10/01/2024

CANÇÃO ( António Cabral )

 Ela caminhava toda,

tudo nela caminhava.

Seu corpo de húmida uva
abandonava-se em rios.

Divergência convergente,
uma árvore fluente.

Átrio de rosas, colmeia,
espiga de água seria.

Toda de sim contornada
de não que de sim ardia.

MUDANÇAS ( Eva Vaz )

 Agora saio com putos

mais novos
e drogo-me muito mais.

E já não me incomoda
que os homens me olhem
imaginando possível
a carne.

Chamam-me para os sanitários
com suas embolias seminais,
suas misérias de sábado à noite.
Com caramelos nos bolsos.

E tudo está por fazer.
Que não se acabe a noite.
Que não se acabe esta
noite maldita.
Baila,
baila...
Que não termine esta
mentira.

OLHO-TE PELO REFLEXO ( Ana Luísa Amaral )

 Olho-te pelo reflexo

do vidro
e o coração da noite

e o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.

SARÇA ARDENTE ( Ana Luísa Amaral )

 Um toque leve,

e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo

MULHERES INFIÉIS (Agustina Bessa-Luís)

 O Porto tinha uma condescendência especial para as mulheres infiéis, se elas eram inteligentes bastante para não preferirem o amante aos deveres da sociedade.


Não se discutiam os gostos, logo que não se cometessem erros com eles.

E era um erro enternecer-se por um destino quando se tratava apenas de amar um homem, coisa breve e sem muito de herético. 

TE LEIO ( António de Almeida Mattos )

 Te leio

poro a poro


e reescrevo
a golpes de cálamo


E ternura

VENHO DE DENTRO, ABRIU-SE A PORTA ( Luiza Neto Jorge ) in A Lume, Assírio & Alvim, 1989

 Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

APELO ( Luísa Dacosta )

 Atravessa os campos da noite

e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

CHAMAMENTO ( Luísa Dacosta )

 Da margem do sonho

e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossivel jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

06/01/2024

A UM JOVEM POETA ( Manuel António Pina )

 Procura a rosa.

Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.

05/01/2024

POEMA DE AMOR ( Ruy Cinatti )

 Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 

tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,

nós olhando triste uma saudade imensa

num corpo de mulher metamorfoseada. 

 

Sou demasiado são para me esquecer

do tempo apaixonado que vivi nos teus braços

e bebo no teu um coração meu

adormecido no mar do meu cansaço

ou no rio das minhas secas lágrimas. 

 

Tardará muito, se é que as horas contam, 

ver-te, de novo, perto de mim, longe, 

mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 

um dia a menos, o da tua chegada. 

E assim me fico, rente ao horizonte,

abrigado da chuva numa cabine telefónica,

e ligo para ti - que número? - ninguém responde

do oceano que avança e retrai colinas,

o vulto de um navio, tu na amurada

acenando um lenço, ó minha pomba branca!

 

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva

- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... 

escurecendo os teus cabelos,

ou, se preferes, a minha boca neles 

carregada de ilhas, de nocturnos perfumes

que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 

na minh' alma inquieta um outro bater d' asas

ou num jardim um leito de flores!


31/12/2023

ELEGIA : INDO PARA O LEITO ( John Donne )

 Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
     Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
     Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
     Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.


SEM CULPA (Judith Teixeira )

 Dizes agora que eu quis acabar;

que sou culpada dos teus tristes dias;
que não te amei ou não te soube amar;
porém é falsa a teima em que porfias.

Deixavas-me sozinha, a delirar
ciúmes, em loucuras e bravias
crispações; começava a agonizar
o meu amor, e tu nada fazias!

Não querias acabar mas insististe
nesta separação tão longa e triste
e escrevias-me cartas tão banais!

Porque quiseste ser o meu ausente?
se o meu amor já era tão doente
e eu não podia acreditar-te mais!


 

RAJADA ( Judith Teixeira )

 Abram-se as portas do inferno

para o meu amor!
Rasgue-se a terra num rugido eterno
para solver a minha dor!

Trágica cavalgada
do meu pensamento!
Tu andas batalhando o meu tormento
Num rumor de maldição!

Oh rajada infernal!
leva-me o coração,
onde vibra a agonia do meu mal.

E se amarrada à minha cruz de fogo,
nesta ânsia rubra, eu não vencer a dor,
dispersa seja a queixa do meu rogo!
- E que o vento e as ondas,
a fiquem gritando
num eterno clamor!

30/12/2023

CAMPO COM MULHER AO FUNDO ( Nuno Júdice )

 Abri as folhas de um canto de flores nómadas,

de veios apodrecidos e pele rugosa, a desfazer-se
nas mãos que procuravam o corpo da deusa do campo,
de braços enterrados na erva selvagem e rosto virado
para o céu. Procurei nesse livro de arbustos a cor
dos seus olhos, e o fogo do sol reflectiu-se neles,
cegando-me para que não continuasse essa leitura
demente. Mas a sua voz entrou-me pelos ouvidos
da alma, e fi-la soletrar cada sílaba do seu nome, para
não o esquecer nas noites amargas dos longos
continentes em que a saudade, num murmúrio
de corolas sacudidas pelo cansaço do branco, se
prolonga até de madrugada.
Fi-la estender os seus braços na terra húmida
de um breve orvalho, e contei os passos que faltavam
para romper o canavial e descobrir, nesse rio de espumas
sensuais, uma deriva de aves perdidas da sua migração. E
pousei-a numa cama de tábuas e de estevas, coberta
por um pano de palavras tecidas pelas mãos do amor,
desenhando os seus lábios com o sulco de asas que
arranquei ao voo de uma sombria libélula. Toquei
nos seus seios o seu casulo; e senti uma respiração suave
como a aragem que atravessou a colina de onde a vi
descer, empurrada pelos braços de um desejo
de cadências obscuras, de mudos suspiros, de
uma floração de murmúrios ao ouvido da noite.
Recortei esse campo do seu horizonte e colei-o
na página da minha memória, para o percorrer na ausência
do seu corpo. Então, luminosa, a imagem ressurge desse
canto de aves e de vento, e visto-a com o perfume
aveludado da primavera fugitiva. Ainda ouço a sua voz,
na cansada mansidão de um leito de manhãs incandescentes.

ALICE QUEIROZ, in JARDIM DE AFECTOS

 Não é por acaso

que existe um espaço
entre dois braços
lugar onde se semeiam
germinam e crescem
os abraços
No espaço
entre dois braços
exauram-se medos e agonias
removem-se pedras do caminho
fecundam-se sonhos
criam-se laços
No espaço entre dois braços
calam-se as vozes e os passos
falam os sentidos consentidos
nasce a vertigem de coração
com coração sem embaraços
Não não é por acaso
que existe um espaço
entre dois braços
lugar onde se semeiam
e crescem os abraços


29/12/2023

PUDESSE EU VIVER ( Maria Teresa Horta )

 Pudesse eu viver

no interior da poesia
cada palavra um rigor
cada maneira de amor
que eu descrevesse
cada verso do corpo
e do despir, cada rima
de beleza e de fragor
cada poema de paixão
e liberdade
de tristeza e solidão

22/12/2023

MINHA VIDA (Judith Teixeira )

 Tu estás doente meu amor, porquê?

Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente...
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

ROSAS VERMELHAS ( Judith Teixeira )

 Que estranha fantasia!

Comprei rosas encarnadas
às molhadas
dum vermelho estridente,
tão rubras como a febre que eu trazia...
- E vim deitá-las contente
na minha cama vazia!

Toda a noite me piquei
nos seus agudos espinhos!
E toda a noite as beijei
em desalinhos...

A janela toda aberta
meu quarto encheu de luar...
- Na roupa branca de linho,
as rosas,
são corações a sangrar...

Morrem as rosas desfolhadas...
Matei-as!
Apertadas
às mãos-cheias!

Alvorada!
Alvorada!
Veio despertar-me!
Vem acordar-me!

Eu vou morrer...
E não consigo desprender
dos meus desejos,
as rosas encarnadas,
que morrem esfarrapadas,
na fúria dos meus beijos!

VOLÚPIA ( Judith Teixeira )

 Era já tarde e tu continuavas

entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas! Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se e numa luz vencida,
Sorveu, sorveu o mel dos nossos beijos!

SINFONIA HIBERNAL ( Judith Teixeira )

 Adoro o inverno.

Envolvo-me assim mais no teu carinho,
friorenta e louca...
Nascem-me na alma os beijos
que se vão aninhar na tua boca!
Gosto da neve
a diluir-se ao sol
em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo...
E a neve fulgente
dos meus dentes trémulos,
vai fundir-se na taça ardente,
rubra e original,
na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor
na doce sombra dos teus cabelos,
e eu envolvo-me toda nos teus braços
para dormir e sonhar!
- lá fora que não deixe de chover,
e o vento que não deixe de clamar!
Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
se me abrasa o teu olhar
vivíssimo?!
Atei, meu amor, o fogo em que me exalto...
- Enrola-me mais...
ainda mais no teu afago;
que esta alegria do nosso amor
suavíssimo,
será mais forte e gritará mais alto!


 

BAILADOS AO LUAR ( Judith Teixeira )

 Pétalas de rosas

tombam lentamente, silenciosas.
E de vagar
vem entrando
a farândola rítmica
e silente
dos góticos bailados do luar!

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido.
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
pálido e vencido!

No espaço azul e vago,
esvoaça subtilmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!

Estilhaçam-se, vibrando
numa ânsia doentia,
os meus nervos nostálgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado.

As rosas vão tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada
dos espásmicos beijos do luar.
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,

a procurar-te!