21/01/2025

A ARTE DE SER AMADA ( Natália Correia )

 Eu sou líquida mas recolhida

no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.


 

19/01/2025

A LÍNGUA LAMBE ( Carlos Drummond de Andrade)

 

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 


 

A LÍNGUA GIRAVA NO CÉU DA BOCA (Carlos Drummond de Andrade)

 

COXAS BUNDAS COXAS ( Carlos Drummond de Andrade )

 Coxas    bundas   coxas

bundas  coxas     bundas
lábios    línguas   unhas
cheiros  vulvas     céus
terrestresinfernaisno espaço ardente de uma hora
intervalada em muitos meses
de abstinência e depressão.

MULHERES GULOSAS ( Carlos Drummond de Andrade )

As mulheres gulosas




Ó TU, SUBLIME PUTA ENCANECIDA (Carlos Drummond de Andrade)

 Ó tu, sublime puta encanecida,

que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,

agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.

E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.

Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.

TOADA DO AMOR (Carlos Drummond de Andrade)

 E o amor sempre nessa toada:

briga perdoa perdoa briga.

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas, se não fosse êle, também
que graça que a vida tinha?

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

ANGELA ADONICA ( Pablo Neruda )

 Hoje deitei-me junto a uma jovem pura

como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas estendidas
e oculto fogo.

MULHER FENOMENAL ( Maya Angelou )Tradução: Rita Cammarota

Lindas mulheres indagam onde está o meu segredo

Não sou bela nem meu corpo é de modelo
Mas quando começo a lhes contar
Tomam por falso o que revelo

Eu digo,
Está no alcance dos braços,
Na largura dos quadris
No ritmo dos passos
Na curva dos lábios
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu

Quando um recinto adentro,
Tranquila e segura
E um homem encontro,
Eles podem se levantar
Ou perder a compostura
E pairam ao meu redor,
Como abelhas de candura

Eu digo,
É o fogo nos meus olhos
Os dentes brilhantes,
O gingado da cintura
Os passos vibrantes
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu

Mesmo os homens se perguntam
O que veem em mim,
Levam tão a sério,
Mas não sabem desvendar
Qual é o meu mistério
Quando lhes conto,
Ainda assim não enxergam

É o arco das costas,
O sol no sorriso,
O balanço dos seios
E a graça no estilo
Eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal
Assim sou eu

Agora você percebe
Porque não me curvo
Não grito, não me exalto
Nem sou de falar alto
Quando você me vir passar,
Orgulhe-se o seu olhar

Eu digo,
É a batida do meu salto
O balanço do meu cabelo
A palma da minha mão,
A necessidade do meu desvelo,
Porque eu sou mulher
De um jeito fenomenal
Mulher fenomenal:
Assim sou eu.

EM TI A TERRA ( Pablo Neruda )

 Pequena

rosa,
rosa pequena,
às vezes,
mínima e nua,
pareces
caber numa única
das minhas mãos,
para assim te segurar
e levar à boca,
mas
logo
meus pés tocam teus pés e minha boca teus lábios:
cresceste,
erguem-se teus ombros como duas colinas,
teus seios passeiam-se pelo meu peito,
o meu braço mal consegue abraçar a linha
estreita de lua nova da tua cintura:
solta no amor como a água do mar:
meço apenas os olhos mais vastos do céu
e inclino-me para a tua boca para beijar a terra.

VEM MORRER VIVENDO NOS MEUS BRAÇOS (Lília Chaves)

 Vem morrer vivendo nos meus braços

Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim

Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue

Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minh'alma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe

OS TEUS PÉS (Pablo Neruda ) tradução: Nuno Júdice

 Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

13/01/2025

COM AS MÃOS ( Eduíno de Jesus )

 com as mãos

construo
a saudade do teu corpo
onde havia

uma porta
um jardim suspenso
um rio
um cavalo espantado à desfilada

com as mãos
descrevo o limiar
os aromas subtis
os longos estuários

as crinas ardentes
fustigando-me o rosto
a vertigem do apelo nocturno
o susto

com as mãos
procuro ainda colher o tempo
de cada movimento do teu corpo
em seu voo

e por fim destruo
todos os vestígios (com as mãos)
brusca-
mente

A SAIA COM GIRASSÓIS ( Maria Jorgete Teixeira )

 Volta ela, a inquieta voz, visto a saia do dia, preta com girassóis plantados, aqui e ali, no tecido meio ruço. Gostavas daquela saia, me dizias, a desenhar-me o redondo da anca. Com os olhos mo dizias, com os olhos.

Ai, a seda dos teus olhos e o teu corpo que não se gasta na minha saudade!
Procuro-te, na voz da inquietação, aqui, ali, nos largos, nas esquinas, na areia, em casa, na panela da sopa, nos vasos pendurados no alpendre, nos cantos onde o pó se acumula, entre os móveis ou na curva difícil do fumo do cigarro.
O tempo que não tem retorno, a vida que não se vira, os dias certos, levanta, escova os dentes, escova a vontade de entrar em mais uma volta, mais uma viagem, oiço a vizinha, está quente e é inverno, é verão e não faz calor, pois é, pois é…
Estende-se a conversa ao sol, no varal onde se penduram também as tuas mãos que a minha cintura reclama, onde andas, onde andas?
Onde ficaste perdido, onde fiquei eu e essa menina que fazia vestidos das folhas do castanheiro e das pedrinhas, tachos? E nós, onde? Onde as utopias na tua camisa branca adejando ao vento?
O tempo tudo cura, dizem, e eu repito, em mentira piedosa. A casa e a roupa para lavar e a ferida que arde ainda e sempre e faz regos na alma, a garrafa, o copo da cerveja, um, outro, outro, a procura do abraço, um e outro e outro..
Ai a dor que não se cala!
Ai, o tempo, aos quadradinhos, o teu sorriso irónico e quente, no meio a fome desmedida, da vida, no casco do barco e no pescoço da garça, onde se prende o pensamento e o olhar voa.
Onde tu, onde?

O HOMEM SEM CORAÇÃO ( Maria Jorgete Teixeira )

 Um homem desperta. Um homem ergue-se e vê-se reflectido nas paredes de vidro que aquecem o ninho onde se rasgou em parto.

Um homem acorda da gestação encomendada. Um homem resolveu parir-se outra vez.
Toda a gente deveria ter a hipótese de se gerar de novo, como uma serpente que larga os véus e se reinventa no tempo, roçando o ventre pelo vértice das pedras.
Assim, o homem abriu os olhos ensanguentados e olhou o mundo pela segunda vez. Olhou-o como Caeiro quando inventou o girassol na inocência do olhar. Olhou-o como fita de filme em branco, como virgem à espera do primeiro sémen.
Tinha varrido da memória a infância povoada de corvos e cantos escuros, de lendas tenebrosas vestidas de anjos. Aventada a adolescência da barba por crescer, da inquietação, da masturbação, da rejeição, do medo.
Hibernou no próprio corpo, lua após lua, numa caverna onde não entraram as asas dos arcanjos, nem a vontade dos cometas. Reinventou-se como crisálida, músculos duros e vivos e sangue impoluto, correndo nas artérias desimpedidas de paixões.
Nasceu já crescido e formado com tudo o que era preciso para ser feliz. “Clean” e transparente, sem coração de gente.
No quarto branco e seco onde renasce, há pessoas de largos sorrisos de gato Cheshire que tentam abraçá-lo. Vestidas de areáceas como se vivessem de chuva. Gesticulam, dançam, quais criaturas etéreas, pulam, tocam-se com as mãos e com as bocas. São imperceptíveis as palavras para o recém-nascido. Incompreensíveis na derme, epiderme, tecido mole, ossos, onde se instalaram rouxinóis mudos às emoções.
Chegam até ele e esfregam-se. Abrem os dedos em leque e investigam-lhe a carne. Enlaçam-se os odores, apertam-se.
Desapartam-se à sua estranheza. Não sabe o que fazer. Quer apenas viver o sol e acolher a noite, a vida como figura desenhada num quadro intemporal, depurada e plana.
O toque das pessoas acende-lhe interrogações cujas respostas não inscreveu no seu ADN. Turva-lhe o olhar, que queria límpido e sereno. Indolor.
De súbito nasce a constatação do silêncio, da nudez das veias descoloridas. Da incompletude. A nítida premência das quedas que dobrem a arrogância dos ossos, o manto de dor que justifique a dança dos corpos. E a compaixão.
Dá conta de que os braços lhe são inúteis.

06/01/2025

ESPIRAL ( Mia Couto )

 No oculto do ventre,

o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

04/01/2025

APAIXONADAMENTE DE MIM ( Célia Moura )


Escorre-me pelas pernas
este frémito
é como um séquito
o desejo
que me invade a púbis, as coxas
e o tal infinito clitoriano.
Ah, se soubessem como ele é doce,
audaz, vivo e absoluto de paixão!

Escorrem-me pelas pernas os beijos
que me não dás!
Pelos abundantes seios que acaricio
faço renascerem erectos os mamilos
e por momentos quem me dera ser tu,
mesmo não sendo, beijo-os.
Sabem-me a fêmea e a mar
enquanto tu sempre me soubeste de modo igual.

Escorrem-me memórias desta alma desfeita
enquanto fazíamos amor pelo chão da casa,
pelos becos sempre que nos desejávamos
mais que o próprio desejo.

Não deixei de voar no absoluto meu amor
no tal infinito clitoriano que me invade apaixonadamente
mas escorro silêncio e lágrimas por todos os poros de mim.


UM SONGO ( Manoel de Barros )

 Aquele homem falava com as árvores e com as águas

ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

APRENDIMENTOS ( Manoel de Barros )

 O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura

é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

03/01/2025

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA (Manoel de Barros)

 Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

A MENINA AVOADA ( Manoel de Barros )

Foi na fazenda de meu pai antigamente
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.

Meu irmão pregava no caixote
duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar
as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote
com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote
por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.

Eu comandava os bois:
- Puxa, Maravilha!
- Avança, Redomão!
Meu irmão falava
que eu tomasse cuidado
porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal
E meu irmão nunca via a namorada dele -
Que diz-que dava febre em seu corpo.

01/01/2025

ANSEIO ( Célia Moura )

Anseio famintos
os teus lábios
quando minhas pérolas
já rolam pelo mármore
e aquela música insiste
em saborear rosas
na vertigem dos corpos
Anseio qual fêmea
em pleno cio
ser somente tua
amado!
Despir-te perante
tuas mãos de antúrios
e dançar contigo
entre vodka e incenso
o tango dos amantes,
apetecer jangadas de maresia
entre as pernas
e sentir-te (m)Eu.