12/08/2024

MARÉS ( Silvia Chueire )

 o mar a habitar o corpo

entregue a ti todos os dias
o sonho

o amor entrelaçado às pernas,
entregue ao sonho todos os dias,
o oceano

o sonho a habitar o amor
entregue à vida todos os dias
o corpo

o amor, o corpo,
o sonho, a ir e vir,
o oceano

IMERSA ( Silvia Chueire )

 Há uma palavra imersa em meus sentidos,

um poema que não se pode dizer.

Faz do meu corpo seu país,

deita versos desalinhados

sobre mim.

Depois voa,

seu voo de canção.

UMA PEDRA ( Silvia Chueire )

 Há uma pedra na insônia.

São de pedra as nuvens carregadas e a voz calada.

Um corpo pende no abismo.
Equilibra-se ou não,

como qualquer objeto.

Toda a consciência da pedra,
da luz,

do sangue,

da microscópica importância da existência

se entrechocam.

OLHAR PARA TRÁS ( Silvia Chueire )

 não há nostalgia,

dor,
ou arrependimento.

olhar para trás

traz a satisfação da vida bem vivida.

medo, ousadia, ansiedade, prazer,

perdas, ganhos, riso e lágrimas.

o vinho bem bebido,

a música embalando corpo e alma,

as palavras atadas ao afeto.

olhar para trás traz esta certeza:

viver é preciso.


CORPO ( Silvia Chueire )

 não se pode elidir o corpo

ele é nós. nós somos ele.

pele, artérias, sangue,

órgãos, músculos.

sentidos e sensações.


não se pode fingir que não existe,

ou deixar de pronunciá-lo

em palavras claras

- como se fosse um erro.


é nosso corpo.

e está vivo.

NAUFRÁGIO ( Silvia Chueire )

 naufraguei nas tuas costas

ó país dos desalentos.

perdi-me nas tuas águas
a tempestade a varrer-me
o corpo em ascendido movimento

soube assim da crueldade dos gestos
da inutilidade das palavras

UM MAR ( Silvia Chueire )

 era um mar desmesurado

demasiado mar
e ondas
e poder
e grito por vir

era a emoção súbita
a revelar ao meu corpo
sua natureza fragilíssima
sua pequena natureza humana

era o mar a crescer-me no peito
vozes do mundo
homens e mulheres no amor

era o mundo líquido
suspenso entre a minha respiração
e o vértice da minha vida

MAR ( Silvia Chueire )

 cola a tua boca

no mar que sou
o sal e as ondas

derramadas.

ouves o marulhar
na respiração ritmada
que cresce
e desliza na praia?

às vezes é tudo tão azul
que ofusca

POSSESSÃO ( Myriam Fraga )

 O poema me tocou

Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
Com seu hálito
De brisa perfumada.

O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.

De repente, sem aviso,
O poema como um raio
— Elegbá, pombajira! —
Me tocou com sua graça,
Aceso como chicote,
Certeiro como pedrada.

ARS POÉTICA ( Myriam Fraga )

 Poesia é coisa

De mulheres.
Um serviço usual,
Reacender de fogos.
Nas esquinas da morte,
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde o demônio habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta paixão
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.

LXII ( Hilda Hilst ) in De Amavisse, 1989.

 Que as barcaças do Tempo me devolvam

A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

LUÍZA ( Iracema Macedo ) in Lance de Dardos. Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000

 Não sou precisa

nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
Não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

11/08/2024

TARDIA ELEGIA PARA SYLVIA PLATH ( Afonso Félix de Sousa )

 Sem bater à porta

chego à soleira
do teu delírio

Sem lira ou lírio
feito um verme faminto
me adentro por teus olhos
e roubo e roo
visões que se desfazem
e se refazem
e te apavoram
e te alimentam
enquanto vão te lambendo
as línguas geladas
da morte

Línguas do inferno
oh the tongues of hell

Traduzo-te as palavras
e o que há por trás das tuas
palavras
(What does it mean?)
e sinto-te bela
como se estivesse entrevendo

numa rua de Londres
no outono
de mil novecentos
e cinqüenta e nove
e próxima
como se nos amássemos
há três dias
há três noites
há milênios

Enquanto te traduzo
línguas do inferno
chegam às soleiras
do coração
da mente

Querem lamber-me
e queima-me a tua febre
e molha-me o suor
de tua pele
e tudo o que vês e deixas
de ver
e eu vejo
de dentro de teus olhos
vai-se cobrindo
das cinzas de Hiroshima.


 

A CHEGADA DE MERCÚRIO ( Iracema Macedo ) in Lance de Dardos. Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000

 Acendes espelhos por onde passo

e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes fogueiras viagens
tudo me trazes nos dias
em que ancoras
tua ventania nos meus braços

O HORTO ( Iracema Macedo ) in Lance de Dardos. Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000

 Juazeiro, Juazeiro,

o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
tantas imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

LOTA DE MACEDO SOARES ( Iracema Macedo ) de Poemas Inéditos e Outros Escolhidos. Sebo Vermelho, Natal, 2010

 Lembro-me bem de minha roupa cor de vinho

E pérola e do guarda-chuva
Que também tinha cor de sangue
Aguardando tua chegada sob a chuva

Meu peito sem rédea era socado por pedras
À simples pronúncia do teu nome
Um jardim morto
Era o que havia então
Onde fui bela e forte e tu eras amada

Lembro-me bem do meu pranto de meretriz
Dos escândalos que fiz e do consolo infeliz
Que tu me davas com aquela maldita frase
De Oscar Wilde:
"Os corações existem para ser despedaçados"

ANÚNCIO DE ANTIQUÁRIO ( Iracema Macedo ) de Poemas Inéditos e Outros Escolhidos. Sebo Vermelho, Natal, 2010

 Aceito toda forma de dor

Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados

Até navios desaparecidos
guardo

Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios

E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos porta-retratos

Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio

A TERRA E O FOGO ( Iracema Macedo ) de Poemas Inéditos e Outros Escolhidos. Sebo Vermelho, Natal, 2010

 Terra úmida é o que sou

E tua voz me fecunda
Abre fendas em mim
Por onde os meninos vão nascer

Sou essa planície deitada
Sob o vento forte
Esse vale que invades
Sou domínio teu
Tua carne
Cera sob o teu poder

Sou o que queres que eu seja
Enxame, cardume, aves
Noite, noite, noite
que a tua luz esmaga sem vencer

CANÇÃO DA MULHER QUE VIROU BARCO ( Iracema Macedo ) in Lance de Dardos. Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000

 Transgrido tantas leis

que já nem sinto
Entro em um mar de águas-vivas
que ardem, ardem, ardem
mas nem doem
parece que me alisam
com seus pelos frágeis

Cada vez me afoito mais
e não encontro margens
e não encontro porto
só encontro tempestades
onde atracar

Nesse excesso de sal
nesse mar escuro em que me perco
me iluminas com o teu desejo
me serves de farol quando anoiteço
e me guias me guias me guias
jorrando tua luz
sobre meus seios

BEATRIZ ( Iracema Macedo ) in Invenção de Eurídice. Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2004

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

CARPE DIEM ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 Não precisa ser um longa metragem

pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
Beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde

O PEIXE DO PALÁCIO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 o corpo é pequeno

para o que acontece aqui
a pele sem contorno
essa água sem fim

escuta o grito das baleias
o arpão e a harpa em mim

engole o mar do japão
vê o peixe do palácio e o silêncio
radioativo da sabedoria oriental:

o coração está cheio de sangue
a lágrima cheia de sal

DO CORPO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 agora sim fiquei possível

não sou mais vaporosa
sou coisa de pegar
minha matéria é morna
estou em estado de corpo
cheia de peso e forma
salva de mistérios outros

g ( Micheliny Verunschk ) in Geografia Íntima do Deserto. Círculo de Poemas, São Paulo, 2024

 Era um gato de ébano

estático e mudo:
um gato geométrico
talhando em silêncio
o seu salto mais duro.
Era um gato macio
se visto de perto,
um bicho de carne
ao olho certeiro,
arrepio de sombra
subindo nas pernas,
um lance no escuro,
um tiro no espelho.
O gato era um ato,
uma estátua viva,
uma lâmpada acesa
no umbigo de Alice.
Era um gato concreto
no meio da sala:
era uma palavra
afiando palavras.
Era a fome do gato
e sua pata à espreita,
veludo-armadilha:
uma única letra.

HOJE ACORDEI ( Micheliny Verunschk ) in Geografia Íntima do Deserto. Círculo de Poemas, São Paulo, 2024

 hoje acordei

com a chuva
chiando na janela,
levantei,
olhei o mundo em volta,
e fui para a cozinha,
o feijão chiando na panela
imitou a chuva,
pássaro caprichoso,
o cheiro do alho esmagado
misturado ao cheiro
de terra molhada
entrando pelas frestas,
o buda bocejando,
os olhos mal abertos,
se espanta com tanta agitação
num dia ainda escuro,
como se dissesse
que hoje seria dia apenas
para filosofias e números puros,
mas é que hoje acordei
com a chuva chiando
na panela de tudo.

XXVI ( Micheliny Verunschk ) in Geografia Íntima do Deserto. Círculo de Poemas, São Paulo, 2024

 o vestido desaparece

em tuas mãos
não há linhas
nem mais dobras
nem botões
tudo é silêncio e ruína
e o eterno vento da história
que a tudo varre

e no entanto me sonhas novamente
outra noite outra noite outra noite
esta vida que costuramos
em desejo e incompletude

meu nome teu nome
e o que se inscreve
dentro da memória

HÁ EM MIM MULHERES ( Sônia Barros ) in Tempo de Dentro; Prêmio Paraná 2017. Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2018

 (para Maria Valéria Rezende)

Lua ineludível:

inúmeras faces
que tanto me despem
quanto me mascaram.

Fases tão diversas
e, no entanto, sempre
— sempre — a mesma lua:
muitas e nenhuma.

Ao meu lado um cão
gane o tempo todo.
O seu nome é medo,
sua voz é não;

Há em mim mulheres,
todas com seus cães
ganindo nos becos
deste corpo orbívago.

Há em mim mulheres
ensaiando ser
mais fortes que o medo,
maiores que o cão.

Há em mim mulheres
escolhendo a face
de uma nova lua.
Outras, o interlúnio.

Mulheres me habitam
feitas de coragem
embora nem saibam
que podem vencer.

Eu também duvido
vivo a sucumbir
mas depois revivo:
um dia seremos.

O VENTO ( Ruy Belo )

 Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


05/08/2024

DOS MALES O MENOR ( Leila Míccolis )

 Se te chamo de putinha

sou machista e indecorosa.
No entanto, se não chamo,
você não goza...

SUPERHERÓTICOS ( Leila Míccolis )

 Enquanto o Incrível Hulk

cresce na parte de cima
verde que nem perereca,
a pobre parte de baixo,
vermelhinha de vergonha,
não rasga nem a cueca.
Já o Homem Invisível
tem um troço tão encolhido
que ganhou este apelido.
E o Homem Aranha? Coitado!
Dia e noite, noite e dia
só na luta contra o mal
deve ter teias no pau...
Êta turminha sem sal!

Não é ridículo?
Ninguém agüenta mais os Super Homens,
com seus cintos de utilidade
e estreitas mentalidades...
Homens com maiúsculos agás,
"gagás".
Chega dos valores desta escala:
muito falo e pouca fala.
Se afinal é preciso mudar tudo,
que se tire então, do homem, o H mudo.

SEM DIVÃ ( Leila Míccolis )

 Você fala bonito

sobre fases sexuais
– orais, anais, vaginais –
mas,
cadê que as faz?

POEMA AO MAIS RECENTE AMOR ( Leila Míccolis )

 Estar entre teus pelos e dedos,

entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.

EM ÓRBITA ( Leila Míccolis )

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

AMANTE DAS LETRAS ( Leila Míccolis )

 Não te importas com os homens que dormem comigo;

mas morres de ciúme
dos versos que faço pra eles...


 

POEMA PARA O NAMORADO ( Leila Míccolis )

 Teu lado feminino me erotiza:

são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.

CONFISSÃO ( Leila Míccolis )

 Dizem que o amor é cego,

não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelase as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...