ancorar
na margem mais secreta do desejo.
E há-de haver um mapa ali por perto
que te leve à enseada do meu beijo
e à fogueira de tudo o que está certo.
E na respiração da tua boca
bebo o grito da terra sempre pouca
para a noite em que ficarmos sós.
Mas o corpo descansa apaziguado:
sei que o sol já repousa do meu lado
e que o teu rio já chegou à foz.

06/11/2023

SACODE AS NUVENS (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,

Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

05/11/2023

Pedro Homem de Mello, in “Segredo”


 Para te amar ensaiei os meus lábios… 
Deixei de pronunciar palavras duras. 
Para te amar ensaiei os meus lábios! 

Para tocar-te ensaiei os meus dedos… 
Banhei-os na água límpida das fontes. 
Para tocar-te ensaiei os meus dedos! 

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos! 
Pus-me a escutar as vozes do silêncio… 
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos! 

E a vida foi passando, foi passando… 
E, à força de esperar a tua vinda, 
De cada braço fiz mudo cipreste. 

A vida foi passando, foi passando… 
E nunca mais vieste!





28/10/2023

ORGASMO TOTAL ( Arrigo Barnabé )

 Você me falou assim:

Vem, bebe, sirva-se de mim
E a luz se apagou
Então eu senti na pele
Você, seu corpo em febre
Juro que eu nunca imaginei, amor
Tanta sensualidade
Juro que eu nunca imaginei, amor
Tanta eletricidade
Você estava mesmo fatal
E parecia louca
Como um animal
Dizendo aqueles palavrões, gemendo
Pedindo mais, mais
"Até chegarmos ao orgasmo total
Orgasmo total
Trazido pelo reembolso postal"
Não passe ridículo. você também pode
Ser feliz como eles. basta pedir hoje
Mesmo, pela caixa postal 6969, o seu
Exemplar de "o orgasmo ao alcance
De todos". e um feliz orgasmo.

22/10/2023

AS ROTAÇÕES PERFEITAS ( Ana Luísa Amaral )

 Se me pedisses de repente e aqui:

«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem
Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual
Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo
e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras


 

17/10/2023

ESTÁTUA DE RAPARIGA QUE SE PREPARA PARA DANÇAR ( Ruy Belo )

 Há uns vinte e três séculos que esta rapariga

concentra toda a vida que o mármore consente
no acto de dançar e de vencer assim
a condição mortal que intimamente a atinge
o peso que lhe pesa nesses pés com os quais pisa
a terra positiva e ciumenta como mãe
inimiga do voo de quem no acto de voar pode encontrar
maneira de evitar aquela gravidade que o sobrecarrega
Prepara a dança rapariga grega
tu nunca dançarás mas dançarás melhor
que se houvesses dançado alguma vez
No gesto com que apertas o sapato
nesse dobrar da perna até no risco do cabelo
no próprio olhar que pões em ver passar os dias
tu danças toda a dança que se tem dançado
em teatros jardins boîtes em adros de aldeias
ao longo destes séculos separando na aparência
dois seres que na verdade aqui hoje convivem
um breve instante neste corredor nesta passagem
com uma intensidade inacessível a contemporâneos
Prepara-te mulher para dançar
e por nunca dançar hás-de dançar em toda a parte
todas as danças que se têm sucedido
sobre esta terra grave e oscilante entre o dia e a noite
firme no solo inconstante no mar
através deste tempo que separa e une
e tanto mais nos une quanto mais separa
Não sei o que pensavas tu dançar
mas eu vi-te dançar ballet e música yé-yé
vi-te dançar giselle e vi-te até dançar
um único momento ao som de música moderna
há pouco tempo ainda na estalagem de saler
És toda a gente que na dança afinal tem procurado
deter o tempo eternizar o instante
Prepara a dança e põe em prepará-la
todo o cuidado de que és capaz
Só por ti não passaram vinte e tantos séculos
só tu não suportaste o dia-a-dia
não sofreste com guerras não tiveste fome
nem morreste sequer como cada pessoa
que teve nesta terra a vida e que pagou por tê-la
Prepara-te mulher e permanece e petrifica
assim serás feliz por nem teres começado
uma coisa que como uma das nossas muitas coisas
já mesmo ao começar havia terminado


 

15/10/2023

ANTROPOFAGIA ( Carvalho Júnior )

 Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas

Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!

NA PENUMBRA ( Raimundo Correia )

 Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,

Lembras-te? apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo.

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados.

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

ABC ERÓTICO ( Noel Ferreira )

 Abre-te!

Beija-me!
Cobre-me!

Amar-te é volúpia
Brincar é malicia
Carícia é pingo de mel.

Ai!
Basta!
Cala-te!

Abraço-te, queres?
Belisco-te, gostas?
Colo-me a ti, einh?

Ah!
Biscoito
Crocante!

Às nuvens subi
Bebendo o teu néctar
Crescendo-me em ti!

Ata-me!
Bebe-me!
Come-me!

Agora imparável
Brutalmente bom
Cada vez melhor!