14/07/2024

SORRISO DE LUZ ( Gilson Peranzzetta / Nelson Wellington )

 No primeiro olhar

Deu pra imaginar
Vai acontecer
Tentei evitar
Mas ao desviar
Vi um céu de estrelas
E ao sorrir, que luz
Seu riso tem uma luz
Que ninguém mais traduz
Só o luar
Chegou pra ficar, pra iluminar
E me enlouquecer

Ao se aproximar
Não deu pra negar
Não pude esconder
Li no seu olhar
Estava escrito lá
Até nas estrelas
E ao sorrir, que luz
Que brilho ela possui
Meu Deus, ela seduz
Com seu olhar
Veio pra ficar
Pra me encantar
E me envolver

Loucos pra sonhar
Foram se entregar
Sem ninguém saber
Risos pelo ar
Livres para amar
Sede de viver
Não sei como foi
Mas se a vida pôs
Tudo entre nós dois
Então vai ser
E esse amor em nós
Vai sorrir após
Cada amanhecer


 


13/07/2024

CAIN ( Yvette K. Centeno )

 Mas afinal o  que era

aquele pedaço de terra
de côr sangrenta
situado entre dois rios

não tinha gente
não podia ser país

Cain chegou ali
com as suas mulheres
roubadas pelo caminho.
Parou e disse
vou ter aqui os meus filhos
vamos erguer cidades
muralhas a rodear os templos
dos velhos deuses sagrados
vou fazer um país

Assim se fez,
mas reza a lenda
Cain
com a memória de Abel
não conseguiu ser feliz

11/07/2024

EU, MULHER (Maya Angelou) (tradução: Lubi Prates)

 Seu sorriso, delicado

rumor de paz.
Revoluções ensurdecedoras se aninhando no
decote dos
seus seios.
Reis-pedintes e sacerdotes de anéis vermelhos
buscam a glória no encontro
entre suas coxas.
A pegada dos Leões. O colo das Ovelhas.
.
………Suas lágrimas, joias
………arrumadas num diadema
………que fizeram com que os Faraós mergulhassem
………fundo no seio do
………Nilo. Spas do Sul fecham rápido
………suas portas à noite quando
………os ventos da morte sopram seu nome.
………A noiva dos furacões.…………..O enxame de ventos de verão.
.
Sua risada, ressoando mais alto
que os sinos das catedrais em ruínas.
Crianças tentam alcançar em seus dentes
modelos de como viver suas vidas.
O pisar forte dos pés. Um bando de mãos rápidas.

REVERSOS ( Maya Angelou ) no livro Poesia Completa. tradução Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

Quantas vezes nós devemos
da bunda à cabeça
Da mente ao rabo
do flanco às bolas
do pinto ao cotovelo
do quadril ao dedo do pé
da alma ao ombro
confrontar a nós mesmos

em nosso passado.

VENHA E SEJA MEU AMOR (Maya Angelou) in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 A estrada está cheia de carros grandes

indo rápido demais para lugar nenhum
E o pessoal anda fumando qualquer coisa que pegue fogo
Algumas pessoas cobrem suas vidas com uma taça de coquetel
E você senta e pensa
para qual lado ir.
Deixa comigo.
Venha. E seja meu amor.
.
Alguns profetas dizem que o mundo acabará amanhã.
Enquanto outros dizem que nós temos mais uma ou duas semanas
O jornal está cheio de todos os tipos de horrores desabrochando
E você senta e pensa
O que irá fazer.
Deixa comigo.
Venha. E seja meu amor.

AGORA HÁ MUITO TEMPO (Maya Angelou) in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Numa primavera inocente

sua voz era para mim
menos que pneus rodando
numa rua longe daqui.
.
Seu nome, talvez dito,
não era seguido por um coro
de batutas
sem ensaio
batendo contra meu
peito vazio.
.
Aquela primavera fria
foi encurtada pelo
seu verão, corajoso, impaciente
e tudo foi esquecido
exceto quando o silêncio
vira a chave
do meu quarto, no meio da noite
e vem dormir sobre o seu
travesseiro.

AINDA ASSIM EU ME LEVANTO (Maya Angelou) (trad.: Lubi Prates)

 Você pode me marcar na história

Com suas mentiras amargas e distorcidas
Você pode me esmagar na própria terra
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
.
Meu atrevimento te perturba?
O que é que te entristece?
É que eu ando como se tivesse poços de petróleo
Bombeando na minha sala de estar.
.
Assim como as luas e como os sóis,
Com a certeza das marés,
Assim como a esperança brotando,
Ainda assim, eu vou me levantar.
.
Você queria me ver destroçada?
Com a cabeça curvada e os olhos baixos?
Ombros caindo como lágrimas,
Enfraquecidos pelos meus gritos de comoção?
.
Minha altivez te ofende?
Não leve tão a sério
Só porque rio como se tivesse minas de ouro
Cavadas no meu quintal.
.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda, como o ar, eu vou me levantar.
.
Minha sensualidade te perturba?
Te surpreende
Que eu dance como se tivesse diamantes
Entre as minhas coxas?
.
Saindo das cabanas da vergonha da história
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e pulsante,
Crescendo e jorrando eu carrego a maré.
.
Abandonando as noites de terror e medo
Eu me levanto
Para um amanhecer maravilhosamente claro
Eu me levanto
Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,
Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

VERSOS A LOU ( Guillaume Apollinaire )( tradução: Décio Pignatari )

 Meu lobinho adorado queria morrer no dia em que você me amasse

Queria ser bonito para que você me amasse
Queria ser forte para que você me amasse
Queria ser jovem jovem para que você me amasse
Queria que guerra recomeçasse para que você me amasse
Queria agarrar você para que você me amasse
Queria dar palmadas na sua bunda para que você me amasse
Queria maltratar você para que você me amasse
Queria que estivéssemos sós no meu estudiozinho junto ao terraço deitados na cama do fuminho de ópio para que você me amasse
Queria que você fosse minha irmã para amar você in-ces-tu-o-sa-men-te
Queria que você fosse minha prima para que a gente pudesse se amar bem jovem
Queria que você fosse meu cavalo para cavalgar você muito tempo muito tempo
Queria que você fosse meu coração para sentir você sempre em mim
Queria que você fosse o paraíso ou o inferno conforme o lugar aonde eu vou
Queria que você fosse um menino para que eu fosse o seu professor
Queria que você fosse a noite para eu amar você nas trevas
Queria que você fosse a minha vida para que ela fosse só de você
Queria que você fosse um obus alemão para me matar de um amor súbito

De Velimir Khlébnikov ( tradução: Marco Lucchesi )

 calçando botas de olhos negros,

nas flores de meu coração.
Meninas que pousam as lanças
no lago de suas pupilas.
Meninas que lavam as pernas
no lago de minhas palavras.

EXPANSÕES ( Paul Géraldy ) (tradução: Guilherme de Almeida)

 Eu gosto, gosto de você

Compreende?
Eu tenho por você uma doidice
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse? 
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
Para que você sinta? 
O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer cousa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar.
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
Essas palavras e que eu diga,
E você saiba. Mas, o que?
Se eu soubesse falar
Como um poeta que sente,
Diria eu mais do que
Quando tomo entre as mãos
Essa cabeça linda
E cem mil vezes, loucamente,
Digo e repito
E torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!

ABAT-JOUR ( Paul Géraldy )(tradução: Guilherme de Almeida)

 Você pergunta porque eu fico sem falar

Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar
porque é noite e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim
Abaixe um pouco mais o abat-jour! Está bem
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos veem,
quanto menos se veem as coisas 
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia
Abaixe ainda mais o abat-jour.
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café. Não podia deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora! E feche a porta!
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer agora o café? Se você preferir
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte! Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que eu prove por
você? Aqui está, minha adorada
Mas que escuro! Não se enxerga nada
Levante um pouco esse abat-jour.

MULHER NEGRA MÃE (Audre Lorde)(tradução: Tatiana Nascimento e Valéria Lima)

 Não te lembro macia

mas pelo teu amor pesado
eu me tornei
uma imagem da tua carne que já foi delicada
partida em esperas traiçoeiras.
.
Quando chegam estranhos e me saúdam
teu espírito envelhecido faz uma reverência
cintilando de orgulho
mas você já guardou esse segredo
no centro das fúrias
me pendurando
com seios vastos e cabelo áspero
com sua própria carne cindida
e olhos fundos de dor
enterrados em mitos de menor valia.
.
Mas eu descasquei tua raiva
até o cerne do amor
e olha, mãe
Eu Sou
um templo escuro onde teu verdadeiro espírito se eleva
belo
e duro como castanha
pilar contra teu pesadelo de fraqueza
e se meus olhos ocultam
um esquadrão de rebeliões conflitantes
eu aprendi com você
a me definir
por suas negações.

SONETO 43 (Elizabeth Barrett Browning)(tradução: Manuel Bandeira)

 Amo-te quando em largo, alto e profundo

Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

08/07/2024

De Eduardo Galeano

 "A igreja diz: o corpo é uma culpa. A ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa".



04/07/2024

A UM SER ESTRANHO ( Walt Whitman )( tradução: Geir Campos)

 Estranho ser que passas! não sabes com que ansiedade ponho

meus olhos em ti,
bem podes ser aquêle que eu andava buscando ou aquela que
eu andava buscando
(isso me ocorre como num sonho),
algures certamente eu já vivi contigo uma vida de alegrias,
tudo é lembrado ao passarmos um pelo outro, fluidos,
afeiçoados, castos, amadurecidos,
cresceste junto comigo, foste menino comigo ou menina comigo,
comi contigo e dormi contigo, teu corpo não se fêz exclusivo
nem meu corpo ficou meu exclusivo,
tu dás a mim o prazer de teus olhos, rosto, carne, ao cruzarmos,
tomas-me a barba, o peito, as mãos, em troca,
eu não estou para falar contigo, mas para pensar em ti quando
me sento sozinho ou quando à noite desperto sozinho,
estou à espera, não duvido de que estou para encontrar-te outra vez,
com isso estou por ver que não te perco.

01/07/2024

DESLUMBRAMENTOS ( Cesário Verde )

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que isso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!

Em si tudo me atrai como um tesouro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de ouro

E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina.

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pelo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

 

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão de acabar os bárbaros reais;

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos – as rainhas!

27/06/2024

NUA E TUA ( Nádia Santos )

 Gosto de me sentir livre

Da roupa que me reveste
O meu corpo se senti leve
E um frêmito gostoso me aquece

Me contempla estou nua!
Das vestes e no pensamento
Desejando amor, que me possua
Sem pudor, sem preconceito

Quando me ponho nua
Diante dos olhos teus
Percebo que se completa
A outra parte do meu eu

Nua e toda tua vou me doando
Meu corpo vai no teu corpo encostando
E ao prazer vamos nos entregando

Dois em um
 é comunhão!
Prazer intenso é excitação!
É algo forte é tesão!


MEU ORGASMO É CURA ( Carmen Faustino )

 Quando a explosão

Toma conta
E aquece o estado
Líquido.
Toda dor
Que esse mundo criou
Para me levar
A exaustão de banzo
Evapora.


Meu corpo
Transcende
Como brisa leve
Beleza africana
Consagração
De um espírito livre
Quilombola


De quem goza 
Por rebeldia e pirraça
Pois o meu prazer
Você racista
Não mata

POR UM FIO ( Neide Almeida )

 Nasci de cabeça feita.

No começo, não sabia.
Entre os hábeis dedos maternos
via os meus crespos fios
domados por um laço,
que me prendia também por dentro. 
Cresci sob um mito,
medo de me ver refletida 
no espelho do que sempre fui. 
Mas ainda menina, meu desejo
já se enroscava, virava trança
e me protegia.

Quando me vi desnuda
olhei demoradamente:
os pés plantados no chão
as pernas, troncos fortes
o ventre escuro
pleno de inquietações.
Mãos e braços regidos
por nossos ancestrais
seios fartos
da seiva que alimenta o mundo.
Vi em mim o riso de meu pai
o olhar de minha mãe.
De repente, me encontrei.

Soltos, meus cabelos
diziam de mim
mais do que qualquer palavra,
raízes que me conectam
com uma gente que veio antes de mim
reinventada na menina que pari.

NÓS ( Neide Almeida )

 Despida de antigos conselhos

abro meu corpo
e incorporo 
os santos que pedem abrigo.
Me desfaço de laços
e me cubro apenas
com a delicadeza de panos atados
por precisos nós.

CORPO ( Neide Almeida )

 Meu corpo é um campo de solo revolto

sob pés guiados por tambores.
Meu corpo é um campo aberto,
arena de muitas disputas.

Meu corpo é um campo sagrado
habitado por ritmos
de vida e de morte.

Meu corpo é um campo marcado
pelo movimento das águas
pela força dos ventos.

Meu corpo é um campo de silenciosas batalhas
atravessado por rios sinuosos
alimentado por incontidas raízes.

Meu corpo é um campo ocupado
por séculos de rebeldia
por cantos de liberdade.

ALTA TENSÃO ( Bruna Lombardi )

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

23/06/2024

LUZES ( Uyara Torrente )

Acenda a lâmpada às seis horas da tarde

Acenda a luz dos lampiões

Inflame a chama dos salões

Fogos de línguas de dragões

Vagalumes

Numa nuvem de poeira de neon

Tudo claro

Tudo claro à noite

Assim que é bom

A luz

Acesa na janela lá de casa

O fogo

O foco lá no beco e um farol

Essa noite

Essa noite vai ter Sol

Essa noite

Essa noite vai ter Sol